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NYFW entre o conforto e a elegância

Nas escolhas dos tecidos para as coleções da primavera-verão 2021, os designers que participaram na Semana de Moda de Nova Iorque mostraram diversidade e, embora a tendência para o conforto tenha sido dominante, também revelaram o desejo de voltar às opções mais formais e elegantes.

Dur Doux [©CFDA]

Numa edição diferente, que se apoiou sobretudo em desfiles transmitidos por streaming e apresentações com lotação muito limitada, que decorreram de 13 a 17 de setembro, a Semana de Moda de Nova Iorque foi um reflexo dos tempos e, além do conforto, a sustentabilidade também não foi esquecida, refletindo-se na utilização de fios e tecidos em stocks e no upcycling e reciclagem de acessórios e adornos. Os analistas de tendências destacam ainda que se sentiu os efeitos da pandemia, traduzidos em modelos mais descontraídos para trabalhar em casa, assim como um regresso a alguns looks do passado.

«Apesar da capacidade de se vestir confortavelmente durante a era do Covid, a cidade focou-se essencialmente em materiais e texturas mais elegantes, oferecendo um antídoto para a estética casual», afirma Ashley Graham, analista de retalho na empresa de inteligência de mercado Edited, citada pelo Sourcing Journal. «O vestuário de noite foi apresentado em tecidos acetinados e transparentes com folhos e adornos para um maior efeito dramático, como mostrado pela Sukeina e por Frederick Anderson», adianta.

As malhas jersey e algodões leves personificaram a atual tendência de conforto, com vestidos-camisola e fatos de treino mais elegantes propostos pela Rodarte, aponta Ashley Graham. O vestuário em malha assumiu os efeitos de corda em ribs e transformou-se em vestidos compridos, enquanto os fios mais pesados ofereceram mais estrutura, como as camisolas da Sandy Liang.

Frederick Anderson [©Frederick Anderson]
A analista de retalho da Edited realça ainda as lantejoulas nos looks completos da Naeem Khan, a somar ao «sentido de pronto para a festa do desfile». A nostalgia manteve-se como um tema importante, retomado por vários designers e espelhado em rendas inspiradas nos anos 60, acentuado ainda por paletas de cores suaves e silhuetas esvoaçantes.

Ao mesmo tempo, o croché personificou uma certa «sentimentalidade infantil» com cardigans abotoados na Batsheva e vestidos com mangas em balão na Anna Sui.

«Observamos que os designers estão a misturar tecidos, com a Imitation of Christ a fazer upcycling para criar visuais semelhantes ao patchwork, enquanto Snow Xue Gao jogou com temas contrastantes para os looks metade fato, metade kimono», explica Ashley Graham.

Duelo de cores

Durante a Semana de Moda de Nova Iorque, emergiram duas paletas de cor contrastantes, indica a analista. A primeira baseada no maximalismo e nos anos 80, com tons como verde esmeralda e rosas fortes, como os usados pela Dur Doux nos visuais para a noite. Silhuetas volumosas e tecidos sedosos enfatizaram ainda mais esta tendência.

A segunda assume uma abordagem mais subtil, com os pasteis apresentados em tons quase invisíveis. A Bevza usou estes tons em fatos contemporâneos, enquanto a Rodarte criou vestidos femininos em tonalidades suaves de rosa, adornados com rosas e franjas.

Sharon Graubard, fundadora e diretora criativa da MintModa, assegura que a pandemia e o confinamento resultante ofereceu uma pausa e um recomeço à indústria da moda e que os designers de Nova Iorque responderam com muito vestuário confortável para usar em casa, assim como tiveram em conta iniciativas fulcrais como a produção responsável e uma abordagem “melhor mas menos”.

Rodarte [©NYFW]
«Quase todas as coleções ofereceram algum tipo de loungewear elegante, normalmente um conjunto, quer em jersey, camisolas de malha fully fashion ou pijamas estampados que podem ser usados de dia ou à noite», reconhece Sharon Graubard. «Um novo item em particular é o vestido de casa: um vestido largo, fácil, que pode ser apropriado para trabalhar a partir de casa, fazer recados ou um encontro casual. Podem ser numa cor sólida ou em estampados maravilhosos, com corte em A ou em camadas e podem ter uma cintura ligeiramente acentuada ou um franzido elástico no tronco para controlar o volume. Muitos destes vestidos são baseados em cafetãs, nos muumuus [vestido solto tradicional do Havai], nos vestidos de deusa plissados ou em estilos camponeses», salienta.

Romantismo artesanal

Outro artigo “simples” é a camisa, oversized ou mais justa, em algodão às riscas ou ginghams. Sharon Graubard esclarece que este último destaca o atual desejo por todas as coisas «cottagecore – como fazer pão, jardinar, ponto de cruz» e, juntamente com quadrados simples, «estamos a assistir ao regresso a adornos feitos em casa, como ricrac [adorno em ziguezague] e golas em croché».

Mesmo quando as peças de vestuário se assumem minimais, passaram um ambiente romântico campestre com mangas em balão, detalhes elaborados ou golas com cordões, exemplifica a diretora criativa da MintModa. O romantismo foi também visível com a utilização de todo o tipo de rendas, que os designers usaram para partes de cima com folhos, muitas vezes conjugados com jeans, assim como em saias, vestidos e mesmo fatos de calça e casaco.

Anna Sui [©Anna Sui]
«O artesanal é ainda uma força motora, mas tornou-se mais refinado e subtil, mostrando-se mais num bolso bem colocado ou numa delicada gravata fina», admite Sharon Graubard. «Do lado inverso de toda a usabilidade e artesanalidade intemporal estão os artigos colecionáveis como casacos pintados à mão, patchwork upcycled e vestidos de festa cheios de folhos, prontos para serem conjugados com t-shirts vintage, favoritos do guarda-roupa ou peças de luxo compradas em segunda-mão para uma mostra exuberante de individualidade pura», elucida.

Moda com distanciamento social

Depois de uma espécie de dieta de loungewear, os consumidores vão provavelmente desejar visuais mais elegantes mas ainda querem manter o nível de conforto a que se habituaram, acredita Hannah Polskin, vice-presidente da TOBETDG do Doneger Group.«Basta ver as malhas da Khaite, onde a manipulação do material parece novo, mas o elastano e a cedência é suficientemente fácil para vestir», refere.

O conceito de distanciamento social parece também ter tido influência sobre os designers, acrescenta Hannah Polskin, com a ideia a manifestar-se nas propostas de Simone Rocha, onde as saias rodadas e espaçosas e as silhuetas mais estruturadas em tecidos grossos parecem ter sido pensadas para permitir espaço pessoal. Há ainda uma quantidade considerável de tule, que ajuda ao volume e injeta uma dose de divertimento, segundo a TOBETDG.

Khaite [©CFDA]
«A pandemia realmente colocou a questão das mudanças climáticas em perspetiva e cada vez mais linhas estão focadas em processos ou tecidos ecológicos», considera Hannah Polskin. «A Stella McCartney acaba de lançar a Stellawear, uma coleção híbrida de lingerie-swimwear completamente produzida com fios reciclados. Há uma abundância de restos de tecidos e de fios da última estação, por isso os designers estão a ser criativos ao dar-lhes novas utilizações e a fazer patchwork. A mistura de tecidos da Preen, que combinam texturas de pipocas com rede exemplificam esta estética sustentável de recuperação», conclui a vice-presidente da TOBETDG.