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O adeus a Karl Lagerfeld

O mundo da moda está de luto. Conhecido como o Kaiser da moda e considerado um dos designers mais icónicos do mundo, Karl Lagerfeld faleceu em Paris esta terça-feira, aos 85 anos. Diretor criativo da Chanel desde 1983 e a trabalhar com a Fendi há mais de meio século, foi o rosto da moda de autor e do luxo.

Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel e da Fendi, morreu esta manhã no Hospital Americano de Paris, onde foi internado na segunda-feira. No último desfile da Chanel, durante a semana de alta-costura de Paris, ao contrário do habitual, o criador de moda não apareceu no final para agradecer. Na altura, a marca avançou que Karl Lagerfeld estava a sentir-se cansado.

Esta terça-feira, em comunicado, a Chanel avança que Virginie Viard, diretora do estúdio criativo da casa de moda e a trabalhar ao lado de Karl Lagerfeld há mais de 30 anos, irá suceder ao criador alemão. Alain Wertheimer, CEO da casa de luxo francesa, escreve que «graças ao seu génio criativo, generosidade e uma intuição excecional, Karl Lagerfeld estava à frente do seu tempo, o que contribuiu para o sucesso mundial da Chanel. Hoje, não só perdi um amigo, como todos perdemos uma mente extraordinária e criativa a quem eu dei carta branca no início dos anos 80 para reinventar toda a marca», referiu, em comunicado, citado pelo Business of Fashion.

Criar moda é como respirar

O designer de moda nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 1933, e dedicou toda a sua vida à moda. Em 1955, iniciou a sua carreira como assistente de Pierre Balmain. Em 1965, Lagerfeld juntou-se à Fendi, a convite das cinco filhas do casal fundador da casa de moda italiana, onde se manteve mais de 50 anos. Durante a década de 1960, colaborou também com a Chloé e, em 1974, tornou-se diretor criativo da marca, mantendo uma relação próxima com a mesma até ao final do século. É na década de 1980 que entra na Chanel. Na altura, dizia que trabalhava 16 horas por dia e era feliz por fazê-lo. Em 1984, fundou a sua marca epónima, que, entretanto, ganhou um alcance global.

Numa carreira que durou cerca de setenta anos, Lagerfeld criou coleções para casas de moda como a Chanel ou a Fendi, bem como para a sua própria marca, a um ritmo inigualável na indústria do luxo. Para o Kaiser da moda, criar moda era como respirar. «Se eu não conseguir respirar, estou com algum problema», brincava, muitas vezes, em resposta a jornalistas que questionavam a insistência em não se reformar. «Não há um segredo para a vida. O único segredo é trabalhar. Organiza-te e tem uma vida decente. Não bebas. Não fumes. Não consumas drogas. Tudo isso ajuda», apontou.

A passerelle era o seu palco

Da vida do emblemático criador de moda destacam-se as suas produções na passerelle do Grand Palais, em Paris, que atingiram um nível teatral. Os eventos ultrapassavam as fronteiras dos desfiles de moda para se tornarem em verdadeiros momentos performativos e espetáculos mediáticos, onde Karl Lagerfeld demonstrava a sua capacidade de conjugar as superficialidades da moda com temáticas de grande profundidade, enquanto simultaneamente fazia desfilar infinitas formas de manter os tradicionais tweeds da Chanel modernos e inovadores.

A sua coleção para o outono de 2017 contou com a presença de um foguete espacial de grande dimensão, que simulava um grande lançamento. Na coleção de outono de 2014, transformou o Grand Palais num centro comercial, onde estavam expostos mais de 500 produtos diferentes que incluíam uma motosserra, tapetes, doces e ketchup. Para o outono de 2010, o designer importou neve e gelo da Suécia para criar um iceberg de 265 toneladas. Na memória ficam ainda cenários como uma reprodução da Torre Eiffel, uma brasserie francesa e um modelo gigante de um navio.

A longevidade e o sucesso do designer, deveram-se, pelo menos em parte, ao desapego intencional de Lagerfeld do lado empresarial da moda. O criador garantia que nunca tinha discutido resultados de vendas ou orçamentos. «Eu sou uma arma, até na minha própria marca», referiu, numa entrevista à BBC, garantindo que os seus contratos com a Chanel e a Fendi lhe permitiam fazer o que quisesse. «É algo que eu controlo», referiu ao New York Times.

Do luxo e não só

Coca-Cola

Com designers com metade da sua idade a queixarem-se de esgotamentos devido ao ritmo acelerado da indústria da moda, Karl Lagerfeld fez questão de se manter ainda mais ocupado, explorando mundos como o da fotografia, do cinema e vários projetos de design, incluindo a disruptiva colaboração com a gigante sueca H&M, em 2004, a primeira colaboração do género, que ditaria uma estratégia global para as retalhistas.

H&M

Além de colaborar com marcas como a Vans, a Coca-Cola ou a Faber Castell, o criador de moda também desenhou quartos de hotel, videojogos, capacetes de mota, um BMW, uma gama de cosmética inspirada pela sua famosa gata, Choupette, e dirigiu uma campanha para a Magnum. «Seja o que for, mau ou bom, influencia a moda. Reflete-se mais rapidamente na moda do que em qualquer outro ramo. A moda é algo que reflete as nossas vidas e o nosso tempo, no mais breve espaço de tempo, porque os carros, o design e a arquitetura demoram anos a concretizarem-se», afirmou o designer.

Tão emblemático quanto polémico

Frases como «as calças de fato de treino são um sinal de derrota» ou «acho que as tatuagens são horríveis – é como viver no vestido da Pucci a tempo inteiro» tornaram-se parte da imagem de Karl Lagerfeld, à semelhança da assinatura do cabelo impecavelmente branco e penteado num rabo-de-cavalo preso com um laço de veludo, óculos escuros e camisas brancas. As suas críticas em relação a Angela Merkel, por exemplo, tornaram-se polémicas, quando evocou o holocausto num programa televisivo francês, em 2017, enquanto criticava a política de abertura da Alemanha em relação a refugiados muçulmanos. Porém, em momento algum houve repercussões sérias para o designer ou ameaças ao seu estatuto, provavelmente devido ao seu posicionamento na indústria e o seu longo historial de conquistas.