Início Notícias Mercados

O amanhecer do luxo em Myanmar

A economia do Myanmar, atrofiada nas décadas após o golpe militar de 1962, tem crescido rapidamente desde 2012, ano de arranque de profundas reformas políticas e de uma vaga de investimento estrangeiro. Agora, o país é visto como uma aposta a longo-prazo em matéria de luxo.

Os lucros provenientes da madeira, minerais e das indústrias de petróleo e gás têm alimentado mercados imobiliários urbanos e o comércio interno de joalharia topo de gama. Porém, as marcas internacionais eram praticamente inexistentes antes da abertura do país.

Em 2015, a economia do Myanmar crescia a um ritmo de 7% ao ano, acima dos 5,6% de 2011, e novos arranha-céus e shoppings foram florescendo ao lado dos edifícios majestosos da época colonial.

Quase todos os novos espaços de retalho de Yangon – capital de negócios do Myanmar e a cidade mais cosmopolita – apontam para consumidores com um poder de compra baixo a médio e os clientes que podem comprar bens de luxo optam pelo canal online ou por viagens para Singapura e Tailândia ou para o continente europeu, afirmam analistas e empresários. Contudo, algumas marcas de luxo estrangeiras estão a começar a vender relógios e outros artigos de luxo no país. «É bom estar lá no início», acredita Nicholas Rudaz, diretor da joalheira suíça Franck Muller. «E, claro, este é um investimento a longo prazo», sublinha.

Mesmo com os novos shoppings, o espaço total de retalho de Yangon ainda é residual, comparado com o de Banguecoque e de outros centros do sudeste asiático. Antony Picon, diretor da imobiliária Colliers, acredita que a chegada das grandes marcas de luxo a Myanmar não deverá acontecer nos próximos cinco a 10 anos, ainda que algumas cadeias de cosmética possam abrir portas em hotéis de luxo, um ritual de retalho comum em mercados emergentes.

Mas, a longo prazo, o crescimento do retalho do país poderá ser explosivo, antecipa Gregory Miller, sócio-gerente da Myanmar Capital Partners, uma empresa de serviços financeiros com sede em Banguecoque e equipa em Yangon. «Não faz sentido estabelecer comparações com Laos e com o Camboja, porque não são ricos em recursos», advoga Miller. «O Myanmar vai ser mais como a Tailândia», sustenta.

Gregory Miller defende também que a procura por retalho de luxo virá não só da elite endinheirada existente, mas também de uma classe média emergente e de emigrantes que vão regressar a casa em busca de oportunidades de negócio. A situação «vai mudar porque os responsáveis de vendas vão dizer: “precisamos de estar em Myanmar”», afirma. «E algumas pessoas vão dar o salto», acrescenta.

Um sinal claro de crescimento é a Swiss Time Square, uma boutique multimarca de joalharia que abriu em 2013 na periferia de Yangon. Os preços começam em algumas centenas de dólares, para os modelos Tissot e Rado, e sobem para os 1,3 milhões de dólares (aproximadamente 1,2 milhões de euros) para um Rolex de diamantes e rubis.

«Usar relógios Rolex é como comprar carros: se comprar um carro BMW ou Mercedes, isso significa que as outras pessoas vão saber que sou rico», afirma Tay Zar Win Htoo, supervisor de vendas na Swiss Time Square. No entanto, explica, a média de vendas na Swiss Time Square ronda os 500 a 1.000 dólares.

Ainda assim, o luxo está a ser incluído em vários projetos imobiliários no centro de Yangon. Um deles é o Landmark Development, um projeto programado para abrir em 2019 ou 2020, com um luxuoso Peninsula Hotel, de acordo com a Yoma Strategic Holdings, responsável pelo projeto.

Nas proximidades, a Sule Square, um projeto do Shangri-La Group, conglomerado com sede em Hong Kong, estava praticamente concluído no início deste verão. Yinn Mar Nyo, diretora de vendas e responsável de marketing da Sule Square, revelou que a área de retalho do projeto incluirá a primeira loja monomarca da Rolex em Myanmar. Todavia, Mar Nyo acrescentou que o público-alvo do shopping serão os consumidores com um poder de compra médio. «Há consumidores para bens de luxo, mas em termos de volume poderão não ser o suficiente», justifica.

Ivan Pun, empresário de Myanmar cujo pai, Serge Pun, é presidente executivo da Yoma Strategic Holdings, refere que chegou a uma conclusão semelhante sobre o sector de retalho de Myanmar depois de trabalhar com uma loja pop-up que oferecia marcas internacionais. «O público-alvo que tinha em mente – mulheres nos seus 20 e 30 anos com um alto rendimento disponível – entraram pela porta, mas isso não se traduziu em vendas», recorda sobre o projeto que contava com marcas como a 3.1 Phillip Lim e Mary Katrantzou

Pun, que já trabalhou em Nova Iorque e Pequim, tem vindo a abordar marcas de luxo internacionais, estando aberto a parcerias com algumas, mas que nenhuma se mostra disponível para abrir uma loja monomarca em Yangon, porque consideram o mercado de luxo de Myanmar muito jovem.