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O aprovisionamento de proximidade

As marcas de moda começam agora a aprovisionar-se em fabricantes do Leste Europeu e na América Central para conseguirem maior rapidez de resposta. O reshoring, o regresso a casa da produção, está a dar lugar ao nearshoring, ou aprovisionamento de proximidade.

A Moncler aprovisiona cerca de metade dos seus produtos em Itália, onde artesãos locais produzem artigos como bolsas de couro, cachecóis e luvas. As suas operações de confeção, no entanto, estão sediadas na Europa de Leste, onde a Moncler confeciona o produto sob vigilância atenta e inspeções semanais. Isso inclui os blusões da marca, o seu core business. No ano passado, a Moncler estabeleceu um novo centro de produção na Roménia e contratou 600 trabalhadores, tendo comprado um fornecedor local no ano anterior. As valências técnicas e o nível de qualidade encontrados na produção romena desencadearam o movimento.

Contudo, esta não é a única marca de luxo que aposta no aprovisionamento de proximidade, prática considerada não competitiva em comparação com fornecedores da China, Índia e Sudeste Asiático. As marcas de luxo acessível, em particular, estão a deslocalizar a produção para os mercados mais próximos de casa, onde encontram fornecedores de alta qualidade e um euro mais fraco em relação ao dólar. Além disso, trabalhar com fornecedores mais próximos dos grandes mercados de consumo na Europa permite que as marcas sejam mais reativas à procura, aumentando a produtividade geral.

A mesma dinâmica pode ser encontrada nos EUA – ainda o maior mercado de consumo do mundo. Honduras, El Salvador e Guatemala oferecem, cada vez mais, uma combinação de baixos salários, competências técnicas e proximidade, permitindo-lhes competir com os hubs asiáticos. «Existem algumas categorias em que se torna muito interessante [para as marcas europeias] aprovisionar-se na Europa porque a diferença de preços [com a Ásia] tem uma percentagem muito baixa e é muito mais conveniente, não implica grandes viagens, impostos e pode ser-se muito mais reativo», afirma David Benichou, diretor da consultora Alixpartners, ao The Business of Fashion. Segundo Benichou, entre 20% a 30% dos volumes deverão regressar da Ásia para países como a Roménia e a Bulgária.

Roménia e Bulgária

A Roménia é atualmente a economia de mais rápido crescimento na União Europeia, com um crescimento de 5,6%, enquanto o PIB da Bulgária aumentou 3,4%, de acordo com dados do Eurostat. As exportações explicam parte desse crescimento.

A Roménia exportou 15,4 mil milhões de euros de bens no primeiro trimestre do ano, um crescimento de 11,4%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do país, com o vestuário, acessórios e calçado, o segundo maior grupo, a representar mais de um terço. Na Bulgária, as exportações subiram 15%, para 6,2 mil milhões de euros, no primeiro trimestre, revelam os dados do Eurostat.

O valor anual da produção de vestuário na Bulgária aumentou 40% entre 2009 e 2014, atingindo 1,3 mil milhões de euros. Na Roménia, cresceu 23% em relação ao mesmo período, para 2,18 mil milhões de euros.

Tempo é dinheiro

Produzir artigos na Europa de Leste oferece flexibilidade para fabricar volumes adicionais, se necessário, explica o diretor da Alixpartners ao The Business of Fashion. A qualidade da moda no Leste Europeu é geralmente melhor do que a de Marrocos ou da Tunísia, acrescenta. A Roménia e a Bulgária são capazes de produzir itens mais complexos e sofisticados, graças a anos de produção técnica, enquanto Marrocos é conhecido pelo denim e outras regiões do norte da África tendem a produzir vestuário mais básico.

Os fabricantes búlgaros e romenos tendem também a permitir que os compradores encomendem quantidades mais pequenas em comparação com os produtores de escala como a China e o Bangladesh, o que é útil para pequenas séries e empresas mais pequenas. Enviar compradores para verificar as questões de qualidade também equivale a uma hora de voo, a menos agentes e a melhor capacidade de resposta, aponta David Benichou.

A SMCP, por exemplo, que vende uma estética parisiense a preços acessíveis através das marcas Sandro, Maje e Claudie Pierlot, coloca, em média, 25 novos produtos nas lojas todas as semanas. Para cumprir este objetivo, a SMCP aprovisiona mais de metade dos seus produtos na Europa de Leste e países mediterrânicos. O restante é fabricado na Ásia. Os produtos demoram, em média, 100 a 120 dias entre o design e o armazém, e chegam em cinco semanas aos mercados mais próximos de casa.

«O aprovisionamento de proximidade é muito importante para reduzir o tempo de entrega», reconhece um porta-voz. «O nosso aprovisionamento ágil dá-nos flexibilidade de reabastecer best-sellers durante a temporada. Dessa forma, respondemos melhor à procura», admite.

Para aproveitar as estratégias de nearshoring, é essencial que as marcas tenham processos internos adequados para lidar com essa flexibilidade, ressalva Benichou. Muitas empresas têm duas coleções em paralelo – a principal, com encomendas maiores e prazos de entrega mais longos, e outra mais reativa ao mercado, detalha o diretor da Alixpartners.

Confiança e flexibilidade

A MIK-BG, fabricante búlgara que afirma fornecer Chanel, Sonia Rykiel, Sandro, Cacharel e Vanessa Bruno diretamente e através de agentes, consegue produzir vestuário em quatro a cinco semanas, dependendo do modelo e de quantos itens são necessários. «Sim, vejo maior procura no mercado. As marcas estão a reorientar a sua produção inteiramente para a Europa», afirma um porta-voz da empresa.

A Clothesource, agente britânica que compra vestuário feminino de fábricas romenas para cadeias britânicas como a Phase Eight e os grandes armazéns John Lewis, aumentou a sua base de fornecedores em cerca de 30% nos últimos 18 meses.

«Tivemos aumentos de preços na China que tornaram a Roménia mais atraente», justifica Liz Leffman, da Clothesource.

Já nos EUA, tem acontecido um movimento similar em direção ao nearshoring. As marcas norte-americanas aumentaram os seus fornecedores em países como as Honduras e El Salvador, que se posicionaram como o 7.º e 10.º maiores fornecedores de vestuário dos EUA em 2015, de acordo com a Textiles Intelligence.

As propostas do presidente Donald Trump para impor um imposto adicional sobre as importações de vestuário mexicano e chinês podem também aumentar a procura por fornecedores na América Central.