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O boom da moda modesta

Uma breve pesquisa em torno da expressão “modesta” na rede social Instagram permite conhecer o impacto atual da tendência nos media. Várias camadas, silhuetas longas, golas subidas – até agora, mais de meio milhão de pessoas utilizaram a hashtag “moda modesta” nas suas publicações, com os spin-offs como “vestir de forma modesta”, “movimento modesto” ou “estilo modesto” também amplamente usados.

Ainda que o estilo modesto pareça referir-se a uma tendência apenas considerada entre jovens muçulmanas, o movimento inclui mulheres de diferentes geografias e crenças e muitas vezes nada tem que ver com a religião.

Os analistas de tendências, como Iza Dezon, previsora de tendências da Peclers Paris, apresentam este fenómeno como uma nova vaga feminista. «Uma mulher emancipada não está sujeita a uma definição específica, nem deve viver de acordo com um conjunto específico de valores», explica em declarações à CNN. «Estamos a assistir a uma abertura daquilo que a emancipação significa, permitindo que as mulheres criem as próprias definições», acrescenta.

O movimento modesto tem vindo a ganhar força há alguns anos e o hijab tornou-se um símbolo reconhecido. Em 2014, a DKNY lançou uma coleção de moda modesta. Em 2016, a Dolce & Gabbana lançou uma linha de hijabs e abayas de luxo. No mesmo ano, a H&M apresentou uma modelo muçulmana com um hijab numa campanha promocional da sua linha de moda sustentável. Em novembro passado, Halima Aden foi a primeira concorrente de concursos de beleza da história a vestir um hijab na competição Miss Minnesota, EUA. No mês passado, Aden foi convidada para desfilar na passerelle da Max Mara e da Alberta Feretti no seu hijab, tendo sido também escolhida por Kanye West para a mostra da Yeezy em Nova Iorque algumas semanas antes. Esta semana, a Nike avançou com a notícia de lançamento do “hijab pro”.

«Muitas marcas mostraram coleções nesta temporada que foram claramente projetadas com a inclusão em mente», refere Elizabeth Paton, correspondente de estilo europeu para o New York Times. «A Balmain, por exemplo, nesta estação tinha muitos pescoços altos e bainhas baixas», aponta.

Porém, isto não é uma surpresa para Paton. «Todas as marcas de luxo estão a ser forçadas a pensar mais estrategicamente sobre como atrair mulheres com inúmeros antecedentes religiosos. Não podem ignorar o número crescente de vozes que exigem mais escolha».

Este mês, a supermodelo Gigi Hadid é o rosto da capa da recém-lançada Vogue Arabia num hijab incrustado de diamantes. Hadid partilhou a imagem da capa no seu Instagram, com uma legenda que elogiava a publicação. «Espero que esta revista mostre uma outra camada do desejo da indústria da moda de continuar a aceitar, celebrar e incorporar todas as pessoas e costumes e fazer com que todos sintam que têm momentos de moda com os quais se podem relacionar», pode ler-se.

O clima atual não poderia ser, por isso, melhor para o novo empreendimento de Ghizlan Guenez. Lançada na semana passada, no dia internacional da mulher, a plataforma The Modist tem como slogan “estilo modesto de luxo para mulheres extraordinárias”.

Guenez quer preencher o que considera uma lacuna no mercado de luxo. O website The Modist tem como alvo um grupo internacional e multicultural de mulheres de todas as idades, que procuram expressar-se através da moda. «As mulheres com as quais cresci são modernas e na moda, mas vestem-se desta maneira. A minha mãe, as minhas primas…precisavam de andar de loja em loja à procura de peças de roupa que funcionassem para elas», recorda.

O website The Modist foi lançado com 75 designers de luxo contemporâneo de pronto-a-vestir e acessórios, incluindo Peter Pilotto, Marni e Phillip Lim. «Há tantas marcas que gostei de reinterpretar», afirma Sasha Sarokin, ex-gerente de compras da Net-a-Porter, que lidera o departamento de compras. A coleção de Mary Katrantzou, especialista em estampados sediada em Londres, estará também disponível no The Modist. «As minhas coleções nunca foram fisicamente reveladoras, mas sim sobre revelar a estética e a personalidade da mulher», sublinha Katrantzou.

O potencial de mercado modesto na moda é vasto e espera-se que alcance os 484 mil milhões de dólares (aproximadamente 451 mil milhões de euros) até 2019, de acordo com uma pesquisa do The Modist.

A diretora de operações, Lisa Bridgett, foi imediatamente atraída a fazer parte do que ela apelida de «irmandade global» de mulheres fortes, experientes e inteligentes de diversas origens. Já Ghizlan Guenez foi inspirada pela participação diversa na “Marcha das Mulheres” em todo o mundo, em janeiro. «Há muitas coisas boas conseguidas com as redes sociais recentemente. Se não tivesse sido pelas redes sociais, como teríamos sido chamadas à ação? Como teríamos sabido da “Marcha das Mulheres”?», questiona.

As redes sociais serão, por isso, uma prioridade para Guenez, que olha para o Instagram e para o diálogo internacional democratizado do Facebook como bases do movimento modesto.