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O boom dos biomateriais

A Lux Research prevê que as vendas anuais de alternativas ao couro com baixa complexidade, incluindo, por isso, materiais derivados de frutas e vegetais e couro de material reciclado, vão atingir, provavelmente, mil milhões de dólares até 2025, caso os avanços tecnológicos e de consumo continuem a este ritmo.

Piñatex [©Ananas Anam]

A consultora norte-americana antecipa ainda que se estas alternativas ao couro conseguirem chegar ao preço do couro natural vão «perturbar a indústria do couro», afirma Tiffany Hua, investigadora associada sénior da Lux Research.

A Natural Fiber Welding, empresa de inovação em biomateriais, desenvolveu o Mirum, um composto complexo derivado de resíduos vegetais como pó de cortiça, casca de arroz e fibra de coco, que imita a aparência e o toque do couro sem recorrer a animais. «Olhamos para diversos contributos similares de como um chef usa ovos, leite, açúcar e manteiga para fazer exatamente o que quer, seja um soufflé leve ou algo pegajoso», explica Luke Haverhals, fundador e CEO da Natural Fiber Welding, ao Sourcing Journal.

À medida que o couro tradicional perde o encanto face aos direitos dos animais e das questões ambientais, as alternativas vegan estão aptas a colmatar esta lacuna com opções cruelty-free de origem natural, nomeadamente a partir de folhas de abacaxi, folhas de cacto ou raízes de cogumelos, evitando igualmente a base petroquímica.

Ao contrário do couro tradicional, a recetividade ao couro vegan é facilmente justificável por não ser nocivo para os animais e não contribuir para o agravamento da crise de plástico no planeta. Além disso, estas alternativas ao couro tradicional fazem também parte de uma revolução crescente que vê os biomateriais como uma nova fronteira para os têxteis, por serem menos poluentes e menos intensivos em recursos. Ainda que o sector de base biológica seja complexo, com pouca supervisão regulamentar ou mesmo um léxico universal, os porta-vozes que estão focados em ampliar as inovações com base na natureza admitem oferecer soluções para os problemas mais urgentes da moda.

Mylo [©Bolt Threads]
Embora seja um subproduto da indústria de carne bovina que se não fosse utilizado poderia acabar inutilizado no lixo ou em aterros, a indústria de couro está inegavelmente ligada a práticas de curtimento tóxicas, crueldade para com os animais, ameaças à saúda e segurança do trabalhador a ainda à desflorestação da Amazónia, aponta Sue Levin, diretora de marketing da Bolt Threads, a empresa por detrás do Mylo, o couro à base de micélio. «O couro tem muita bagagem. Há uma clara megatendência a acontecer; como humanos, estamos a afastar-nos da pecuária industrial porque geralmente é problemática do ponto de vista ético e ambiental», explica.

Por outro lado, o Mylo não é apenas a «alternativa de couro mais semelhante ao couro» mas também evita todas as armadilhas do couro animal e leva menos de duas semanas para crescer em comparação com o gado, gerando também menos gases de efeito estufa e sendo necessário menos água e recursos no processo.

Mais do que uma alternativa

Face ao interesse crescente, as investigações por “couro vegan” aumentaram 69% em 2020, segundo os dados da plataforma de pesquisa de moda Lyst. Tendo em conta que os consumidores raramente estão preparados para pagar o preço que as escolhas verdes por norma implicam, a Bolt Threads estabeleceu parcerias com o grupo de luxo Kering e marcas como a Adidas, Lululemon e Stella McCartney, que se comprometeram com esta alternativa a longo prazo. «Não entramos nisto para ser uma cápsula; não entramos nisto para fazer protótipos. O nosso objetivo desde o primeiro dia foi que o Mylo não fosse apenas o material mais sustentável do planeta, mas também o material sustentável mais utilizado no planeta», assegura Sue Levin.

Piñatex [©Ananas Anam]
Uma das formas que as marcas têm para ajudar a transformar estas alternativas instantâneas em algo duradouro é através do compromisso da compra de um determinado volume de material todos os anos, o que dá origem a um ciclo virtuoso que permite aos fabricantes de biomateriais prever com maior precisão a procura e, desta forma, reduzir custos, reforça Melanie Broyé-Engelkes, CEO da Ananas Anam, empresa responsável por produzir o Piñatex, produzida com fibras das folhas de ananás e que foi já adotada por nomes como Chanel, H&M, Hugo Boss e Sezane.

A maior adversidade da Ananas Anam é bloquear a produção, uma vez que o processo é lento, já que a empresa trabalha diretamente com agricultores para manter total visibilidade da cadeia de valor. Porém, Melanie Broyé-Engelkes garante que a empresa está em posição de duplicar o modelo de negócio noutros países produtores de ananás, em particular no Bangladesh e na Costa Rica. «Depois de desbloquear o aprovisionamento de fibra, podemos escalar facilmente o resto da produção», admite a CEO.

Competitividade e outros fatores

«O preço é o ponto fulcral de qualquer conversa sobre sourcing, mas é também uma questão com mais nuances quando se trata de biomateriais», considera Melanie Broyé-Engelkes, esclarecendo que, ao contrário do couro bovino, o Piñatex e as outras alternativas similares são comercializadas em folhas contínuas, livres de buracos e dos defeitos convencionais que os couros habitualmente trazem, o que diminui também o desperdício e, consequentemente, os custos. Também seria impossível para a Ananas Anam concorrer com o couro de poliuretano, extremamente barato. «A nossa missão não é competir aqui porque, em algum momento, esses materiais serão eliminados devido à consciencialização do consumidor final, das marcas e, com sorte, do Governo, com regulamentações em vigor para lidar com as mudanças climáticas. Devíamos consumir menos, mas melhor», resume.

Stella McCartney [©Bolt Threads]
Este tipo de peles artificiais podem não ser tão naturais, sustentáveis ou quimicamente benignas como o marketing faz parecer, visto que os especialistas alertam para os polímeros utilizados com base petroquímica, solventes, agentes aglutinantes ou plastificantes que contradizem a narrativa natural.

«Muitas vezes, a verdadeira natureza dos materiais de couro vegetal pode ser escondida, por isso é bom ir um pouco mais fundo e descobrir exatamente o que há nele. Eles podem ser na sua maioria plásticos com aditivos sintéticos, o que não é o que o nome sugere», elucida Ashley Holding, consultora de inovação circular, que desmitifica que o couro à base de plantas não pode ser «parcialmente biodegradável». «Ou todo o material é biodegradável ou não é», sublinha.

Carga tóxica

Um estudo recente de imitações de couro populares do Filk Freiberg Institute, na Alemanha, que testa e analisas materiais poliméricos de multicamadas flexíveis para entidades certificadoras como a Oeko-Tex, identificou substâncias restritas, incluindo butanona-oxima e traços de diisobutil ftalato na AppleSkin. Por sua vez, o Piñatex apresentou diisobutil ftalato e a Desserto, que se autodesigna por «couro de cato vegan», continha butanona-oxima, tolueno, isocianato livre e vestígios de diisobutil ftalato.

Para Martin Mulvihill, cofundador e sócio-gerente da Safer Made, entidade que investe em empresas e tecnologias que reduzem a exposição das pessoas a produtos químicos tóxicos, as alternativas com base em plantas que usam resinas de poliuretano continuam a ser um «segredo aberto». Como o poliuretano costuma utilizar solventes como tolueno e dimetilformamida, «não é surpreendente que alguns deles continuem contaminados».

Stan Smith Adidas [©Bolt Threads]
Raquel Prato, diretora de investigação e sustentabilidade na Ananas Anam, refuta as conclusões do Filk Freiberg Institute ao assegurar que o certificado do Piñatex está em conformidade com o REACH, o Regulamento sobre Registro, Avaliação e Autorização de Produtos Químicos da União Europeia, o que indica que não há substâncias nocivas no Piñatex.

Também um porta-voz da Adriano Di Marti, produtor mexicano do Desserto, defendeu que as substâncias não são usadas no local de produção, pelo que poderá haver tolueno e traços de diisobutil ftalato somente nas versões mais antiga do produto.

«As nossas plantações de catos são 100% orgânicas e certificadas pelo Departamento de Agricultura dos EUA; não usamos produtos químicos nos nossos campos de catos. Como os nossos produtos são produzidos em condições industriais comerciais, a presença de vestígios de impurezas não pode ser excluída. Mas todo esforço é feito para garantir que estejam a um nível mínimo», realça.

De igual forma, Umberto Bacenetti, CEO da Mable, que fabrica a AppleSkin para a empresa italiana Frumat, refere que todos os artigos são produzidos também segundo o regulamento REACH. «Acreditamos que o relatório Filk fornece informações incompletas e enganosas na luta para evidenciar o excelente desempenho do couro animal em comparação com os materiais sustentáveis ​​que estão a ganhar lugar no mercado», acredita o CEO.

Contraparte

Encontrar um produto totalmente biológico que responda aos requisitos das marcas e dos consumidores cada vez mais conscientes das questões ambientais não é tarefa fácil, mesmo que as empresas continuem a trabalhar em prol desse objetivo.

A Ananas Anam usa um revestimento de poliuretano à base de água que responde ao regulamento REACH e é responsável por 10% da composição total do Piñatex. Melanie Broyé-Engelkes revela que a empresa está a trabalhar nesse âmbito, com o lançamento de uma resina de base biológica que vai reduzir para metade a quantidade de poliuretano, o que vai fazer com o produto seja 95% natural. «É o mais alto que se pode ir, mantendo as propriedades que são necessárias nas diferentes aplicações. Temos um caminho para atingir conteúdo 100% natural; é apenas uma questão de tempo para implementar isso e acertar a receita», conclui. Atualmente, nem o Mylo nem o Piñatex são biodegradáveis.