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«O cenário de ouro é muito ambicioso»

Apesar de consciente de que o cenário mais positivo para 2030 é exigente e contempla a conjugação da capacidade de adaptação por parte das empresas e de alinhamento de políticas públicas, Mário Jorge Machado, presidente da ATP, assume-se otimista quanto ao futuro do cluster têxtil português.

Mário Jorge Machado

Nesta entrevista após o Simpósio da ITV, o presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal salienta ainda a cooperação entre as diferentes associações nos últimos anos e destaca a necessidade do Estado intervir em áreas como o custo da energia e a flexibilização da legislação laboral, ao mesmo tempo que facilita o acesso aos fundos comunitários para que o sector seja capaz de enfrentar os desafios da sustentabilidade e da indústria 4.0 no pós-pandemia.

Como é que a pandemia moldou o estudo apresentado durante o Simpósio?

A pandemia acabou por influenciar todos os trabalhos que estavam a ser feitos em termos de perspetivar o que vai ser o nosso futuro. Em muitos sectores, a pandemia teve um efeito brutal, porque hoje ainda há segmentos da área do têxtil e do vestuário que estão impactados com uma diminuição muito grande do volume de negócios. Porquê? Porque mudámos o nosso comportamento social, mudámos os nossos hábitos de vestir e alguns desses hábitos vieram para ficar. Realmente vamos viver num mundo híbrido relativamente àquilo que era o mundo antes da pandemia. Tudo isso era algo que sabíamos que ia acontecer, mas num ano aconteceu o que provavelmente demoraria meia década ou uma década. Muitas pessoas que nunca pensariam em comprar online, aprenderam e criaram o hábito de fazer esse tipo de aquisição, portanto, o canal online, que era um canal que estava a crescer, neste momento tem um peso muito grande na maioria das empresas que vendem os seus produtos ao consumidor final. Essa é uma dimensão que veio para ficar, trazendo, como todas as situações, ameaças mas também oportunidades e, neste caso, as oportunidades para a indústria têxtil é que as vendas online, de alguma forma, obrigam a mais proximidade e a mais desenvolvimento de coleções, porque a rotação da venda online é superior à rotação da venda em loja. É necessário continuamente ir desenvolvendo produtos com o evoluir da estação e a necessidade de ter produtores mais próximos para responder a essa evolução das tendências do consumidor vem favorecer, claramente, a indústria têxtil e vestuário portuguesa, porque temos tradição de fazer em velocidade e, no online, a velocidade é um dos pontos críticos para o sucesso.

Isso está refletido nos três cenários que apontaram?

Sim. A nossa perspetiva é que no cenário ouro, o cenário que estamos convictos que é o mais provável, a indústria têxtil e vestuário portuguesa vai ter de se adaptar a fazer produtos com mais valor acrescentado e, portanto, vai conseguir vender os seus produtos com mais valor para consumidores que também vão querer produtos com outras valências para além do design e da qualidade, como a sustentabilidade – há as questões da pegada carbónica que, quanto mais próximos estivermos da produção, do consumidor, também tem uma vantagem importante em todo o custo da distribuição.

O cenário de ouro é a meta para 2030. Disse na altura que estavam a ser ambiciosos mas depois olhando para os outros dois cenários, por exemplo, o de prata, apesar de tudo, não significa sequer crescimento face ao que temos na atualidade. Não falta um cenário intermédio ou não foi ponderado por algum motivo?

O cenário de ouro é muito ambicioso. Quando estamos a criar cenários, normalmente cria-se um cenário que é ambicioso, um cenário que não é assim muito agradável mas que é um cenário que tem probabilidade de acontecer e depois há um cenário pessimista. O nosso verdadeiro foco é construir as ferramentas e criar um cluster têxtil que seja capaz de esquivar-se das ameaças e responder às oportunidades. Este é o grande objetivo que temos para o sector e a grande vantagem de sermos um cluster é exatamente essa: somos capazes de ter diferentes valências e todas são importantes para aquilo que se perspetiva em termos de futuro. É claro que temos sempre muitas ameaças – sempre as tivemos e vamos continuar a tê-las. A indústria têxtil e vestuário continua a ser, para muitos países, um grande elemento que os ajuda muito nas suas exportações e, portanto, há sempre novos players a entrar no mercado e vai continuar a haver novos players a entrar no mercado para colocar o seu produto na União Europeia e nos EUA, que são os nossos dois grandes mercados. Temos que encontrar formas de nos diferenciarmos desses produtores, como temos vindo a conseguir fazer ao longo destes últimos anos, por isso, o nosso objetivo é muito difícil, porque a concorrência vai ser muito, muito grande. Daí que temos estado a falar com a Euratex e diretamente com a Comissão Europeia sobre o plano estratégico que está a ser desenvolvido. Uma das grandes ameaças é que este plano estratégico seja só sobre impor restrições a quem produz na Europa e, se o caminho for esse, vai fazer com que produzir na Europa seja cada vez mais caro, mais difícil e menos flexível. Isso significa de certeza absoluta um impacto muito negativo nas nossas expectativas.

O que é que está a ser feito para influenciar essa estratégia?

A ATP e eu pessoalmente, sou membro do board da Euratex e faço parte do grupo de trabalho na Euratex que está a fazer sugestões à Comissão Europeia, estamos a trabalhar para aquilo que se projeta em termos de têxtil e vestuário ser algo que vai na direção da economia circular, da produção sustentável mas também conseguirmos que quem quer vender na União Europeia esteja obrigado a seguir os mesmos princípios. Da UE temos recebido a resposta de que não conseguimos controlar se quem produz um produto fora da UE fez um produto de uma forma mais sustentável, utilizou componentes da economia circular e boas práticas produtivas em termos da utilização eficiente dos recursos, como a água ou como a energia, mas o que temos estado a dizer é que tem que ser encontrada uma solução, porque se estivermos a competir com produtores que não se preocupam minimamente com a sustentabilidade do planeta, que utilizam qualquer fonte de energia independentemente dela ser muito poluente para o ambiente, nomeadamente o carvão, vão conseguir ter energia muito mais barata do que temos na Europa e, portanto, conseguem colocar aqui os produtos muito mais baratos. E estamos, neste momento, a procurar encontrar soluções que vão no sentido de que tudo seja mais transparente, nomeadamente que cada produtor seja obrigado a colocar na etiqueta do seu produto onde foi feito e que energia consumiu. Vamos ter que encontrar mecanismos de validação e de verificação dessas situações, que não é fácil, porque a UE, em termos de processos produtivos, não tem esse tipo de função. Andamos à procura de soluções. Não está a ser um processo fácil.

Tendo em conta o último inquérito que a ATP fez aos seus associados, que retrato se pode fazer da atual situação da indústria portuguesa?

Digamos que a indústria. de alguma forma, está tripolar: temos empresas que estão, felizmente, muito bem; temos empresas que já estão ao nível daquilo que estavam em 2019 e, portanto, estarão bem; e temos empresas que ainda estão muito abaixo de 2019. Portanto, dentro da fileira, dependendo dos produtos que as empresas tinham e de alguma capacidade de adaptação que tiveram, umas conseguiram aproveitar as oportunidades do mercado, mas houve outras em que o seu mercado, o seu tipo de produto, continua ainda muito impactado. Ao longo deste primeiro semestre, na Europa e no mundo, a retoma foi muito inferior ao expectável, porque houve ressurgimento das novas variantes, novos confinamentos, novos medos, portanto, este primeiro semestre foi bem pior do que em dezembro ou janeiro estávamos a antecipar. Estamos neste momento com expectativas importantes para o segundo semestre, mas vamos ter que perceber se a situação evolui. E depois há aqui outra questão: muitas marcas não venderam os produtos e vão precisar ainda do resto deste ano e de alguma coisa no início do próximo ano para conseguirem baixar o nível de stocks que têm. Esta gestão das coleções e dos stocks das coleções anteriores é um problema para algumas marcas, nomeadamente na área de vestuário exterior.

No discurso do estado do sector, mencionou algumas preocupações, uma das quais o custo da energia, em que referia um aumento de 40% a 50% nos últimos meses. Que soluções podem ser encontradas para mitigar esta subida?

O custo da energia tem uma componente que está fora das mãos de qualquer Estado, que tem a ver com o preço internacional do petróleo, mas há uma componente importante que os Estados têm: os impostos. Aquilo que o Estado pode fazer é dizer “não quero tirar proveito do aumento e então vou baixar os impostos para 30% em vez de 60%. Vou ganhar na mesma 60 cêntimos por cada metro cúbico de gás vendido, porque custa 2 euros em vez de 1 euro”. Com o aumento da energia, o Governo podia estar a baixar a sua carga de impostos, porque a receita fiscal era a mesma e isso ia permitir que quer as empresas, quer os consumidores tivessem menos custos. Aliás, essa foi uma promessa feita no início da anterior legislatura pelo Primeiro-Ministro, que entretanto se esqueceu de a cumprir. Esse é um ponto muito importante. O outro ponto em termos de energia é o IVA, que também incide sobre a energia. Se diminuísse ao IVA, também seria outra forma de ajudar, neste caso, a tesouraria das empresas. E, por fim, há outra situação que o Governo português também tem alguma possibilidade de ajudar, que é ser muito mais ágil a promover a produção de energias renováveis, quer na aprovação dos projetos das fotovoltaicas, quer das eólicas e das hídricas, para substituição da produção das duas centrais a carvão que fecharam e que levaram a um aumento substancial do custo da energia, porque a procura manteve-se e a oferta diminuiu. O Governo podia facilitar e induzir maior autoprodução se desse algum incentivo fiscal a quem quer instalar capacidade produtiva. Primeiro devíamos ter feito isso e só depois devíamos ter desligado as centrais.

Há outras questões que podem afetar negativamente o crescimento das empresas, ao nível das matérias-primas e logística, por exemplo?

Há aqui uma série de questões e todos os fatores que referiu estão ainda ligados a disrupções que aconteceram devido à pandemia. Houve diminuição de barcos e de contentores em circulação, houve empresas que resolveram deixar de produzir determinado tipo de produtos, portanto houve uma diminuição da oferta. Entretanto, a procura retomou e, não havendo oferta, começou a haver competição pelo produto e os preços começaram a subir. É uma tempestade perfeita entre a diminuição da oferta, controlo de mercado pela China, diminuição do número de rotas e do número de navios. Tudo isto tem vindo a contribuir para criar uma tempestade em termos de preços que, neste momento, não sabemos como irão evoluir. Só em 2022 é que parte destas situações estarão novamente normalizadas. Na parte têxtil, e na questão do algodão, também houve uma série de empresas americanas e algumas europeias que se recusaram a comprar algodão que fosse produzido na zona de Xinjiang por forte suspeitas que poderia estar a ser utilizada mão de obra forçada Uigur no cultivo e, como tal, obrigou as empresas chinesas a terem de vir comprar algodão a outras zonas do globo. Isso aumentou a procura do algodão nas outras zonas do globo, sendo, portanto, mais um fator que contribuiu para o aumento do preço das matérias-primas. Também sabemos que com a mensagem da sustentabilidade houve mais procura de algodão orgânico e ao haver mais procura de algodão orgânico, ele também começou a subir os preços, numa altura em que a oferta diminuiu porque havia quem estivesse a falsificar certificados. Portanto, desde fatores políticos à fraude, à diminuição de produção, ao controlo de grandes segmentos de mercado, temos aqui todas as cartas que podiam ser jogadas para levar a uma subida dos preços.

Outra questão que voltou a mencionar no seu discurso prende-se com rigidez da legislação laboral em Portugal. De que forma é que isso se está a fazer sentir?

Ainda este fim de semana li um artigo da Daniela Braga, que é a fundadora da DefinedCrowd, que vai ser o próximo unicórnio, e que faz parte do grupo que aconselha o atual presidente dos EUA sobre a utilização e as potencialidades da inteligência artificial, que diz que hoje vivemos num mundo que tem de ser flexível e que as carreiras têm que ser feitas a passar por várias empresas. Hoje, as oportunidades, quer para as empresas, quer para as pessoas, evoluem a uma velocidade enorme e quer as empresas, quer as pessoas têm que se adaptar. As empresas precisam de se adaptar e, portanto, precisam de ter flexibilidade também com a sua força de trabalho, porque a empresa pode ter necessidade mais destas competências e menos daquelas. É claro que a empresa vai, em primeiro lugar, procurar dar formação às pessoas, mas há situações em que isso não é possível. Precisamos de modelos que sejam muito mais flexíveis do que o que temos e há vários estudos que mostram que com a rigidificação da legislação laboral aqueles que mais sofrem são os próprios trabalhadores, porque encontram menos oportunidades. Estamos aqui a entrar num conceito ideológico de que as entidades empregadoras são más e, portanto, aquilo que procuram é como despedir pessoas em vez de pensar que as entidades empregadoras são boas e querem é contratar as pessoas certas para os lugares certos para a empresa crescer, para poder pagar melhores salários e dar mais oportunidades. Este tipo de visão ideológica de que de um lado estão os empregadores e do outro lado estão os trabalhadores e há aqui um conflito de interesses entre ambas as partes está completamente ultrapassado e querer manter esse tipo de rigidez prejudica gravemente o país, a economia e os salários. É das situações mais graves que temos para limitar o crescimento económico do nosso país.

Uma das questões que referiu também ao Ministro da Economia foi o pouco apoio dado às empresas durante a pandemia. De que forma é que o Governo pode compensar e impulsionar agora os projetos empresariais?

O apoio em Portugal foi pouco e a grande maioria foi dado através de empréstimos ou de moratórias. Todo este processo causou maior endividamento das empresas. Em Itália, uma empresa que não tenha trabalho para a sua equipa pode colocar os trabalhadores em casa e o trabalhador recebe 80% e a empresa paga zero. A empresa não se está a endividar e o trabalhador teve alguma diminuição do seu salário, mas também ficou em casa e teve alguma diminuição de custos. Eu diria que é justo. Em Portugal fomos pela via oposta, passamos a dar 100% do salário a quem estava em layoff e as empresas a terem de pagar um terço do salário do trabalhador – isso contribuiu para as empresas terem que se endividar, porque não têm receitas, para fazer face a esses compromissos. O que é o Governo pode fazer em termos de futuro? Há aqui duas situações que são muito críticas. Primeiro, em termos de investimento, tornar estes novos programas de mais fácil acesso, serem menos burocratizados para as empresas que querem investir. Outra situação que também foi referida durante o simpósio, e muito bem referida, tem a ver com a dimensão das empresas. Em Portugal penalizamos em excesso as empresas que têm mais que 250 trabalhadores ou que faturam mais de 50 milhões de euros. Temos muito poucas empresas âncora, que contribuem para o crescimento da economia. As micro, pequenas e médias empresas têm um papel importante, mas essas empresas têm grandes dificuldades na componente da inovação, exportação e globalização. Deveríamos ter uma legislação que não fosse inimiga quando uma empresa passa a barreira dos 250 trabalhadores, devíamos ter um número bastante mais acima para começar a limitar os apoios a essas empresas. A outra grande componente que o Governo pode ajudar as empresas tem a ver com tornar o contexto legislativo mais amigável das empresas, quer em termos dos incentivos fiscais ao investimento, quer na questão da legislação laboral, quer na legislação dos impostos sobre a energia.

Falou-se também do PRR e dos novos fundos europeus disponíveis. Como é que, neste momento, a ATP vê os anúncios sobre a forma como vão ser geridos?

O PRR devia ser muito mais virado para o lado da criação da riqueza do que para o lado da resolução de lacunas que temos na parte social. Devíamos usar este instrumento para financiar investimentos nas empresas, financiar investimentos na economia para produzir riqueza que, por sua vez, iria gerar impostos que iriam responder às lacunas que temos na parte social. A parte social é muito importante, quanto a isso não tenho dúvidas, todos conhecemos as carências que temos, mas para termos um Estado que, do ponto de vista social, consegue dar bons níveis de apoio, precisamos de ter uma economia que produza muita riqueza. Se não criarmos essa economia vamos ter, a prazo, um problema, porque não vamos ter meios para pagar o estado social que todos queremos ter e com os apoios sociais que todos merecemos ter.

Neste PRR, a parte da indústria têxtil está muito apoiada na bioeconomia. Faz sentido?

Faz. Inventar novas fibras, conseguir inventar soluções para os produtos em fim de vida ou para os produtos desperdiçados no processo produtivo faz sentido porque, a partir de 2024, os artigos têxteis nem podem ser incinerados, nem podem ir para aterro, portanto, têm de ser reutilizados. E quem inventar essas soluções tem um mercado importante. Por outro lado, há outras componentes que são muito importantes dentro da fileira, começando pelas questões da formação. Vamos ter necessidade de formar pessoas com novas competências. Em Portugal, contrariamente ao que existe noutros países, não temos uma formação integrada na área da tecnologia, na área do design e na área de marketing e de vendas. Não temos nenhum curso que dê formação nestas três áreas. Temos cursos de design, temos cursos de engenharia têxtil e temos cursos de marketing e quando alguém vem trabalhar para o sector têxtil vem com um destes cursos e, ao vir com um destes cursos, falta-lhe as outras competências. Deveríamos ter uma escola em que estas competências formativas fossem dadas em simultâneo num curso de formação têxtil, porque isto vem-se refletir num problema que temos que é a falta de marcas. É um problema de primeiro o ovo ou a galinha. Sem marcas não formamos pessoas, sem escolas não formamos pessoas para formarem marcas e este é um dos aspetos muito importantes que precisamos de tratar muito rapidamente. Já estão a ser feitas algumas diligências, na ATP temos estado a falar com a Universidade do Minho, com a Porto Business School, com o Modatex para, em conjunto, procurarmos soluções para dar esta formação multidisciplinar mais abrangente. Continuamos também sempre com a situação da necessidade de pessoas com ferramentas formativas em determinados tipos de trabalhos mais específicos – a formação de técnicos especializados nas diferentes áreas é muito importante, nomeadamente agora há uma área muito importante que é a criação dos modelos virtuais. É uma formação especializada, mas que é uma formação muito crítica, como é a formação de um modelista. Há aqui novas oportunidades de novas carreiras, de novas tecnologias que este sector vai necessitar.

Isso devia estar pensado no PRR?

Exatamente. Este tipo de novas formações é algo que devia estar pensado também no PRR para permitir a evolução das competências de quem está no sector ou de quem quer vir trabalhar para o sector. Depois, por outro lado, sabemos a importância de tudo o que tem a ver com a pegada carbónica, com a utilização da energia. Está alguma coisa no PRR, mas devia estar mais. Devíamos ser mais ambiciosos no PRR em termos da questão da energia e, por fim, a questão da indústria 4.0 e da digitalização da economia. A automatização e a robotização dos processos vão ser críticas para toda esta cadeia e, mais uma vez, temos pouco investimento e recursos para inventar as soluções para responder a esta necessidade do mercado.

A cooperação institucional tem sido forte nos últimos anos, tendo mesmo referido no seu discurso que este simpósio, que conta 25 anos, «é destinado a toda a fileira sem divergências e sem divisões associativas ou de outro género». É uma das marcas que quer deixar neste seu primeiro mandato?

É. Eu defendo que devemos cooperar em termos institucionais. Temos espaço e há trabalho e oportunidades para todos darem contributos. Não tenho por visão que uma dada associação, qualquer que seja, está a defender somente os seus associados. Se defendermos o que é melhor para o sector, estamos a defender todas as empresas que trabalham no sector e estamos a defender o país. Esta colaboração entre associações, do meu ponto de vista, é muito positiva para todos, porque o nosso interlocutor, que é o poder público, vendo que estamos alinhados no interesse do sector e no interesse do país, também entende que está a falar com parceiros que partilham das mesmas preocupações e soluções. Por fim, há outra situação: já temos tantos inimigos fora de Portugal que não precisamos de ter inimigos cá dentro. Já estamos rodeados de tanta concorrência e de tanta competição que não há razão nenhuma para nós em Portugal, e diria mais, na Europa, não estarmos unidos para procuramos soluções para a indústria têxtil e vestuário, porque se não estivermos unidos vai ser muito mais difícil defendermos o sector e ajudarmos a Europa e o planeta.

No início deste mandato, em 2019, num artigo publicado n’O Jornal Económico, referia que estava «disponível para que, havendo interesse, possa haver a continuação do processo [de fusão], no sentido de poder haver uma só associação empresarial». Mantém essa posição?

Mantenho essa posição. Se houvesse só uma associação seria melhor. Não havendo uma associação única para o sector, a melhor solução é estarmos todos alinhados na defesa dos mesmos interesses, que é isso que conseguimos hoje: as diferentes associações estão alinhadas no mesmo tipo de visão para o sector. E o caminho faz-se caminhando, as situações vão evoluindo e logo se verá. Se me perguntar se isso é imperativo para defender o sector? Não, não é imperativo. A cooperação entre instituições, para mim, é mais relevante do que haver só uma instituição.

O seu mandato termina em meados de 2022. O que destaca neste percurso de três anos?

Houve duas situações que me deixam particularmente satisfeito. A primeira é que se não tivéssemos tido uma voz interventiva, e aqui tenho que dizer em colaboração com as outras associações, os apoios para as empresas e para o sector têxtil ainda teriam sido menores. Se estou satisfeito com o que obtivemos? Ficou aquém do que pretendíamos, mas claramente teria sido uma situação muito pior se não tivéssemos conseguido fazer este trabalho. O número de empresas que encerrou por causa da pandemia, apesar de ter alguma relevância, foi menor do que se não tivesse havido os apoios que se conseguiram aplicar. A segunda situação tem a ver com o PRR e os novos programas. Também se não tivesse havido a pressão que temos feito junto do Governo, a componente empresarial seria muito menor. As associações tiveram aqui novamente um papel importante para não desequilibrar ainda mais a distribuição de valor entre aquilo que é a parte empresarial e a parte social. Não estando satisfeito, sinto que fomos um contributo importante para os resultados serem menos maus. O que me deixa insatisfeito? Exatamente as mesmas duas situações. As associações não são oposição ao Governo. Aquilo que é bom para a economia é bom para as pessoas. Vamos ser eficazes, vamos aplicar boas práticas que permitem ter crescimento e ter um país melhor.