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O cerne da questão

A European Apparel and Textile Confederation (Euratex) procura influenciar as negociações comerciais da União Europeia, existindo boas razões para fazê-lo, como foi explicado para uma plateia de 140 pessoas na conferência que organizou em junho, intitulada “Free Trade and International Agreements”. As exportações extra-UE de têxteis e vestuário ficaram cifradas nos 42,4 mil milhões de euros em 2013. Conforme o presidente da Euratex, Alberto Pacannelli, salientou, é necessário ter a certeza de que os acordos de livre comércio criam oportunidades para o sector, tornando o comércio mais barato e mais rápido e o ambiente político mais previsível. A associação também quer evitar que os têxteis e o vestuário sejam usados como moeda de troca política “fácil” nas negociações comerciais internacionais. Este foi recentemente o caso, afirma a associação, quando a UE eliminou temporariamente os direitos em 75 produtos do Paquistão – a maioria dos quais era tecidos, vestuário e calçado –, até o final de 2013. Apesar da forte oposição da Euratex, o Paquistão também recebeu o estatuto SPG+ a partir de 1 de janeiro deste ano, permitindo o acesso isento de direitos ao mercado da UE. Os negociadores da Comissão Europeia (CE) podem, de facto, subestimar o impacto negativo de acordos comerciais em todos ou alguns segmentos do sector têxtil e vestuário europeu. Lauro Panella da direcção-geral da CE para Empresas e Indústria ressaltou que antes de 2012, quando a CE adotou uma comunicação sobre as indústrias criativas na Europa, a moda nunca foi mencionada em nenhum documento. No entanto, segundo Signe Ratso, diretora de estratégia comercial e acesso a mercados na CE, mesmo que a CE considere os têxteis e o vestuário como sectores tradicionais, está plenamente consciente da sua importância social como empregador de 1,66 milhões de pessoas em 2013, da sua inovação e notável resiliência. Ratso também reconheceu que o sector beneficiou da estratégia de acesso ao mercado da CE. Desde 2000, foram removidas inúmeras barreiras comerciais, o que pode ter resultado em mais de 2 mil milhões de euros de exportações extracomunitárias de têxteis e vestuário por ano. Estão também em andamento negociações de livre comércio com o Canadá, Mercosul, Vietname, Tailândia, Índia, EUA e Japão. Por sua vez, Francesco Marchi, diretor-geral da Euratex, sublinhou que os acordos de livre comércio da UE atualmente em vigor absorveram mais de 44% das exportações extracomunitárias sectoriais em 2013. Advogando os acordos comerciais estabelecidos, BH Kim, diretor da Korean Federation of Textile Industries (KOFOTI), referiu que o acordo de livre comércio entre a UE e a Coreia, em vigor desde julho de 2011, foi benéfico para os dois parceiros. Desde 2011, as importações de têxteis e vestuário da Coreia provenientes da UE aumentaram 12%, enquanto as importações provenientes dos EUA caíram 12% e as do Japão caíram 6,8%. Retalhistas europeus, como H&M e Zara, estão a responder com sucesso ao crescimento do mercado coreano, avaliado em 36 mil milhões de dólares em 2013. Já Rajeev Arora, diretor-executivo da African Cotton & Textile Association (ACTIF), salientou que a África Subsaariana está a oferecer um grande acesso ao mercado para os EUA e a UE, graças ao AGOA (Africa Growth and Opportunity Act) e EPA (Economic Partnership Agreements). De igual forma, Hideshi Ueda, vice-presidente executivo da Japan Textile Association (JFT), mostrou-se otimista com a expansão à UE da rede japonesa de acordos de livre comércio, enquanto Rahul Mehta, presidente da Clothing Manufacturers Association of India (CMAI), apelou a um acordo de livre comércio com a UE, na expectativa de beneficiar os retalhistas e exportadores indianos. Por seu lado, Fernando Pimentel, diretor-geral da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), declarou que o grupo sempre foi a favor de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a UE. Embora otimista que a cooperação Mercosul-UE poderá oferecer uma alternativa a alguns têxteis e vestuário asiáticos, Pimentel revelou que a Argentina está a travar este acordo entre os dois blocos comerciais. No entanto, existem também vozes discordantes a eventuais acordos de livre comércio. Entre estas encontra-se Jean-François Gribomont, presidente da associação têxtil belga Fedustria, que opõe-se firmemente a acordos de livre comércio entre países com um nível diferente de desenvolvimento económico e diferentes regras políticas. Também Kenan Koç, membro da direção da associação turca de industriais têxteis, queixou-se da posição frustrante do seu país dentro da União Aduaneira entre a Turquia e a UE – embora a Turquia não seja um membro da UE e não tenha voz nas inúmeras negociações de livre comércio lançadas pela UE, é afetada por estes acordos. Por seu lado, Bernd Stadtler, chefe de assuntos aduaneiros internacionais da Hugo Boss, considera que os acordos de livre comércio possuem um impacto negativo sobre as decisões de produção e subcontratação.