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O circuito integrado da moda

A empresa de tecnologia americana Intel Corporation, reputada pela fabricação de circuitos integrados, aventurou-se recentemente na indústria da moda, desenvolvendo peças de vestuário que, combinando estética e tecnologia, apelam efetivamente ao consumidor.

A Intel, patrocinadora da Semana da Moda de Nova Iorque, colaborou com um grupo de design, sediado no bairro nova-iorquino de Brooklyn, na criação de um soutien de desporto, com módulos integrados, que criam aberturas na peça quando detetam um aumento da temperatura corporal do utilizador. Paralelamente, a empresa desenvolveu um vestido preto, batizado “vestido adrenalina”, cujos sensores expandem uma rede de fibra de carbono sobre as costas da utilizadora, aquando da deteção de um aumento dos níveis desta hormona.

Este ano, a Intel apresentou um vestido interativo com braços mecânicos, desenvolvido por um designer que se inspirou em jogos de vídeo. Conjuntamente com o Grupo Fossil, também fabricou relógios conectados, integrados numa vasta iniciativa de expansão no sector de moda.

Estes projetos revelaram-se um inesperado, mas bem recebido, corte face à premissa de priorização da tecnologia na forma como Silicon Valley encara a indústria da moda. No entanto, estes projetos, como o Google Glass, têm-se sentido dificuldade em ganhar força junto do público, pela sua falta de simplicidade. A Google continua a trabalhar no Glass, mas retirou algumas funcionalidades pouco discretas e afirmou estar a trabalhar no desenvolvimento de uma lente de contato.

A Intel, da mesma forma, concluiu que a moda e os seus fãs pretendem integrar a tecnologia, mas nos seus próprios termos. «O Glass teve um grande retrocesso, não apenas por parte dos defensores da privacidade, mas também do sector da moda», revela Jerry Bautista, diretor do grupo de novos dispositivos da Intel. «Conhecemos os protocolos de engenharia e a conectividade sem fios. O que desconhecemos é o que as pessoas querem no seu corpo», explica.

Este é um aspeto de grande importância para a Intel. A empresa tornou-se a maior empresa de desenvolvimento de chips do mundo, através da redução da dimensão dos semicondutores, pelo que os laptops de hoje são mais poderosos do que os computadores que, no passado, ocupavam uma sala. Mas a Intel perdeu mercado quando a computação diminuiu ainda mais de tamanho, com a chegada dos smartphones, perdendo vários milhões de dólares em quota de mercado e valor das ações.

Brian Krzanich, que assumiu o cargo de CEO da Intel em 2013, acredita que a computação continuará a diminuir em tamanho, até alcançar os mais diversos dispositivos – e a moda. No entanto, uma empresa que se foca no sector da moda necessita de ajuda no acesso ao mercado. «Trazer para a Intel alguém que pertença a uma casa de moda não é suficiente», admite Bautista. «É muito melhor, para nós, colaborarmos com diversos designers e macas».

Essa colaboração, refere, tem demonstrado paralelos entre a exaustiva criação de moda e a intensidade da tecnologia. «As entidades do sector da moda têm tanto desejo de inovar e transcender como qualquer um em Silicon Valley», afirma. «Todos pretendemos criar algo que não tenha sido feito antes».

A Intel opera um estúdio de design no Presidio, um parque de São Francisco, que foi, no passado, uma base militar, a escassos metros dos estúdios dos designers e animadores de cinema. Num espaço equipado com uma montra de máquinas e equipamentos de design assistidos por computadores, os colaboradores debatem a criação de um par de luvas que pode ser usado para manipular objetos à distância, óculos que interagem com drones para mostrarem a estrada e capacetes de desporto que medem a performance.

Até ao momento, a Intel consegui atrair mais colaboradores entre as grandes marcas de acessórios, como relógios e óculos, do que entre os grandes designers de vestuário. As exceções notáveis são Humberto Leon e Carol Lim, da Open Ceremony, que se uniu à Intel no desenvolvimento de uma pulseira inteligente, denominada MICA (My Intelligent Communication Accessory), lnçada no ano passado. «As pessoas perspicazes percebem que as peças de roupa devem fazer mais do que cobrir-nos, elas podem ser dinâmicas», acredita Jerry Bautista. «É um exercício de humildade trabalhar com eles. Os especialistas em tecologia constroem coisas, mas as pessoas compram a casa pelo seu aspeto».

«A colaboração no desenvolvimento da pulseira foi interessante», reconhece Bautista. «Integrámos uma câmara que analisava a cor da bolsa, combinando-a com o ecrã da pulseira», refere. «Foi demorado fazer as cores combinarem de forma que o olho humano visse a mesma cor no ecrã e no couro. Apresentámos o produto às entidades do sector da moda e elas disseram que era tonto – eramos apenas geeks a exibirem-se», acrescente.

O vestido com braços mecânicos foi criado por Anouk Wipprecht, uma designer holandesa que se especializou em design interativo. O soutien e o vestido vieram da Chromat, uma empresa constituída por 10 elementos, cuja fundadora estudou arquitetura e não moda.

«A roupa deve ser capaz de mudar, acompanhando a nossa transformação ao longo do dia», defende Becca McCharen, fundadora e CEO da Chromat. O vestido, diz, foi inspirado pelo biomimetismo, particularmente pela forma como um pequeno animal utiliza as suas penas ou pele, aparentando ser maior quando ameaçado.

McCharen beneficiou também do seu passado industrial. «Os prédios adaptam-se a quem lá vive, com tecnologia para coisas como a luz e o aquecimento, pelo que o vestuário também deve fazer o mesmo», explica. «Espero que a roupa trabalhe para o corpo».

A moda e a tecnologia têm, até certo ponto, coexistido ao longo dos tempos. Na Roma Antiga, o imperador Nero usava óculos de esmeralda, de forma a adornar o rosto quando assistia aos combates de gladiadores. Quando o uso de relógios se popularizou, surgiram berloques e correntes que pretendiam torná-los mais atrativos. Na era da informação, no entanto, a contribuição mais marcante da tecnologia foi provavelmente o protetor do bolso.

Existem muitos sinais de mudança, particularmente num momento em que as roupas desportivas se tornaram aceitáveis em ambiente de escritório. A Nike, que possui um laboratório de inovação em Portland, no estado do Oregon, próximo aos escritórios da Intel, incorporou sensores nos modelos de calçado. O Apple Watch, embora não tão amplamente divulgado como o iPhone, é provavelmente o dispositivo wearable de fitness e comunicação mais vendido de sempre e beneficia da sua aparência diferente. A casa Hermès concebeu uma versão deste dispositivo para a Apple.

Os designers trabalham com nanotecidos que repelem a manchas ou guardam a forma. Existem vestidos que integram leds, exibindo imagens e enviando mensagens através da rede social Twitter em tempo real. A Intel mostra-se confiante face às suas pilhas leves e dobráveis, que poderão potencializar os vestidos e casacos, eliminando as saliências pouco estéticas. «Estamos a iniciar este enorme crescimento e a moda está a tentar acompanhar. Muito em breve, as pessoas poderão hackear os designs diretamente das passerelles e fazer essas coisas, transformando-os, através das impressoras 3-D». conclui McCharen.