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O clube dos visionários

Quer se trate de designers, ditadores de tendências, marcas ou mercados, as coordenadas da indústria da moda estão a ser escritas por um grupo que inclui nomes como Kanye West e Alexa Chung, mas também pelo Qatar ou pelo calendário de moda alternativo de Tom Ford.

Da capacidade de resiliência do rapper Kanye West, que desde as desventuras da marca de vestuário Pastelle tem vindo a digladiar-se para ser aceite pela indústria da moda como designer, aos irmãos Demna e Guram Gvasalia, que gerem o coletivo disruptivo Vetements, convidado para a semana de alta-costura de Paris, passando pelo mercado emergente de Doha, Qatar, epicentro de moda da região, a Fast Company selecionou os intervenientes que estão a transformar não apenas as roupas, mas também quando e como estas são consumidas.

O resiliente – Kanye West, CEO da Yeezy

O rapper lutou, praticamente durante uma década, para ser reconhecido como designer de vestuário, entre a promessa da marca Pastelle, que nunca se chegou a materializar, e as duras críticas quando apresentou a coleção feminina DW Kanye West, em 2011 (ver A moda de um rapper).

Só em 2013 e com o acordo com a Adidas (que terá rondado os 10 milhões de dólares [aproximadamente 8,90 milhões de euros]) o homem que muitas vezes se compara a Deus conseguiu finalmente multiplicar seguidores e encontrar a terra prometida da moda, através da marca Yeezy.

A colaboração rendeu enorme sucesso às sapatilhas Yeezy Boost, lançadas em 2015 e esgotadas sempre que voltam a ficar disponíveis.

Apesar de terem recebido críticas pouco simpáticas, as duas primeiras linhas de pronto-a-vestir da Yeezy vangloriaram-se com vendas estrondosas no Barneys e noutros retalhistas premium. Não obstante, a verdadeira criatividade de West é ser capaz de abalar o sistema.

Em fevereiro passado, West revelou a terceira temporada da Yeezy no Madison Square Garden, que contou com a apresentação, em estreia mundial, do seu mais recente álbum, “The Life of Pablo”. Foi transmitida ao vivo em 700 salas de cinema em todo o mundo e, mais tarde, vista por 20 milhões de pessoas na plataforma Tidal do também rapper Jay Z. Houve bancadas e bancas de merchandising e, pela primeira vez na história da Semana de Moda de Nova Iorque, o público pôde comprar bilhetes para um desfile. Anna Wintour, editora da Vogue americana, deu o seu selo de aprovação ao desfile ao sentar-se não ao lado dos seus pares, mas da mulher de West, a socialite Kim Kardashian.

A trendsetter – Alexa Chung, diretora criativa da Alexachung

A modelo e apresentadora britânica Alexa Chung é uma trendsetter global há mais de uma década, conhecida pelo seu estilo de vibração Peter Pan, no qual sobressaem bailarinas e jardineiras ou abordagens femininas ao menswear (ver Dinastia Chung).

O estilo de Chung atraiu 2,4 milhões de seguidores à sua conta no Instagram e, por isso, quando a fashionista anunciou em julho que estava a começar a marca própria de pronto-a-vestir (ver A marca de Chung), apoiada por uma entidade britânica anónima, a indústria recebeu a notícia com uma nota de inveja.

Afinal, as empresas de moda têm equipas destacadas para cultivar o tipo de seguidores apaixonados que Chung construiu organicamente e que pode mobilizar de forma instantânea.

A bolsa que a Mulberry criou, em 2009, inspirada pela fashionista, por exemplo, foi tão procurada que a empresa noticiou um aumento de receitas na ordem dos 79%. No ano seguinte, a colaboração com a Madewell, spin-off da J.Crew, esgotou em poucos dias. As duas aventuras no campo do denim com a AG Jeans foram também bem-sucedidas, como foi depois a linha vintage para a Marks & Spencer.

O visionário – Tom Ford, presidente e CEO da Tom Ford

Mesmo para Tom Ford, o passo foi ousado. Em fevereiro, menos de duas semanas antes do seu nome ser desvendado no calendário da Semana de Moda de Nova Iorque, o designer cancelou a presença no evento.

O designer e CEO de um império de luxo de capital fechado, com mil milhões de dólares em vendas anuais, anunciou que, para ele, era o fim do calendário tradicional, que inclui mostrar as novas linhas cinco meses antes das peças chegarem às lojas. Em vez disso, Ford passaria a adotar o modelo “ver agora, comprar agora” e apresentar as coleções de outono em setembro, quando as peças são postas à venda.

A notícia chegou depois do comunicado da Burberry que dava conta de planos semelhantes e, depois destas duas, marcas como a Vetements anunciavam um calendário de moda alternativo.

Com a abordagem “o cliente em primeiro lugar”, Ford sintoniza-se com a era das redes sociais, na qual os consumidores influentes podem colocar no Snapchat os seus novos sapatos Tom Ford e impulsionar diretamente as vendas.

Este é o mais recente movimento de uma carreira de futuro: nos anos 90, Ford transformou uma Gucci quase falida numa marca vital, agora avaliada em 12 mil milhões de dólares e, no ano passado, deu a conhecer a nova coleção não com um desfile, mas num videoclipe estrelado por Lady Gaga. «Posso fazer o que quiser», disse recentemente o designer e, segundo a Fast Company, isso inclui testar os limites da indústria.

Os alquimistas – Demna e Guram Gvasalia, designer principal e CEO, respetivamente, da Vetements

Em janeiro, o projeto coletivo Vetements, com sede em Paris, conhecido pelo seu streetwear de luxo, fez de uma t-shirt amarela (à venda por 330 dólares) estampada com o logotipo da transportadora DHL (ver O efeito Vetements) um objeto de cobiça. Inspiração de Andy Warhol? Um comentário antimoda? Mesmo os críticos não tinham a certeza do que se tratava. O certo foi que os irmãos georgianos Demna (também diretor criativo da Balenciaga) e Guram Gvasalia se tornaram opinion makers.

Convidada da Chambre Syndicale de la Haute Couture, em junho passado a Vetements estreou a sua coleção primavera-verão 2017 na semana de alta-costura.

O desfile da marca contou com a colaboração audaciosa de 18 marcas, da Carhartt à Comme des Garçons, que redefiniu a noção de diferença entre luxo e retalho (ver O clube da Vetements).

Em termos de estratégia de negócio, os irmãos juntaram-se recentemente ao movimento que pretende disponibilizar as coleções imediatamente após o desfile, na esperança não apenas de alcançarem mais clientes, mas também de colocarem um travão às imitações da moda rápida.

O mercado emergente – Doha, Qatar

As mulheres dos países ricos em petróleo do Golfo Pérsico compram mais alta-costura do que qualquer outra no mundo, uma realidade à qual a indústria da moda está atenta, de forma a garantir a sua próxima fase de crescimento, sobretudo agora que abundam notícias sobre a desaceleração do mercado do luxo na China.

Em janeiro passado, a Dolce & Gabbana estreou uma linha de hijabs e abayas (ver Moda em liberdade) e a Vogue Arábia arranca este outono.

Doha, capital do Qatar, o país mais rico do mundo per capita, emergiu como epicentro de moda da região.

É o lar de empresas como a Mayhoola for Investments, que comprou a casa Valentino em 2012 e a Balmain em junho passado. A Mayhoola está ligada à família real do Qatar, cuja matriarca Mozah bint Nasser al-Missned preside ao Qatar Luxury Group, dedicado à promoção de designers locais que possam vir a ser o próximo Christian Dior. Enquanto isso, as trendsetters locais já estão a deixar a sua marca: as contas de Instagram de Anum Bashir e Husnaa Malik transformaram-nas em referências de estilo em todo o mundo.

A experimental – Iris van Herpen, designer

Desde os seus dias de estudante, a designer holandesa Iris van Herpen adotou a tecnologia de ponta para inventar novos materiais que desafiam as noções de “tecido” (ver As interseções de Iris van Herpen).

A designer foi pioneira no uso da impressão 3D na moda e, em 2015, empregou a tecnologia numa coleção de pronto-a-vestir feita a partir de materiais como pó de metal, borracha e ímanes. No seu desfile em Paris, em julho passado, van Herpen estreou um vestido feito de milhares de bolas de vidro soprado.

Inspirando-se na arte, na filosofia e na ciência – a linha de 2015 foi influenciada pelo acelerador de partículas do CERN, na Suíça –, as coleções da designer mantêm a indústria encantada.

Entre os clientes estão os nomes de Lady Gaga, Tilda Swinton e Björk, para quem van Herpen desenvolveu um “vestido cobra” feito a partir de tubos de acrílico.

Se o mundo da moda vai tentando descobrir o futuro, van Herpen já lá está e mal pode esperar para deitar as mãos ao material que está a ser desenvolvido pelos militares norte-americanos que utiliza espelhos para simular a invisibilidade.