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O crescimento dos Têxteis Técnicos é superior ao do Vestuário e Texteis-Lar »

No contexto dos têxteis técnicos, Fernando Merino, director do Departamento de Intervenção Tecnológicas do Citeve – Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal, falou com o Jornal Têxtil, fazendo uma abordagem introdutória a esta temática e referindo o importante papel, desafios e oportunidades da ITV nacional nestes têxteis do futuro. Jornal Têxtil – Comecemos por apresentar o tema aos nossos leitores. O que são os têxteis técnicos e os têxteis inteligentes? Fernando Merino – Têxteis Técnicos são todas as estruturas têxteis destinadas à indústria de vestuário de protecção, desporto e lazer, à indústria de têxteis para o habitat, e aos outros sectores industriais que as utilizam quer na sua forma final, quer transformadas para complemento dos seus produtos. Cobrem por isso mercados mais alargados do que os têxteis convencionais, já que estes se destinam exclusivamente ao vestuário genérico e aos têxteis-lar. Designam-se por técnicos porque são concebidos para suportar padrões de qualidade exigidos em utilizações técnicas extremas, que estão fora do alcance dos têxteis convencionais. Esta é a definição que damos de têxteis técnicos. Mas agora a pergunta é, e o que são têxteis inteligentes? E acabamentos têxteis funcionais? Mesmo quem trabalha com estas matérias percebe que há diferentes interpretações, diferentes definições. Basicamente, anda tudo à volta dos mesmos conceitos, o que é preciso é arrumar as ideias. JT – Quando é que apareceram os têxteis técnicos? FM – O vestuário é seguramente a primeira utilização do têxtil – e remonta aos primórdios da civilização –, depois apareceu o lar, apareceu o conforto, e só muito recentemente é que se começou a falar na utilização em larga escala de têxteis técnicos. Depois, ainda, apareceram os têxteis funcionais, que são aqueles têxteis que, incorporando determinado tipo de matérias-primas ou acabamento, proporcionam determinada função. Neste caso, temos como exemplo os têxteis anti-bacterianos. Isto consegue-se porque nas matérias-primas, fibras, tecidos ou malhas, são incorporados acabamentos ou são incorporadas fibras em determinadas percentagens que conferem essa função. Fundamentalmente, temos os têxteis técnicos e dentro destes aparecem os funcionais. Agora aparecem os têxteis inteligentes onde cabem também os funcionais. Consideramos que existem duas grandes definições, sendo que todos os têxteis inteligentes são técnicos, mas nem todos os têxteis técnicos são inteligentes. Os têxteis inteligentes correspondem à geração mais recente de têxteis técnicos e que para a sua produção recorrem fundamentalmente à mais avançada tecnologia, considerando a electrónica e a integração de tecnologias de informação, incluindo até a biotecnologia, pois a manipulação genética também se faz ao nível das fibras. JT – Que tipo de funções cumprem os têxteis inteligentes? FM – Funções de sensorização, de automodificação e de actuação. O têxtil inteligente tem que sensorizar, tem que medir uma grandeza física, química ou microbiológica. Isto é, detecta a presença do microorganismo ou a presença de um aumento de temperatura e, portanto, sensoriza. Depois actua, isto é, o têxtil que possua, por exemplo, micro-cápsulas de materiais em mudança de fase (PCM) detecta um aumento de temperatura, absorve energia, muda de fase e actua regulando a temperatura. Mas há outros exemplos: os SMM – materiais de memorização da forma. Nesse caso eles sensorizam, modificam-se e depois é que actuam. Um bom exemplo são as mangueiras de abastecimento de combustíveis dos aviões ou de um Fórmula Um, no interior das quais pode existir uma válvula – que pode muito bem ser feita de um compósito que incorpora materiais têxteis inteligentes – e que estrangula o abastecimento se detectar, por exemplo, um aumento anormal de temperatura. Mas os agentes da interacção podem ser diversos. Se um acabamento tem como função actuar, ou seja, eliminar bactérias, a interacção é feita com o microorganismo. Se há que medir a temperatura do corpo humano ou o ritmo cardíaco, a interacção é com o ser humano. Mas se, por exemplo, é um têxtil que muda de cor porque está exposto à luz, a interacção é feita com o meio envolvente. JT – O aparecimento deste tipo de têxteis dá-se mais ou menos nos fim dos anos 80, princípio dos anos 90? FM – Diria que começaram a ser trabalhados em larga escala já a partir de 1980. Quando olhamos para a indústria têxtil, fazemo-lo como sendo fornecedora de diferentes mercados, como a indústria têxtil e de vestuário, os transportes, a indústria da saúde, a agricultura e pescas, a contentorização, a geotecnica, a indústria fornecedora de bens de equipamento e a construção civil e obras públicas. Portanto, mesmo antes de 1980 já se produziam materiais têxteis para aplicações técnicas. Apesar de não ser com esta força. Aliás, o crescimento mundial dos têxteis técnicos nos últimos anos anda na ordem dos 4%, o que é superior ao crescimento dos têxteis de vestuário e têxteis-lar. JT – O crescimento exponencial dá-se exactamente nos transportes, com os airbags na década de 80, que apresentou em força os têxteis técnicos… FM – Sim, e com o aumento dos requisitos de segurança do automóvel – agora há os laterais e uma série de componentes complementares. Em termos de crescimento, em 1995 os transportes, onde o automóvel tinha um grande peso, constituía a área mais representativa no “share” de consumo mundial de têxteis técnicos. O vestuário, por exemplo, situa-se mais ou menos a meio. Em termos de crescimento anual, o que se espera que venha a acontecer é que os transportes não sejam os principais responsáveis pelo crescimento dos têxteis técnicos, ou seja, as áreas que representavam mais em 1995 vão ser de facto aquelas que vão crescer menos. Há novas áreas como o desporto e lazer e a geotécnia. JT – É possível quantificar a produção de têxteis técnicos relativamente à de têxteis? FM – Em 1995, a produção de têxteis técnicos na América do Norte representava 33%, na Europa Ocidental apenas 25% e no Japão 29%. Espera-se que o Japão ultrapasse os Estados Unidos neste segmento até 2005 e que o maior crescimento se dê na Europa de Leste, apontando as previsões para os 6,6%. JT – Quais são as últimas novidades de têxteis inteligentes que destacaria? FM – Há um instituto de investigação alemão, o Klaus Steilmann Institut, que tem apresentado muitas novidades, como, por exemplo, sistemas que são incorporados nas peças de vestuário com ligação de GPS ou GSM para informação. Mas há vários outros exemplos e alguns vão estar no Modtíssimo. Este salão vai privilegiar o tema têxteis técnicos, com ênfase nos têxteis inteligentes. JT – O que é o CITEVE vai apresentar no Modtíssimo? FM – Vamos apresentar quatro dos nossos projectos mais recentes, na área dos têxteis técnicos e do desenvolvimento de novos produtos, que resultaram em produtos que a nossa indústria já está a produzir. O CITEVE vai apresentar um um stand dedicado aos têxteis do futuro e, fruto de uma parceria com a AVANTEX, vamos trazer para Portugal sete desenvolvimentos mais recentes de empresas alemãs, suíças e finlandesas. O CITEVE tem feito uma significativa aposta na área dos têxteis técnicos e o Modtíssimo, apercebendo-se dessa realidade, convidou o nosso Centro a participar, acreditando que, de facto, há condições no CITEVE para dar apoio nesta área. Sentimos que as empresas hoje já olham para nós com reconhecimento. Regularmente somos consultados sobre estas novas áreas. Há, portanto, um maior reconhecimento, e o CITEVE tem condições para apoiar as empresas e a indústria e responder aos desafios quer ao nível da criação, quer ao nível da consultoria, em