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O desassossego da ITV

A indústria têxtil da Nigéria receia o crescente domínio dos têxteis chineses que, por serem mais baratos, reúnem popularidade entre os cidadãos do país com menor poder de compra.

Uma peça de tecido de elevada qualidade custa cerca de 47 euros, sendo demasiado caro para mim», afirma Nafiu Badaru, funcionário público na cidade de Kano, a maior do norte da Nigéria. «Com a mesma quantidade de dinheiro posso comprar seis peças de tecido chinês baratas, que custam apenas 7 euros cada uma, e ainda poupar a diferença», explica.

A proliferação de têxteis provenientes da China é bem recebida entre os consumidores como Badaru, num momento em que a cidade de Kano e a região norte do país se debatem com o desemprego e restrições económicas. Mas os comerciantes da cidade consideram que tais importações têm sido desastrosas. Diversas fábricas encerraram e o comércio doméstico de tecidos tem diminuído, conduzindo ao apelo ao investimento estrangeiro na Nigéria, em vez de importações em massa baratas, bem como uma melhor regulamentação.

O negócio de Fatuhu Gambo é um dos muitos que se encontram sob elevada pressão. Nas duas últimas semanas não vendeu um único tecido na sua loja no mercado têxtil de Kantin Kwari, o maior da África Ocidental. «Os chineses excluíram-nos efetivamente do negócio, deixando-nos com nada além de enormes dívidas e enormes stocks de produtos nas nossas lojas», refere ele. A conversa no mercado – um aglomerado de lojas e bancas que atraem comerciantes da Nigéria, do Níger, Chade, Camarões, Mali e da República Centro-Africana – é marcada pelo tema da concorrência desleal. «Os chineses tomaram conta da importação e distribuição de têxteis em Kano e agora estão envolvidos no retalho, colocando os nossos comerciantes fora do negócio», indicou o presidente do sindicato dos comerciantes, Liti Kulkul.

Os problemas começaram a tomar forma há uma década, quando os comerciantes de têxteis chineses iniciaram a importação maciça de produtos têxteis para a Nigéria depois da nação mais populosa do continente africano ter aberto as suas portas ao comércio exterior. O acordo da Organização Mundial do Comércio garantiu o acesso irrestrito ao mercado têxtil nigeriano, embora as leis nacionais proíbam os estrangeiros de estabelecerem negócios de retalho em espaço nacional. Os comerciantes falam de moradores que são recrutados para realizar negócios em nome de entidades chinesas em troca de uma percentagem dos lucros.

Têm ocorrido repressões ocasionais, como em maio de 2012, quando oficiais da imigração prenderam e deportaram 45 cidadãos chineses acusados de implementarem negócios de retalho, na sequência de repetidas queixas. No princípio do mês, oficiais da alfândega detiveram quatro negociantes chineses por contrabando de tecidos produzidos em massa e selaram 26 armazéns que contêm bens sujeitos a direitos de importação que não haviam sido pagos. Em seguida, centenas de tintureiros têxteis realizaram protestos de rua contra o que veem como uma aquisição chinesa do seu comércio, que ameaça excluir 30.000 artesãos. Os tintureiros, muitos dos quais ainda usam métodos que datam de há mais de 500 anos, acusaram os comerciantes chineses de falsificarem os seus produtos, vendendo tecido de qualidade inferior a uma fração do preço.

Esta situação é apenas um aspeto da luta enfrentada pela economia nigeriana, particularmente dependente do petróleo, que tem sido duramente afetada pela quebra dos preços globais deste bem desde meados de 2014. A produção doméstica é reduzida, obrigando à importação massiva de bens, desde carros a produtos alimentares. O líder religioso local, o Emir de Kano, Muhammadu Sanusi II, encontrou-se recentemente com o embaixador chinês na Nigéria, apelando a que Pequim estabelecesse unidades fabris no país. «A nossa excessiva dependência de bens externos está a afetar a nossa economia e a única forma de parar esta tendência é resolver o problema do sector produtivo», explicou Sanusi, antigo governador do banco central. Sa’idu Adhama, antigo proprietário de uma fábrica têxtil, afirmou que os comerciantes não conseguem competir com as entidades de origem chinesa, que podem aceder a empréstimos bancários a taxas de apenas um dígito por um longo período de tempo. «Os chineses estão aqui legalmente, por isso não podemos expulsá-los mas podemos regular a sua atividade», acrescentou Adhama, que estudou na China na década de 1970. Isso poderia incluir quotas, uma aplicação mais rigorosa dos regulamentos de importação, taxas alfandegárias e impostos, bem como subsídios aos combustíveis para impulsionar as empresas de produção locais e apoiar os negócios domésticos, apontou Adhama.

O investimento de longo-prazo no sector da energia de forma a estabilizar o fornecimento de energia elétrica, atualmente precário, também poderá reavivar as fábricas nacionais moribundas, indicou. Paralelamente, o debate é irrelevante para pessoas como Badaru. As importações estrangeiras mais baratas permitem satisfazer a procura de uma sociedade de consumo em emancipação, desde vestuário a eletrónica. «Para mim e para a maioria das pessoas com baixos rendimentos, os produtos têxteis chineses são uma bênção. Eles dão-nos a oportunidade de estarmos limpos e elegantes, despendendo pouco dinheiro», reconhece.