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O disco voador Chanel

Dos mais de três milhões de contentores descarregados no porto da cidade de Hong Kong este ano, 56 carregavam uma galeria móvel que vai passar por diversos cantos do mundo mostrando trabalhos inspirados pela carteira Chanel. “Mobile Art” junta os trabalhos de 20 artistas, incluindo os fotógrafos japoneses Nobuyoshi Araki e Yoko Ono, viúva de John Lennon, num pavilhão em forma de disco voador desenhado pela arquitecta iraquiana vencedora do prémio Pritzker Zaha Hadid. Quando Hadid e Karl Lagerfeld da Chanel se juntaram para concretizar o seu sonho de um museu itinerante, nomearam Fabrice Bousteau, editor chefe da revista Beaux Arts, como curador. Bousteau descreve a exposição como uma espécie de disco voador que aterra por algumas semanas no meio de algumas das maiores cidades da Ásia, EUA e Europa», realçando ainda o carÁcter inovador desta exposição. Esta exposição é completamente nova porque foi concebida como uma paisagem real e um filme de 3D que ganha vida com os visitantes». Também para Zaha Hadid, este projecto é uma inovação. O fascínio da Mobile Art é o desafio de traduzir o intelectual e o físico para uma experiência sensorial com ambientes completamente inesperados e totalmente envolventes para esta celebração mundial do trabalho icónico da Chanel», considera a arquitecta. A exposição estÁ em Hong Kong desde o passado dia 27 de Fevereiro e até 5 de Abril, antes de ir para Tóquio, Nova Iorque, Londres, Moscovo e finalmente Paris em 2010. Mobile Art é, do meu ponto de vista, a expressão da utopia e do futuro. é um projecto arquitectónico muito curioso porque é o único edifício do mundo que vai viajar, que é circular e nómada», refere Fabrice Bousteau. Aos artistas foi pedido para basearem a sua criação na carteira mais vendida da Chanel, chamada “2.55” em homenagem ao mês e ano de lançamento. Os artistas foram inclusive levados ao apartamento em Paris de Coco Chanel onde puderam perceber como as carteiras eram feitas. O resultado são diferentes pontos de vista e abordagens livres. Depois de ter sido convidada pela Chanel, a artista francesa Sophie Calle publicou um anúncio numa revista japonesa no Outono de 2006 à procura de um artista para levar a cabo o seu projecto. Queria parar transeuntes, pedir para que esvaziassem as suas carteiras e oferecer-se para comprar tanto os pertences como a própria carteira. Soju Tao concorreu ao posto e o resultado da sua colaboração é apresentado na exposição. Araki, conhecido pelas suas fotografias eróticas, montou uma mostra de diapositivos “A Dança dos Sete Véus”, mostrando a imagem de jovens mulheres libertando-se de correntes de carteiras Chanel tendo por pano de fundo fotos de lânguidas flores venenosas. Prestando homenagem a Coco Chanel, fundadora da casa de moda, o sul-coreano Lee Bul construiu uma escultura em plÁstico, iluminada por dentro, e pejada com centenas de carteiras e correntes. Ao longo de toda a exposição, os visitantes são guiados através dos túneis com uma apresentação em iPod de Stephan Crasneanscki, artista de som conhecido por Soundwalk e com a narração da actriz francesa Jeanne Moreau. Subodh Gupta apresenta um trabalho de vídeo em duas partes intitulado “Todas as coisas estão dentro”, que reúne reflexões de pessoas em trânsito e as suas aspirações, como a vida do trabalhador indiano que estÁ de regresso do próspero Dubai onde esteve a embrulhar presentes. Próximo do final do túnel estÁ a “Árvore dos Desejos” de Yoko Ono, onde os visitantes podem escrever um desejo numa folha de papel de arroz e amarrÁ-lo aos ramos da Árvore, que, no final, vão ser recolhidos e enviados para a Imagine Peace Tower em Reikjavik, na Islândia, um tributo a John Lennon com base no seu hino à paz “Imagine”. Ono, veterana em misturar elementos sociais, políticos e corporais nos seus trabalhos, participa juntamente com Tabaimo, um artista de vídeo japonês de 32 anos que expôs a obra de Ono “Casa de Bonecas” na Bienal de Veneza em 2007. Fantasias pessoais e visões do mundo são celebradas no trabalho da dupla de fotógrafos Pierre&Gilles. O italiano Loris Cecchini, por outro lado, distorce a realidade física e visual – desde cadeiras de cinema que caem para dentro de si mesmas a ilusões ópticas de pessoas a escalar edifícios. Estão ainda presentes trabalhos de outros artistas, como o fotógrafo Stephen Shore dos famosos The Factory de Andy Warhol, cujas imagens realçam temas sociais, o também americano David Levinthal, Blue Noses da Rússia, Sylvie Fleury da Suiça, Y.Z. Kami do Irão e Leandro Erlich da Argentina. Para Lagerfeld, que esteve presente na abertura, este projecto é uma obra de arte e vale bem a pena a viagem até Hong Kong».