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O efeito bola de neve do coronavírus

O surto de coronavírus está a abalar a economia internacional, mas o maior impacto reflete-se na China. A dificuldade de recuperação dos produtores têxteis e de vestuário é notória e os trabalhadores em quarentena, as restrições de viagem e os atrasos nas entregas de encomenda continuam a afetar a produção e a aprofundar a incerteza.

Para as marcas e retalhistas com redes de aprovisionamento que se estendem até à China, as implicações do surto do novo coronavírus – agora formalmente conhecido como Covid-19 – continuam a reverberar sobre a produção. As empresas que mantêm operações no país estão a monitorizar de perto os desenvolvimentos e a tomar medidas para dar resposta aos atrasos na produção.

Contudo, já se resignaram ao facto de que a disrupção do negócio é inevitável, face aos indícios de atrasos na produção e à escassez de inventário. Um executivo de uma empresa enumera ao just-style a multiplicidade de desafios que se colocam aos negócios globais: «as fábricas ainda não estão em atividade [total] e os produtores não têm capacidade para enviar as encomendas; como não estão a receber matérias-primas, vão sofrer atrasos na produção e perder remessas; e [as empresas] não conseguirão enviar os seus inspetores de controlo de qualidade a visitar as fábricas e monitorizar a produção, pelo que poderão ter de suportar um aumento dos defeitos qualitativos».

Além dos atrasos de dois a três meses na entrega das coleções de moda de primavera-verão, o impacto poderá prolongar-se para a estação outono-inverno e as épocas de regresso às aulas e festividades do final do ano. «Vamos enfrentar muitos desafios em maio e junho, altura em que os produtores estarão pressionados pelos atrasos acumulados nos meses precedentes de fevereiro até abril», reforça o executivo.

Sob um efeito de bola de neve, estas dificuldades poderão ganhar ainda uma maior dimensão, culminando potencialmente na falência de empresas e numa recessão global mais profunda.

Recuperação a meio termo

Os produtores da segunda maior economia do mundo já sofreram uma interrupção forçada de três semanas, dado o prolongamento do feriado do Ano Novo Chinês, como uma das medidas para conter a propagação do vírus.

No entanto, reiniciar a produção representa por si só um novo desafio, devido às restrições sobre as viagens e às medidas de precaução para proteger os trabalhadores em ambientes lotados, como as fábricas. «O governo local está a ser muito cauteloso no que toca ao regresso ao trabalho dos funcionários», salienta Stanley Szeto, presidente executivo da Lever Style, cujo principal centro de operações se situa em Shenzhen, na China.

Aliás, muitas das fábricas que retomaram atividade estão a operar muito abaixo das suas capacidades. «A produção está a começar muito lentamente», confirma o executivo. «As empresas estão em dificuldades para voltar a arrancar e recuperar os seus funcionários de outras províncias», continua.

De acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), 37,6% das exportações têxteis mundiais de 2018 tiveram origem na China – um recorde histórico –, com o país a alimentar quase dois terços dos têxteis usados pelos produtores do Sudeste Asiático. O cancelamento das remessas de transporte aéreo para entrada e saída na China e Hong Kong estão a causar disrupções às linhas de aprovisionamento. «Temos tecidos de alfaiataria que devem ser transportados por via aérea de Itália para a China para produção de vestuário», refere Szeto. «Agora precisamos de soluções alternativas porque Itália proibiu voos de e para o território chinês», acrescenta.

Por outro lado, quando as fábricas voltarem à atividade normal, «sentir-se-á um estrangulamento da logística, já que todas as empresas irão competir para enviar o mais brevemente possível bens que estão em atraso», antecipa o executivo. Esta competição será acompanhada por taxas de transporte aéreo elevadas e potenciais cancelamentos de envio, por força dos limites à capacidade de transporte. «Podem ocorrer perturbações nas fábricas se não tiverem fluxo de caixa suficiente para sobreviver, quando estiverem perante situações de produção cancelada ao invés de produção atrasada», alerta Szeto.

Clientes solidários

A produtora de vestuário de alta performance KTC, cuja principal base de produção está sediada na cidade chinesa de Heshan, decidiu «manter-se encerrada por enquanto, até conseguir garantir um ambiente de trabalho seguro para os nossos colegas», divulga o CEO, Gerhard Flatz. «Já informamos os nossos clientes e, até o momento, não houve reações negativas», acrescenta.

Por sua vez, Angie Lau, CEO do Clover Group International, sublinha que as fábricas em Dongguan voltaram ao trabalho a 10 de fevereiro, com apenas metade da força laboral. «Aplicamos um protocolo de quarentena de 14 dias para assegurar que temos um ambiente limpo e não contaminado», explica. Com a maioria da sua equipa impedida de viajar tanto na China como no exterior, a empresa está a recorrer à tecnologia para devolver a produção ao seu ritmo normal. «Temos utilizado ativamente ferramentas de software, como virtualização 3D [da Browzwear] para nos ligarmos aos nossos clientes. Esta tecnologia além de nos poupar tempo é extremamente ecológica».

Contudo, Lau alerta ainda que «o efeito bola de neve será um problema muito maior» do que a disrupção das cadeias de aprovisionamento. Ainda assim, «todos os nossos clientes estão a trabalhar [para ultrapassar] esta crise connosco, já que compreendem perfeitamente a severidade do vírus e a postura adotada pelo governo chinês».

Planos de contingência

As restrições de viagem também dificultaram a realização de auditorias, visitas e inspeções às fábricas, evidencia a Elevate. A empresa antecipa retomar os seus serviços de auditoria e consultoria, que implicam visitas presenciais na China, a partir da próxima semana (24 de fevereiro), mas suspendeu as operações na província de Hubei até novo aviso. «Mais de metade dos principais clientes da Elevate que recorrem à China enquanto mercado de sourcing procederam ao reagendamento de auditorias e expressaram a sua preocupação sobre a capacidade dos funcionários de voltar ao trabalho, problemas de conformidade e cronogramas de entrega», explica a empresa.

Os resultados de um estudo feito em fábricas e desenvolvido pela Elevate – onde a grande maioria dos inquiridos operam na China no sector dos têxteis (32,9%) e da moda (25%) – sugerem que a maioria terá reiniciado, pelo menos, parte da produção durante esta semana (17 de fevereiro) e prevê retomar a totalidade entre o final do mês e meados de março.

Ao mesmo tempo, as fábricas estão a tomar diversas medidas de segurança e proteção contra o coronavírus, onde se incluem a utilização de máscaras, regulação da temperatura, desinfeção e lavagem das mãos frequentes, verificação do histórico de viagens, áreas de almoço separadas e aumento na distância entre trabalhadores nas linhas de produção. A grande preocupação é que, se for descoberto um caso de Covid-19 no local, toda a operação terá de ser suspensa por 14 dias.

«Até ao momento, as fábricas ainda não evidenciaram sinais de precisar de ajuda financeira, mas esperam que os clientes não cancelem pedidos de encomenda, que compreendam os atrasos e considerem renunciar a multas por atrasos na entrega de mercadorias», frisa a Elevate. «Muitas marcas, retalhistas e vendedores globais ainda estão em reuniões estratégias para compreender e estruturar a disrupção na cadeia de aprovisionamento. Como consequência, irão definir planos de contingência e decisões de sourcing e de responsabilidade social corporativa», continua.

A empresa acrescenta ainda que «estamos a discutir com vários clientes as vantagens de avançar com programas de auditoria em destinos de sourcing fora da China, como a América Latina e do Sul e o Sudeste Asiático».