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O elo mais fraco da cadeia

Trabalhadores da indústria de vestuário das cadeias de aprovisionamento de grandes marcas e retalhistas estão a relatar o aumento da fome e da insegurança alimentar como resultado do declínio dos rendimentos e da perda de empregos em plena crise pandémica, revela um novo estudo.

[©Reuters]

O inquérito global efetuado aos trabalhadores da indústria de vestuário foi conduzido pelo Worker Rights Consortium em colaboração com a professora Genevieve LeBaron da Universidade de Sheffield no Reino Unido. O estudo incidiu em cerca de 400 trabalhadores da indústria de vestuário e em 158 fábricas, situadas num total de nove países –Bangladesh, Camboja, El Salvador, Etiópia, Índia, Indonésia, Lesoto e Mianmar.

De acordo com os entrevistados no âmbito da análise, providenciar a alimentação adequada para as respetivas famílias é cada vez mais difícil, um cenário que os trabalhadores acreditam que vai ainda piorar. O aumento da fome e da insegurança alimentar surge como consequência dos salários baixos nas cadeias de aprovisionamento das marcas que deixaram os trabalhadores em situações desfavoráveis, fruto de vários cancelamentos de encomendas de vestuário.

Cerca de 77% dos trabalhadores deste sector revelaram que eles ou um membro da família estão a passar fome desde o início da pandemia, enquanto 80% dos colaboradores com filhos referiram estar a saltar refeições e a reduzir tanto a quantidade como a qualidade dos alimentos que comem, para priorizar os filhos.

A baixa de rendimentos gerou dívidas, com cerca de 75% dos trabalhadores a pedirem dinheiro emprestado ou a acumularem dívidas para comprar alimentos desde o início da crise.

Problemática em crescimento

A dificuldade desvendada pelo relatório continua a existir, apesar de alguns trabalhadores terem recebido ajudas governamentais, o que indica, segundos os autores da análise, que os governos com poucos recursos nos países exportadores de vestuário não foram capazes de proteger os trabalhadores das cadeias de aprovisionamento da devastação económica desencadeada pelo novo coronavírus.

[©World Food Programme]
«Os elevados níveis de fome relatados pelos trabalhadores na nossa pesquisa são alarmantes, especialmente porque muitos destes trabalhadores ainda estão empregados», admite Genevieve LeBaron, a autora e também professora de política da Universidade de Sheffield, citada pelo just-style.com. «A fome e a insegurança alimentar parecem já estar generalizadas e a crescer em toda a cadeia de aprovisionamento», acrescenta.

Penelope Kyritsis, coautora do relatório e diretora de pesquisa estratégica do Worker Rights Consortium, destaca igualmente a falta de ação por parte das marcas e retalhistas para ajudar a combater a fome. «Várias empresas de vestuário citadas pelos trabalhadores que responderam ao inquérito são propriedade de bilionários. Essas empresas, e a indústria no seu todo, são mais do que capazes financeiramente de garantir que os trabalhadores que costuram as suas roupas podem alimentar as famílias», afirma.

Combater a desigualdade

Além de chamar a atenção para a situação vivida pelos trabalhadores da indústria de vestuário, a análise menciona também várias recomendações que as empresas devem seguir, uma vez que são responsáveis pelos trabalhadores das cadeias de aprovisionamento e, por isso, têm o dever de tomar medidas para minorar os danos.

Neste sentido, as marcas e retalhistas devem começar por garantir os devidos rendimentos aos trabalhadores, mesmo durante a pandemia, recorrendo, se necessário, a sindicatos ou defensores dos direitos laborais. Pagar aos fornecedores na totalidade qualquer pedido que tenha sido colocado antes da crise, tendo em conta que se estas encomendas não forem liquidadas, são os fornecedores e trabalhadores que vão assumir os custos. Assegurar o pagamento de todos os direitos legais aos colaboradores que forem dispensados como resposta à crise e ainda acabar com as práticas de compra irresponsáveis como pedir descontos elevados e prazos de pagamentos cada vez mais gravosos.

[©Reuters]
Como conclusão, os autores do relatório consideram que há necessidade de mudança para lidar com as desigualdades de riqueza e de poder nas cadeias de aprovisionamento e nos modelos de negócio que falharam em garantir salários dignos aos trabalhadores, na distribuição igualitária de valor na cadeia de aprovisionamento, nas práticas de compra responsáveis com preços justos de produção e também no pagamento justo aos fornecedores para que estes possam cumprir as leis do trabalho.

«Esta dinâmica deixou os trabalhadores do sector de vestuário extremamente vulneráveis ​​aos choques económicos da pandemia e isso vai exigir uma ação direcionada de legisladores, investidores e empresas de vestuário em estreita colaboração com sindicatos, trabalhadores e seus defensores», explicam as autoras do estudo. «Como primeira etapa, as marcas devem fazer um compromisso exequível de pagar um preço premium em pedidos de vestuário para estabelecer um fundo de garantia de indenização global e ampliar a proteção social para os trabalhadores da indústria de vestuário, de acordo com uma proposta defendida por uma vasta coligação de sindicatos e organizações não governamentais», sugerem.