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O escultor da moda

Conhecido pelo seu talento ao misturar arte com moda, Jum Nakao ganhou consagração mundial ao criar uma colecção de papel, apresentada no São Paulo Fashion Week em 2005, que foi considerado o desfile da década no Brasil e um dos mais importantes desfiles do século pelo Museu da Moda de Paris. O segredo do estilista na criação de obras tão peculiares passa, segundo o próprio, por seguir instintos com paixão. «A minha colecção de roupa de papel alcançou uma repercussão muito maior do que alguma vez poderia imaginar. Não esperava, de todo, que fosse reconhecido como o desfile da década pelo São Paulo Fashion Week, nem como um dos maiores desfiles do século pelo Museu de Moda de Paris. Este trabalho já percorreu museus como o de Arte Contemporânea do Japão, o The New Dowse (Nova Zelândia), foi exposto na Fortezza del Basso em Florença, no MoMu (Bélgica), no Atopos (Grécia) e foi publicado em dezenas de livros sobre arte, moda e design. O desfile aconteceu numa época em que questionava – e continuo a questionar – as referências, o conteúdo da produção "cultural" e os fenómenos à nossa volta», afirma Jum Nakao, que continua a acreditar que o mais importante no mundo da moda é o diálogo que a obra pode estabelecer com os consumidores. O criador defende que existem valores que são essenciais em qualquer área e que a moda não é, nem deve ser, uma excepção à regra. «O mundo não precisa de mais roupas: precisa de pessoas melhores. Mas como transformar as pessoas? Acredito que o caminho seja a educação e a cultura. Na moda somos todos muito alfabetizados apenas no sentido de sermos consumidores, mas totalmente sem capacidade de leitura ou interpretação. Existe uma grande diferença entre alfabetizar e educar. Tenho-me dedicado a esta educação, pois de que adianta a poesia se a escrita não é compreendida? Continuo a participar activamente na moda como professor, com workshops, presto serviços de consultoria a empresas de diversos sectores e respondo a convites de museus, fundações e instituições. Faço também exposições um pouco por todo o mundo», revela o estilista. Antes de se dedicar à formação, Jum Nakao esteve igualmente à frente da Zoomp durante 20 anos, como director criativo da marca. De igual forma, o estilista foi criando em paralelo alguns projectos em nome próprio. «Após 20 anos de uma vida dupla, decidi, em 2002, seguir novos caminhos. Os universos criativos dentro de uma empresa e o universo de autor são completamente distintos, mas de igual tamanho e importância. Numa empresa aplicamos a criatividade dentro das potencialidades produtivas e de consumo do mercado. No universo de autor experimentamos as possibilidades pessoais desconhecidas e formamo-nos como indivíduo. Aprendi muito e em 2004 decidi fazer a ruptura. “A Costura do Invisível” é uma ruptura com o formato, não com a moda. Depois deste desfile abdiquei da minha marca própria – pelo menos por um tempo – para me dedicar, como disse anteriormente, à formação de uma consciência sobre moda e as suas possibilidades», conclui o designer.