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O exército da revenda

Armados com milhões de dólares angariados em rondas de financiamento, os portais de revenda online estão a prosperar com artigos de luxo a preços mais baixos e a ganhar cada vez mais quota de mercado no comércio eletrónico. No entanto, ainda há arestas a limar e a rentabilidade continua a ser o calcanhar de Aquiles destes negócios.

Recentemente, o Tradesy, um portal que vende artigos de vestuário e acessórios em segunda mão, anunciou que tinha angariado 30 milhões de dólares (26,6 milhões de euros) numa terceira ronda de financiamento, que juntou o novo investidor Wildcat Capital Management – a empresa de investimento familiar de David Bonderman, sócio fundador da TPG Capital – aos existentes, Kleiner Perkins Caufield & Byers, Rincon Venture Partners e o empresário Richard Branson, revela o portal de moda The Business of Fashion (BoF).

A Tradesy quadruplicou a receita desde janeiro de 2015, quando angariou 30 milhões de dólares na série B, ronda liderada pela Kleiner Perkins Caufield & Byers, que avaliou a empresa em cerca de 100 milhões de dólares.

Porém, a Tradesy não é o primeiro jogador da revenda online a anunciar uma ronda de novos investimentos, com vários concorrentes a preparar-se para aquilo que a fundadora da empresa, Tracy DiNunzio, chama de uma batalha «winner-takes-all» para as startups de venda de vestuário em segunda mão no canal online.

Em setembro de 2015, a thredUP – que se apresenta como «a maior loja online de produtos em segunda mão» – anunciou uma ronda de financiamento de 81 milhões, liderada pela Goldman Sachs. No mesmo mês, o website de revenda de artigos de luxo Vestiaire Collective, com sede em Paris, recebeu 33 milhões de euros na série D liderada pela Eurazeo. Já em dezembro de 2015, o portal lituano Vinted somou 27 milhões de dólares.

E no mês passado, a retalhista online americana The RealReal anunciou um investimento de 40 milhões de dólares, notícia seguida pela aplicação Poshmark, que anunciou uma ronda de investimento de 25 milhões liderada pelo GGV Capital.

A The RealReal espera gerar 400 milhões de dólares brutos em artigos em 2016, enquanto a Vestiaire Collective registou 78 milhões de euros em 2015, comprovando o potencial de um mercado que está a crescer impulsionado por fatores que vão desde a  atual mentalidade do consumidor pós-recessão ao aumento da procura de mudanças de looks frequentes, provocado pela ascensão das redes sociais e da cultura da selfie.

Amealhar grandes somas de dinheiro permitiu assim que as principais empresas de comércio eletrónico ganhassem escala, deixando aquelas que adotaram uma abordagem mais conservadora para trás. «Os compradores tendem a ir onde podem encontrar mais produtos, os vendedores tendem a ir onde sabem que podem chegar a mais compradores. Então, gravitam em torno de quem executa mais rápido e de quem usa o seu capital da melhor forma», resume DiNunzio.

A certa altura, havia mais de 30 startups que operavam num espaço que ainda não tinha conhecido grande consolidação. O website Covetique, apoiado pela ASOS, encerrou em junho de 2015, depois de quatro anos no negócio. A Bib+Tuck, que incentivou os consumidores a trocar produtos sem nunca trocarem dinheiro, foi adquirida pela cadeia de segunda mão Crossroads Trading Co., em agosto de 2015 e imediatamente fechada. E a Tradesy adquiriu a revendedora de luxo Shop Hers em novembro de 2015.

Apesar de a Vaunte ainda está estar de portas abertas, o futuro da revendedora de produtos de luxo é cada vez mais incerto. Os cofundadores Andy Shin e Christian Leone deixaram a empresa e a presidente-executiva Leah Park lançou recentemente um novo empreendimento, o Project September. Há ainda o exemplo da loja sediada em São Francisco Threadflip, que somou mais de 20 milhões de dólares antes de ser absorvida pelo website de roupas alugadas Le Tote, em janeiro de 2016. «É um espaço competitivo», reconheceu o cofundador do Le Tote, Brett Northart, à TechCrunch à data da aquisição.

Com efeito, na moda, o segmento da revenda é um negócio desafiador, porque requer um alto nível de participação dos consumidores. Em muitos websites de revenda – incluindo o eBay, o peso-pesado no mercado de roupas e acessórios vintage – é o vendedor quem fotografa, publica e expede os produtos. Mas alguns portais têm procurado acelerar este processo e levá-lo para o próximo nível, assumindo as rédeas do negócio.

O The RealReal, que revende artigos de luxo, avalia, autentica, fotografa e publica os artigos e, quando estes são vendidos, expede os artigos na embalagem da marca. O vendedor permanece anónimo e é pago pelo The RealReal, não pelo cliente, quando um item é vendido. «Queria resolver um problema que o eBay não poderia resolver», revela a CEO da empresa, Julie Wainwright. «Sabia que tinha de facilitar o processo, proporcionando uma recolha livre nas principais cidades e fiscalizar e autenticar cada peça», explica.

Contudo, este tipo de logística – dispendiosa – pode ser um problema particular para revendedores que lidam com produtos de preço baixo e, portanto, requerem um volume extremamente elevado de vendas para obter qualquer tipo de lucro.

É verdade que a maioria dos portais de revenda não está a comprar e manter stocks, o que reduz drasticamente o risco e a sobrecarga. No entanto, estas empresas também têm menos controlo sobre o inventário que conseguem vender.

A maioria dos websites está, por isso, a educar os vendedores, providenciando informações sobre quais os itens com maior valor de revenda. O The RealReal, por exemplo, fornece um relatório anual para os vendedores. Mas a melhor forma de aumentar o volume de produtos, destaca o BoF, é recrutar mais vendedores. A Vestiaire Collective aceita produtos de vendedores de mais de 17 países. Resultado? Todos os dias chegam 4.000 novos produtos ao portal.

Não obstante, o maior desafio de todos é a rentabilidade. Estes portais de sucesso gabam-se dos seus números de crescimento impressionantes. Porém, com os investimentos em comércio eletrónico a encolher, os investidores focam-se, cada vez mais, nas empresas com negócios rentáveis.

O presidente-executivo da ThredUP, James Reinhart advoga que a empresa opta por não ser rentável e continua a concentrar-se na escala. «Poderíamos ser rentáveis agora se quiséssemos», garante. O The RealReal espera conhecer a rentabilidade no quarto trimestre de 2016, enquanto o Tradesy apresenta 2017 como meta.

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Autor: Bárbara Matias

Fonte: The Business of Fashion