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O FTF mudou a imagem da ITV

Em 2001, Manuel Serrão teve a ideia de casar a moda com os têxteis técnicos, e convidou então o Citeve para concretizar a união. Daqui nasceu o Fórum Têxteis do Futuro (FTF), integrado no salão Modtissimo. Quatro anos depois, o FTF ganhou asas e voou até Frankfurt, participando na megafeira dos têxteis técnicos e do vestuário inovador – a Techtextil/Avantex 2005. Fernando Merino, dinamizador do FTF e director do Departamento dos Têxteis do Futuro do Citeve, faz a análise do passado desta plataforma, que relança actualmente a ITV portuguesa na alta-roda internacional, com os olhos postos no futuro. 

Jornal Têxtil (JT) – Que objectivos ditaram a participação do FTF na Techtextil?

Fernando Merino (FM) – A associação Selectiva Moda organiza já a participação de empresas nacionais em feiras de países como a Alemanha (Bread & Butter), os Estados Unidos (Magic) e a China (Intertextile Shangai), e foi nesse contexto que o objectivo de participar na Techtextil foi estabelecido em 2003, quando desenhávamos com a Selectiva Moda o projecto FTF no Salão Modtissimo para 2004 e 2005 – o segundo ciclo. O objectivo traçado foi levar para o maior palco mundial de feiras de têxteis técnicos uma montra daquilo que a indústria portuguesa está a desenvolver.

JT – Entretanto, meteram as mãos à obra…

FM – Em Janeiro de 2004, estive na Messe Frankfurt para apresentar o projecto à direcção da Techtextil ainda sem qualquer certeza quanto ao número de empresas que conseguiríamos motivar para esta participação. Sugeri na altura 8, o que me parecia um número consistente face à dimensão do Fórum de então e à evolução que este sector estava a ter em Portugal, tendo já em conta que nas últimas edições da Techtextil Portugal contava sistematicamente com 2 participações. No final, conseguimos reunir 11 empresas.

JT – Surgiu imediatamente algum feed-back face à vossa participação?

FM – Em termos de organização percebemos logo o interesse que despertou a forma como o Citeve e a associação Selectiva Moda se apresentaram na Techtextil já que recebemos no local convites para participação noutras feiras. Tenho que destacar também o papel do Icep nesta aventura, que foi uma peça fundamental para o sucesso desta participação já que abraçou a iniciativa a partir de Portugal,  das Delegações de Berlim e de Frankfurt e ainda estiveram ao nosso lado na feira. Fomos visitados pelo Secretário de Estado do Comércio e pelo próprio Presidente do ICEP que ficaram bem impressionados e com a visão necessária para continuar a apoiar este projecto de internacionalização que, na minha opinião, tem bons argumentos para duplicar o número de empresas nacionais na Techtextil 2007.

JT – Já teve oportunidade de se reunir com as empresas que abraçaram a ideia deste pavilhão nacional na Techtextil. Que balanço fazem?

FM – Posso dizer que quando ainda estávamos na feira destacou o entusiasmo genuíno com que todas encerraram a participação, face ao número de contactos estabelecidos, que nalguns casos chegou ao valor impressionante de 30 contactos diários com boas perspectivas de resultarem em negócios. Sei inclusive que alguns foram concretizados logo após a feira.

Destaco ainda casos muito interessantes de cooperação espontânea entre as empresas que entenderam coordenar acções na própria feira, dado o grande número de contactos estabelecidos e o facto de ter sido possível conhecerem melhor o que as complementa e as aproxima.

Ainda assim enviámos depois um inquérito aos expositores onde colocámos quatro questões: origem dos contactos, nível dos contactos, potencial para encomendas e avaliação global. Houve contactos dum extremo ao outro do globo, mas destacam-se claramente os contactos Europeus (73%), e dentro destes os do país anfitrião – a Alemanha (37%). Em 46% dos casos houve contactos ao nível da gestão de topo das empresas que os visitaram e três semanas após a feira o potencial para encomendas era de 23%, sendo que 63% dos contactos ainda poderiam dar frutos.

Deste modo, a avaliação global é muito positiva. Se tivermos em consideração que 10 das empresas participavam pela primeira vez e que a grande maioria não tinha agendado contactos, melhor só mesmo em 2007.

JT – E que balanço faz o Citeve da sua estreia na feira?

FM – Quanto aos projectos do Citeve, sendo que a nossa aposta era a de mostrar alguns projectos com ênfase no design e nas funcionalidades em vestuário,  registámos o interesse e até a curiosidade de vários visitantes, não só dos asiáticos como se poderia esperar, mas também dos nórdicos pouco habituados à concepção “Brain in Portugal”. Tal como já referi, tivemos convites para participar como expositores noutras feiras em Espanha e na Alemanha.

Mas a nossa participação na Techtextil não se ficou pela feira, já que na sequência do nosso trabalho em Portugal e da parceria que estabelecemos desde o início do FTF com a Messe Frankfurt, eu próprio tive oportunidade de colaborar na organização dos Comités Mobiltech e Medtech do Simpósio da Techtextil, o que me proporcionou contactos muito interessantes com empresas de referência no mercado.

JT – Quais são as grandes linhas desenhadas para o novo ciclo que se inicia em 2006?…

FM – Com efeito, em Setembro fecha-se mais um ciclo de dois anos de parceria com a associação Selectiva Moda e o apoio do ICEP, e por isso estamos já a preparar um novo projecto. Neste momento, sabemos já que alguns dos nossos projectos de longo curso em I&D vão estar prontos em 2006 e outros em 2007, pelo que podemos garantir um nível muito elevado de apresentação de resultados do nosso trabalho.

Estou a falar por exemplo de projectos de telemedicina em vestuário e do desenvolvimento das tecnologias de microencapsulação de fragrâncias e de fixação em têxteis, projectos patrocinados pela Agência de Inovação, mas também do desenvolvimento de materiais plásticos reforçados com fibras de carbono, para aplicações estruturais em automóveis, projecto apoiado pelo Interreg e que está a ser desenvolvido com parceiros nacionais e um centro tecnológico de automóveis em Espanha. Estes são alguns dos projectos que vão estar na montra do FTF na Modtissimo no próximo ciclo, e que posso já adiantar que vão estar nas nossas propostas a apresentar para a Techtextil 2007.

JT – Como é que surgiu a ideia do FTF?

FM – Tudo começou em 2001, quando Manuel Serrão nos convidou para uma conversa a propósito do interesse que via numa espécie de casamento entre a moda e os têxteis técnicos. Isto aconteceu no dia em que concluímos os nossos primeiros projectos de têxteis técnicos, e onde suponho que criámos uma referência importante, não só porque fechávamos um ciclo dentro da estratégia que tinha sido definida em 1997 para esta área de inovação, mas também porque dávamos a conhecer a nossa capacidade de inovar na forma de divulgação de projectos de I&D.

Estávamos, em Maio de 2001, na sessão de divulgação que passou a ser um marco para o Citeve, para o sector têxtil e para outros sectores com afinidades têxteis, como por exemplo o sector automóvel. Essa sessão teve momentos que deixaram marca, como a presença dos Ministros da Economia e da Ciência e Tecnologia, e ainda porque fomos tema de capa da revista Marketeer como caso de sucesso de marketing industrial. Foi nessa sessão que trocámos as primeiras impressões com Manuel Serrão, e ainda não tínhamos chegado ao final de 2001 quando o FTF começou a tomar forma.

JT – Ao longo destes 4 anos, há já um grande baú de memórias.

FM – As primeiras edições foram uma espécie de teste, até porque na primeira não aparecíamos com expositores, mas começámos a desenvolver contactos internacionais que nos garantiam a apresentação de projectos muito inovadores. Lembro-me que na primeira edição trouxemos da Alemanha o Show de Moda High-Tech criado pelo Klaus Steilamann Institut, cuja primeira apresentação no estrangeiro foi precisamente esta em Portugal. Foi também nesse ano que apresentámos alguns dos projectos distinguidos com os Prémios Inovação da Avantex.

Mas há mais momentos que marcaram estas 7 edições do FTF, como o primeiro trabalho feito em Portugal com incorporação de electrónica em vestuário na sequência de uma proposta do Citeve para o Soldado do Futuro, assim como o lançamento da nossa marca Activest que é um conceito muito procurado e que se fundamenta na funcionalidade como expressão da moda. Aqui já tínhamos fechado um ciclo de dois anos e já reuníamos 8 a 10 expositores portugueses.

O ciclo seguinte tinha como metas o aumento significativo de expositores, o lançamento do primeiro directório sobre têxteis técnicos e funcionais e a internacionalização das empresas nacionais, com a participação em Frankfurt na Techtextil, a maior feira do mundo de têxteis técnicos. Passámos a ter cerca do dobro de expositores, lançámos o directório com 45 empresas e conseguimos levar a Frankfurt um número de empresas superior até àquele que tínhamos conseguido reunir de uma só vez em qualquer uma das edições do FTF nos primeiros dois anos. A Techtextil foi certamente o momento auge destes dois primeiros ciclos.

JT – O que mudou, na sua opinião, na ITV portuguesa com o FTF?

FM – O trabalho que estamos a desenvolver com a associação Selectiva Moda no FTF está certamente a produzir efeitos ao nível da imagem do sector em Portugal. É que nem todos os negócios têxteis sofrem das mesmas patologias e também existem áreas de aplicação de têxteis que ainda não sofrem de patologia alguma, e neste caso até é necessário protegê-las rapidamente para que possam manter-se saudáveis.

Por outro lado, o FTF é importante porque facilita o trabalho em rede e cria condições de participação efectiva em processos de inovação. A presença em eventos de dimensão internacional como a Techtextil facilita a oferta e a procura de tecnologia e de conhecimento por parte das empresas e produz efeitos na imagem que o estrangeiro tem de Portugal.

O FTF contribuiu inegavelmente para criar no público em geral, a imagem de uma ITV inovadora e tecnologicamente avançada, e a mensagem do grande potencial de progressão no mercado, face às previsões avançadas pelos mais importantes gabinetes de consultoria, como é o caso da David Rigby Associates que estima para os próximos 5 anos um crescimento de 20% no consumo para o sector dos têxteis técnicos. Este é um comboio que a ITV portuguesa não se pode dar ao luxo de perder.