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O futuro aconteceu em Lisboa

A Web Summit regressou a Lisboa para quatro dias de conferências de tecnologia em torno do gaming, sustentabilidade e comunicações. Tópicos como a Inteligência Artificial ou a campanha presidencial de Donald Trump foram recorrentes, permeando a maioria das conversas.

Os quatro dias de conferências atraíram mais de 60.000 participantes e 1.200 oradores oriundos mais de 170 países à Web Summit, evento que transformou a cidade de Lisboa no ponto de encontro dos empreendedores globais.

Eis o resumo do portal de tendências WGSN sobre os temas-chave da edição de 2017.

O efeito Trump

A edição de 2017 da Web Summit assinalou um ano desde a eleição do presidente norte-americano Donald Trump, com a campanha presidencial a revelar-se um dos temas mais explorados.

Brad Parscale

Brad Parscale, diretor digital da campanha presidencial de Trump, revelou que interpretou a campanha como se esta fosse desenvolvida para um produto e creditou o Facebook como a plataforma-chave para amplificar a mensagem de Trump.

«Se estamos dispostos a gastar 100 milhões de dólares [aproximadamente 86 milhões de euros] nas redes sociais, aparecerão, eventualmente, muitas pessoas no nosso escritório a oferecerem-se para ajudar a gastar esse dinheiro nas suas plataformas, por isso, o Facebook, Twitter, Snapchat, Google, etc. estavam todos à espera desse dinheiro», afirmou Parscale.

Grandes jogadas: transporte e mobilidade

Em Lisboa, a conversa em torno da mobilidade urbana e das redes de transporte inteligentes revelou os táxis voadores da Uber.

Jeff Holden, responsável de produto da Uber, anunciou que irá colocar automóveis a sobrevoar os céus já em 2020, começando por Los Angeles, nos EUA.

As dificuldades de mobilidade e a sobrepopulação das cidades têm sido objetos de estudo da Uber, que apresentou um dos produtos mais aguardados pelos amantes de tecnologia: o Uber Air, os carros voadores da empresa, muito semelhantes a helicópteros, mas mais baratos, amigos do ambiente, seguros e silenciosos.

«Será o fim da propriedade de carros individuais», asseverou Holden. «Isso transformará os carros individuais em nada mais do que um hobby», acrescentou.

Os caminhos da IA

A mensagem da Inteligência Artificial (IA) foi uma das mais transmitidas ao longo do circuito de conferências deste ano: a IA é uma ferramenta positiva e poderosa, mas não sem a estrutura e o controlo corretos.

Max Tegmark, presidente do Future of Life Institute, já falou em profundidade sobre as promessas e os perigos da revolução da IA no seu novo livro “Life 3.0”.

«Uma IA superinteligente será extremamente boa na realização dos seus objetivos, mas se esses objetivos não estão alinhados com os nossos, estamos com problemas», alertou Tegmark.

Em janeiro de 2017, o presidente do Future of Life Institute reuniu um grupo de investigadores para criar os “Asilomar AI Principles” – uma lista de 23 prioridades e precauções para manter a IA dentro de balizas seguras, éticas e benéficas.

Num dos momentos altos da Web Summit 2017, Ben Goertzel, cientista da Hanson Robotics, trouxe os seus dois robots – Sophia e Albert Einstein – para o palco.

O robot educativo com um cérebro inspirado no físico alemão assegurou aos presentes que «a humanidade tem de se curar a si própria para garantir que as suas criações permanecem saudáveis».

Sophia mostrou-se segura quando questionada sobre o que os humanos iriam fazer quando os robots tivessem roubado os seus empregos. «Ninguém rouba os vossos empregos, o responsável da empresa é que vai escolher dá-lo a outra pessoa», afirmou.

Através de vídeo, o físico Stephen Hawking deixou também a sua opinião sobre a evolução da IA.

Para Hawking, a «IA pode ser a melhor ou a pior coisa para a humanidade». «Precisamos de estar conscientes dos perigos, identificá-los, empregar a melhor prática e gestão possíveis e preparar as suas consequências com bastante antecedência», defendeu.

Os novos humanos

«Trabalhar na nossa evolução cognitiva é o que de maior valor podemos fazer como espécie», garantiu Bryan Johnson, fundador da startup de neurociência Kernel.

O cérebro foi discutido enquanto nova fronteira para a exploração científica e tecnológica, com previsões de que nos próximos 15 a 20 anos estará disponível um conjunto de ferramentas neuronais para colocar questões como «“poderei ter uma memória perfeita?”, “poderei excluir as minhas memórias?” ou “poderei aumentar a minha taxa de aprendizagem?”», segundo Johnson.

A equipa da Kernel está a explorar os limites da neurociência para ampliar as capacidades cognitivas e autodirecionar a evolução humana.

Já Simon Evetts, diretor de operações espaciais da Blue Abyss, sugeriu a otimização dos seres humanos para ambientes e condições futuras (como o espaço ou o oceano) e que isso poderá envolver a transgénese (processo de alteração do material genético de uma espécie pela introdução de uma ou mais sequências de genes provenientes de outra espécie). Evetts citou a capacidade de os humanos resistirem à radiação no espaço como possível cenário para a transgénese.

Publicidade: voltar ao básico

De acordo com alguns marketeers, a publicidade está perdida.

A inovação tecnológica constante e o aumento de dados disponíveis fizeram com que os especialistas procurem agora um regresso a tempos mais simples – ou pelo menos a estratégias simplificadas.

John Hegarty, cofundador da BBH, defendeu que muitos dos atuais diretores de marketing – que cresceram na era digital – na verdade não entendem como funciona a persuasão.

«As marcas vão cair quando perceberem que não estão a construir os valores que as podem sustentar no mercado», assegurou Hegarty. «É preciso voltar ao básico para se entender como se persuade e como se promove», sublinhou.

Susan Credle, diretora criativa da FCB Global, asseverou que a indústria experimentou lentamente a inovação ao longo da última década e se esqueceu dos fundamentos da publicidade.

O novo marketing

O serviço ao cliente deve ser o foco dos marketeers, aconselhou o CEO da Sprinklr, Ragy Thomas.

De acordo com Thomas, as marcas gastam menos de 2% dos orçamentos publicitários nas pessoas que realmente compram o seu produto e 98% a tentar encontrar pessoas para comprar o produto.

O problema, apontou Thomas, é que as equipas de atendimento ao cliente e de marketing funcionam de forma independente. Esta desconexão leva a «dados corrompidos, processos corrompidos e ferramentas corrompidas» e desperdiça tempo e dinheiro.

Sustentabilidade: além da moda

O Walmart e o grupo Kering expuseram os seus esforços ecológicos durante os quatro dias de Web Summit.

Eis o que as respetivas diretoras de sustentabilidade adiantaram.

Kathleen McLaughlin, diretora de sustentabilidade do Walmart, revelou que, atualmente, a empresa usa 26% de energia renovável, mas tem como objetivo chegar aos 50% até 2025. O Walmart está também a planear reduzir as emissões de carbono em 18% dentro do mesmo prazo.

Apesar do clima político atual nos EUA, o Walmart continua a considerar a sustentabilidade uma questão central porque, nas palavas de McLaughlin, «faz parte de um movimento maior, global».

Já Marie-Claire Daveu, diretora de sustentabilidade do grupo Kering, reconheceu que os clientes são cruciais na condução dos esforços de sustentabilidade.

«Os millennials estão a fazer cada vez mais perguntas e são cada vez mais exigentes em termos de transparência sobre as condições de trabalho e do impacto no planeta», garantiu.

Em resposta a perguntas sobre produtos e aprovisionamento, no início de 2017, o grupo Kering implementou uma nova estratégia para assegurar a transparência de todos os seus materiais até 2025.

A evolução do gaming

A conferência PlayerOne, no segundo dia da Web Summit, chamou a atenção dos participantes para a evolução da indústria dos videojogos. Pela primeira vez, o evento contou com um palco exclusivamente dedicado ao gaming.

A inaugurar a área PlayerOne esteve Ralf Reichert, fundador da ESL, com a conferência “eSports: um fenómeno do séc. XXI”.

De acordo com Reichert, o gaming gerou 180 mil milhões de dólares em receitas em 2016, atingindo um pico de maturidade. Com dois a cinco mil milhões de jogos atualmente no mercado – e a crescer 5% em relação ao ano anterior –, o facto é que, reconheceu Reichert, o gaming está a tornar-se um dos canais de consumo de media mais importantes do mundo.

A comunicação mediada

O futuro do trabalho foi abordado pelos gigantes tecnológicos Facebook e Slack, que têm vindo a oferecer ferramentas de comunicação para o ambiente laboral.

O novo sistema Workplace do Facebook, por exemplo, conecta as empresas através de uma plataforma de mensagens e usa bots personalizados para ajudar com tarefas quotidianas, como marcações e viagens.

O objetivo, de acordo com o gestor de produto do Facebook, Simon Cross, é criar uma cultura aberta onde todas as vozes sejam ouvidas e para que as empresas se possam movimentar ainda mais rápido.