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O futuro da economia verde chegou

Diversas políticas europeias, e também nacionais, estão em curso para regular uma das prioridades da indústria têxtil e vestuário: ser mais sustentável. Da Estratégia Têxtil Europeia ao Plano de Recuperação e Resiliência em Portugal, são várias as alterações expectáveis no modelo de negócio do sector.

[©Pixabay]

No webinar Sustainability: The New Green Economy, promovido pelo Cluster Têxtil: Tecnologia e Moda no passado dia 10 de março, Mauro Scalia, diretor de negócios de sustentabilidade da Euratex, enumerou diversas alterações que irão mudar necessariamente o curso dos negócios da moda nos próximos tempos.

O responsável da confederação europeia começou por elogiar a indústria têxtil e vestuário portuguesa, destacando as suas mais-valias, visíveis ao longo do último ano. «Há um ano estávamos todos a tentar aumentar a produção de máscaras», referiu. «Quando perguntei porquê escolheram trabalhar com Portugal, tive respostas muito diretas: Portugal tinha uma cadeia de produção muito digitalizada, era extremamente moderno em termos de instalações de produção e tinham bons contactos», apontou.

Mais-valias que podem ser importantes para o futuro, que se exige sustentável. Na avaliação do impacto ambiental da indústria têxtil e vestuário, Mauro Scalia destacou que o sector é muito intensivo em termos de recursos ao nível das matérias-primas, água e emissões de CO2. Um estudo realizado pela Euratex junto de 100 empresas concluiu que «as empresas que decidiram investir na sustentabilidade, fizeram-no da mesma forma que se investiu na qualidade há muitos anos. A sustentabilidade é a nova qualidade, é uma vantagem na diferenciação dos seus concorrentes», afirmou Mauro Scalia.

O que muda em 2025

As políticas estão igualmente a ir no sentido da sustentabilidade. A partir de 1 de janeiro de 2025, os têxteis na União Europeia terão de ser recolhidos e tratados separadamente dos outros resíduos – como acontece atualmente com o vidro, o plástico e o papel.

Mauro Scalia [©Cluster Têxtil]
Nas estimativas da Euratex, nessa altura a quantidade de têxteis que serão descartados deverá ser quase o dobro do registado em 2019 (2,8 milhões de toneladas). «Teremos de lidar com 5,5 milhões de toneladas de resíduos têxteis em toda a Europa, para os quais não há atualmente qualquer sistema, proposta ou infraestrutura para lidar com isso», frisou o diretor de negócios de sustentabilidade da Euratex.

Há ainda outras mudanças expectáveis, nomeadamente no design de produto e na avaliação do seu ciclo de vida, ao nível dos consumidores, de certificações, das compras públicas ecológicas, químicos e barreiras nacionais, áreas para as quais a União Europeia estará a preparar diretrizes.

Em curso está ainda a definição da primeira Estratégia Têxtil Europeia, que deverá ser publicada em outubro e que, segundo Mauro Scalia, «é uma oportunidade para a cadeia de valor dizer claramente o que precisamos, enquanto indústria, enquanto PME’s, e usarmos a sustentabilidade como um elemento competitivo», com o diretor de negócios de sustentabilidade da Euratex a apelar a que a indústria nacional dê o seu contributo nessa reflexão.

Mauro Scalia lembrou ainda que a confederação lançou uma proposta para a criação de cinco centros de reciclagem têxtil (ReHubs) na Europa e «esperamos colaborar com empresas e organizações têxteis em Portugal».

PRR no mesmo sentido

No webinar – que contou também com um debate moderado por Lutz Walter, da Euratex, onde participaram Manuel Gonçalves, administrador da TMG, José Soares de Pina, CEO da especialista em produção de pasta de eucalipto Altri, António Cunha, presidente da CCDR-N, e Paulo Ferrão, professor do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e presidente da associação COST – The European Cooperation in Science and Technology –, o Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, citou números que mostram a necessidade de haver novos modelos de negócios na indústria têxtil e vestuário, como a indicação de que a indústria da moda representa 4% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa, 70% das quais a montante da confeção, sobretudo relacionadas com a preparação e processamento de matérias-primas. Se nada for feito, as emissões deverão aumentar 2,7% por ano até 2030, em resultado do crescimento da população e do consumo. «Enfrentamos um enorme desafio. Para atingirmos as ambições do Green Deal, a transformação da indústria tem de ir além da descarbonização da mobilidade e da utilização de energia renovável ou mais eficiente», sublinhou.

João Pedro Matos Fernandes [©Cluster Têxtil]
Limitar a utilização de água e tratar adequadamente os efluentes, matérias-primas mais sustentáveis, em vez de algodão e fibras sintéticas provenientes de recursos fósseis, são vetores fundamentais a ter em conta pela indústria têxtil e vestuário para limitar a sua pegada ambiental. «Em particular na indústria têxtil, o design tem uma grande importância. É fundamental empoderar os atuais e futuros designers com as capacidades e ferramentas que lhes permitam incorporar estes princípios [de sustentabilidade] no produto final», assegurou João Pedro Matos Fernandes.

Neste sentido, e no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, o destaque para a indústria têxtil e vestuário está na sustentabilidade, na bioeconomia e na economia circular, referiu, «melhorando, assim, as perspetivas de competitividade, ao mesmo tempo que mantém o foco na sustentabilidade», concluiu o Ministro do Ambiente e da Ação Climática.