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O futuro da ITV asiática no pós-Covid

A indústria de vestuário asiática está a atravessar um momento crítico com o impacto do novo coronavírus. Embora os especialistas do sector acreditem que a região vai continuar a dominar a produção global de vestuário no futuro, a crise na Ásia irá persistir nos próximos anos e transformar a indústria.

[©Asia Times]

A Ásia possui sete dos 10 maiores exportadores de vestuário a nível mundial, incluindo os três principais – China, Bangladesh e Vietname. Em 2018, os países asiáticos exportaram 341 mil milhões de dólares (aproximadamente 279 mil milhões de euros) em vestuário, o que representa cerca de 64,7% das exportações globais, segundo os dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED).

O “What next for Asian garment production after Covid-19? The perspectives of industry stakeholders”, um estudo recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), questionou 16 especialistas da indústria sobre o impacto da crise pandémica e como esta problemática vai afetar os sistemas e as práticas de produção de vestuário na potência exportadora.

Apesar de ser difícil imaginar um único cenário para o sector, a mudança é a única certeza com a crise a alterar padrões de produção e a acelerar novas tendências e tendências já existentes.

Impacto nos sistemas e práticas de produção

Mesmo que haja poucas dúvidas de que a Ásia vá continuar a ser o centro de produção de vestuário global no pós-pandemia, os especialistas afirmam que as mudanças podem surgir entre os países na forma como os compradores ajustam as estratégias de aprovisionamento, com o risco deste fator se tornar cada vez mais importante.

Durante os últimos anos, o nearshoring e o onshoring ganharam maior importância para alguns compradores, para responder às necessidades do fast fashion e de volumes menores, tendências que os especialistas da área dizem que não vão ser afetadas pela crise sanitária. No entanto, existem mudanças produtivas previstas para esta região. «A Ásia ainda é um local estratégico de produção devido à escala de operações, proximidade de matérias-primas, infraestrutura desenvolvida e ligações da cadeia de fornecimento, além de valências produtivas e know-how. Todos esses fatores são difíceis de replicar imediatamente noutros destinos de aprovisionamento como a África ou a América Latina, ainda que continuem a ter custos competitivos», explicam os autores do relatório, citados pelo just-style.com.

[©Bloomberg]
«Numa crise, todos tendemos a recuar para o conhecido. Não obstante, somos muito mais globalizados e muito mais interdependentes do que pensamos. Portanto, a realidade é que a qualidade de vida que desfrutamos só é possível com cadeias de aprovisionamento globalizadas», afirma Edwin Keh, CEO do Hong Kong Research Institute of Textiles and Apparel (HKRITA).

Na perspetiva dos especialistas, a pandemia veio também acelerar a implementação de tecnologia no sector, especialmente nos instrumentos digitais e analíticos, o que vai permitir uma produção mais rápida e eficiente. O investimento em dados também vai aumentar, visto que o vírus salientou a necessidade de haver mais controlo e de obter informações precisas sobre os processos de produção.

Depois de ter havido uma alteração nas prioridades para a sociedade e as empresas que com as restrições financeiras tiveram de se reorganizar, a sustentabilidade será uma questão a melhorar a longo prazo com uma forte colaboração da indústria neste sentido.

Impacto nas fábricas

Está também prevista a consolidação de fábricas, tendo em conta que os produtores com menos capital financeiro vão fechar portas ou ser adquiridos por outros, gerando uma divisão cada vez maior na indústria. Se, por um lado, as empresas podem tornar-se mais profissionais ao oferecer melhorias tecnológicas significativas, por outro, algumas empresas podem ser incentivas a reduzir custos abruptamente e ficar numa situação insustentável, o que contribui para a falta de condições de trabalho.

A relação entre os fornecedores e os compradores também vai sofrer alterações, na medida em que os fabricantes com recursos avançados estarão mais propensos a ter em conta a reputação dos compradores, verificando, ainda, o histórico de pagamentos e a situação financeira dos mesmos antes de iniciar uma parceria. Esta atitude pode gerar relações mais igualitárias. «A maneira de fazer as coisas mais rapidamente e de forma mais económica é trabalhando em conjunto… Tem que se ter realmente uma parceria forte com os fornecedores para poder entregar e fazer isso de modo célere», aponta Marsha Dickson, presidente e cofundadora da Better Buying.

Impacto nos trabalhadores

Com a pandemia, a empregabilidade ficou mais debilitada, pelo que surgirá um aumento da concorrência por trabalhos de curto prazo e uma possível regressão nas condições de trabalho para a sociedade.

[©Southeast Asia Globe]
Atualmente a representar cerca de 80% da força de trabalho do sector, as mulheres podem ser excluídas a longo prazo com o aumento da implementação de tecnologia no sector. Assim sendo, a qualificação será necessária para assegurar que alguns trabalhadores possam ter acesso a melhores postos de trabalho. «À medida que os empregos em fábricas e noutros sectores se tornam mais escassos, os empregos restantes podem revelar-se mais atrativos. Podemos ver que as mulheres estão cada vez mais impossibilitadas de recuperar o acesso aos trabalhos porque uma vez que esses empregos se tornam mais apelativos, os homens tendem a procurá-los e, geralmente, têm uma maior hipótese em consegui-los», esclarece Joe Sutcliffe, consultor sénior de trabalho digno na organização sem fins lucrativos CARE, que trabalha para combater a pobreza e ajudar as mulheres a preencher o seu potencial.

Contudo, perante esta situação, a pandemia pode fazer com que os governos implementem novas medidas de proteção laboral e social, através de contratos que protejam os trabalhadores de choques futuros.

Se este progresso for combinado com medidas para a sustentabilidade ambiental no sector, a pandemia poderá ter um impacto transformador no futuro do mercado de trabalho e na produção de vestuário da Ásia, concluem os especialistas.