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O futuro da moda é digital e sustentável

Uma nova geração de consumidores está a ditar as regras e, por isso, o futuro da moda reside na capacidade das marcas serem tanto digitais quanto sustentáveis. Foi pelo menos esta a ideia defendida na conferência “O Futuro da Moda”, que decorreu ontem no Terminal de Leixões.

João Maia

Numa iniciativa da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos, em colaboração com a ANIVEC -Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção e a AORP – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, foram debatidos, no icónico edifício em Matosinhos, temas como “A Nova Geração de Consumidores”, “A Sustentabilidade na Moda” ou “A Moda na Era Digital”.

Luís Figueiredo

O mote foi dado pelo diretor geral da APICCAPS, João Maia, que defendeu que tanto a sustentabilidade como o online, representam «desafios e oportunidades para o sector. Temos pela frente um mundo em mudança. Nesta conferência temos peritos que nos ajudarão, com o seu conhecimento, a evoluir», afirmou, referindo-se a nomes como Geraldine Wharry, designer analista de tendências internacional, Maria Eugénia Errobidarte, consultora sénior da WGSN, Ana Roncha, diretora do Mestrado em Marketing Estratégico de Moda no London College of Fashion, Gonçalo Cruz, cofundador da Platforme, Rafic Daud, fundador da Undandy, e João Dias, administrador da AICEP.

A inaugurar o evento, João Neves, Secretário de Estado da Economia, afirmou que «os consumidores estão no centro do sector económico, com as suas diferentes características» e, através da digitalização, «temos a capacidade de concorrer com os melhores. Para responder às mudanças da organização social e industrial, que tem subjacente os traços de evolução do sistema económico, tem que haver uma maior colaboração entre as diferentes indústrias.

João Neves
Fátima Santos

Já o vice-presidente da ANIVEC, Luís Figueiredo, explicou que «está aí uma nova geração de consumidores, os millennials, que repensam o consumo. Estão dispostos a pagar mais para ter um produto mais sustentável, mas têm baixo poder de compra. Quem tem menos poder de compra está a ditar as regras do mercado». Além disso, destacou, com a digitalização da economia, uma realidade «incontornável», «as pessoas querem tudo no imediato e as empresas têm que trabalhar de forma mais rápida. Portugal tem condições para isso». Por sua vez, Fátima Santos, diretora geral da AORP, apontou que este novo paradigma «obriga à ligação entre sectores. A criação de um verdadeiro ecossistema para a moda portuguesa depende do que fizermos aqui hoje».

O consumidor que dita as regras

Num primeiro momento do evento dedicado às tendências, Geraldine Wharry começou por afirmar que os influenciadores e as marcas estão a redefinir o mundo e que as escolhas dos consumidores mais jovens – da geração Y ou Z – chocam com a realidade política do mundo. «Os géneros estão a ser redefinidos. Há uma maior positividade em relação ao corpo e as pessoas com deficiência e as diferentes raças são cada vez mais representadas», admitiu. Além disso, Geraldine Wharry reconheceu que, com as redes sociais, vemos a crescerem os influenciadores e a teatralidade na moda. «Contudo, os mais jovens valorizam mais a honestidade e as ligações as causas. O que definimos hoje como “maioria” vai mudar», avisou. Para a analista de tendências, a geração mais velha – os baby boomers – não pode ser ignorada, porque, na verdade, é parecida com a geração Z, no sentido em que se preocupa com o mundo que a rodeia.

Maria Eugénia Errobidarte e Geraldine Wharry

Já Maria Eugénia Errobidarte, consultora sénior da WGSN, frisou que a ecologia é essencial para o consumidor do futuro. «A geração Y, apesar do difícil clima económico, está disposta a pagar mais pela sustentabilidade. Por seu lado, a geração Z pode não ter grande poder de compra, mas é ativa nas redes sociais. Têm uma voz muito forte atualmente», esclareceu.

O futuro digital

O «incontornável» mundo online foi também evidenciado no evento por João Dias, administrador da AICEP, que apresentou a nova plataforma digital da AICEP, a Portugal Exporta, que ontem se abriu ao sector do calçado. O website assume-se como uma solução de internacionalização para as empresas exportadoras, com uma área privada para parceiros da AICEP, que podem obter um serviço personalizado.

Mónica Seabra Mendes, Rafic Daud, Ana Roncha e Gonçalo Cruz

A personalização é também a chave para a Undandy, a marca online de calçado masculino customizado. «Tivemos que revolucionar a indústria para aquilo que acho que é o futuro da moda. O consumidor desenha o seu próprio sapato e é tudo vendido 100% online. Não há desperdícios e não há saldos», revelou Rafic Daud, fundador da insígnia. «Se o consumidor está a mudar… por que não vamos ter com ele? O consumidor mudou. Todos fazemos coisas que não fazíamos há 10 anos», afirmou. Já Ana Roncha, do London College of Fashion, acredita que o grande desafio nas empresas é adaptar os recursos humanos para conviverem com estas novas tecnologias. «O digital deve ser aplicado a toda a cadeia de valor. Não é um departamento», assegurou.

Entre as marcas e os consumidores estão as tecnologias, que, no evento, foram representadas pela Platforme, uma plataforma tecnológica e operacional que produz tecnologia para grandes marcas de luxo poderem customizar os seus produtos digitalmente. Gonçalo Cruz, cofundador da empresa que trabalha para os grupos LVMH e Kering, defende que a customização é o futuro e «a ponta do iceberg». «Na Gucci, por exemplo, vai acontecer o mesmo que acontece nos stands de automóveis. Testo o produto e digo o que quero. Os clientes vão querer pagar mais e não se importam de esperar. Pago antes de receber o produto. Não vai sim um processo imediato, mas sim gradual», adiantou. «Portugal é extraordinário porque sempre nos adaptamos a diferentes mundos. Temos a vantagem de sermos competitivos, mas ainda temos um longo caminho pela frente», concluiu.