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O futuro da moda sustentável

A tecnologia está a motivar uma mudança na indústria da moda, que tem agora ao seu dispor novos materiais. Criados em laboratório, resultantes da reciclagem ou da utilização de subprodutos de outras indústrias, estas novas matérias-primas estão a reduzir o impacto ambiental e a conquistar as marcas de luxo.

A indústria da moda é, segundo a designer de vestuário ecológico Eileen Fisher, citada pela Wired, a segunda mais poluente no planeta Terra, a seguir ao petróleo. O sector representa 10% das emissões mundiais de dióxido de carbono, usa um quarto dos químicos produzidos anualmente e fica apenas atrás da agricultura na quantidade de água que consome.

Da produção de têxteis aos aterros, o vestuário é uma ameaça ao ambiente e aos recursos do planeta em cada etapa. A fast fashion é a principal culpada, mas há uma responsabilidade também que recai sobre as marcas de luxo, com pressão para que comecem também a implementar mudanças.

Felizmente, a tecnologia está a servir como uma força positiva. «As novas tecnologias estão a tornar exequível criar fibras e fios ecológicos que usam resíduos agrícolas e subprodutos não utilizados», afirma Juhi Shareef, consultora sénior de sustentabilidade e diretora de contas na consultora Eco-Age. «Isso, por sua vez, evita a utilização de recursos virgens e capital natural valioso, cria emprego e desenvolve novos fluxos de receitas», explica.

O Piñatex é um desses casos. Sendo um subproduto da colheita do ananás, não precisa de terra, água, fertilizantes ou pesticidas adicionais na produção. Gera ainda um rendimento extra para os agricultores. Durante a Semana de Moda de Berlim, em julho de 2016, a designer Mayya Saliba apresentou um casaco e uma carteira de Piñatex.

Prabal Gurung fez uma experiência com a Himalayan Wild Fibers, que recolhe urtigas das florestas montanhosas do Nepal. As urtigas são abundantes e dão emprego local.

Outros estão a analisar subprodutos de sumo de limão, cogumelos, grãos de café e estrume de vaca como oportunidades para têxteis de luxo. Todos estes correspondem à ideia de uma economia de ciclo fechado com materiais que podem ser reutilizados.

A biomimética é outra área importante. «Estamos a ver os engenheiros a olhar para a produção natural de uma substância animal, como seda de aranha, e a reproduzi-la a grande escala», revela, à Wired, Rebeccah Pailes-Friedman, professora-adjunta associada no Pratt Institute, em Nova Iorque.

Empresas como a Bolt Threads nos EUA e a Spiber no Japão estão a criar sedas de aranha em contentores e a fiá-la. O objetivo, de acordo com Pailes-Friedman, é substituir os têxteis de origem petroquímica em versões moldadas pela bioengenharia que mantenham, ou melhorem, as propriedades de performance que as pessoas esperam. «Se usarmos um organismo vivo como fábrica, é possível desenhar todo o tipo de materiais», considera Suzanne Lee, diretora criativa na Modern Meadow, que cultiva pele em laboratório. Composta das mesmas proteínas e fibras encontradas na pele (colagénio), a produção destes materiais é feita sem prejudicar os animais.

Até 2025, estima-se que 430 milhões de vacas vão ter de morrer anualmente para satisfazer as exigências mundiais de moda, tornando enorme o potencial impacto dos materiais criados em laboratório. No entanto, Lee argumenta que para que as marcas de luxo adiram, não é o fator sustentabilidade que conta mais. «Os consumidores não vão pagar mais por algo simplesmente pelo local de onde vem – tem de ter outro valor», defende. «Pode ser a performance ou a estética do material. Os designers sabem que os seus clientes são motivados pelo desejo, não pela necessidade», destaca Suzanne Lee.

A vantagem de cultivar pele num laboratório é que Lee pode desenhar as características estéticas no material que o couro tradicional nunca poderia ter. Ela refere-se ao seu trabalho como «usar a ciência como criatividade».

De igual forma, um dos objetivos de sustentabilidade traçados em 2012 pelo grupo Kering, que detém marcas como a Gucci e a Saint Laurent, foi remover os químicos perigosos da produção até 2020. Recentemente reiterou que era necessária uma pesquisa significativa para assegurar que os níveis de qualidade dos seus produtos continuam elevados.

A Stella McCartney, outra marca da Kering, é conhecida pela sua dedicação à sustentabilidade. Mas também vaticina que os tecidos orgânicos e os corantes com baixo impacto apenas vão ser usados de forma abrangente se oferecerem a qualidade certa.

A consultora Eco-Age está igualmente a pensar nos resíduos pós-consumo como uma oportunidade para o design. Como parte do seu desafio Green Carpet Challenge, trabalhou com a Calvin Klein para um coordenado para a atriz Emma Watson usar na gala do Met. Este foi confecionado com um tecido produzido com o fio Newlife, obtido a partir de garrafas de plástico recicladas. Transformado num polímero de forma mecânica, exige menos 94% de água e menos 60% de energia do que o poliéster convencional.

A Eco-Age lançou ainda a GCC Brandmark para reconhecer a excelência sustentável. Contudo, Juhi Shareef refere que esta inovação pode vir com desafios indesejáveis – ao remover um impacto ambiental, pode influenciar outro. O que se classifica como a melhor prática está constantemente a evoluir. «Ainda estamos muito na fase de I&D», admite Lee. «Nenhum destes produtos está realmente no mercado, mas estarão nos próximos dois anos e meio. Nessa altura, as pessoas terão feito a análise do ciclo de vida, vão ser capazes de comparar o perfil ambiental [dos materiais sustentáveis] e vão ver alguns motivos atrativos para que estes sejam a opção mais inteligente. As marcas de luxo vão estar determinadas a torná-los numa grande parte da sua proposta de valor», conclui.