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O futuro das rendas

Na sede da Sophie Hallette, em Caudry, na França, o barulho das máquinas antecipa o mais delicado dos materiais – a renda –, num aprovisionamento relativamente limitado que faz da empresa a fornecedora favorita de casas de luxo como Chanel e Gucci.

A Sophie Hallette é agora membro oficial do Métiers d’Art da Chanel (ver Nas rendas da Chanel) – um grupo de pequenas empresas, como a especialista em bordados Lesage, a chapeleira Michel, a fabricante de flores de seda Guillet e a produtora escocesa de malhas de caxemira Barrie Knitwear, propriedade de uma subsidiária da Chanel, a Paraffection, e que é celebrado num desfile anual. Este ano, o desfile Métiers d’Art aconteceu a 6 de dezembro no Hotel Ritz, em Paris (ver Chanel de volta ao Ritz).

«Queremos proteger estas pequenas empresas com um enorme know-how», explicou Bruno Pavlovsky, presidente de moda da Chanel, ao The New York Times. «Queremos garantir que estas empresas vão continuar no negócio e que vão continuar a fazer o que fazem», acrescentou.

O nascimento da Sophie Hallette e da indústria de rendas de Caudry como um todo é, de resto, um legado da Revolução Industrial. No início do século XIX, os ingleses John Heathcote e John Leavers inventaram o que ficou conhecido como o tear Leavers, uma máquina do tamanho de um tanque, com milhares de partes móveis.

Quando, em 1816, o governo britânico bloqueou a exportação das máquinas como medida protecionista, três tecelões da capital britânica, Nottingham, fizeram contrabando em vários barcos do Canal da Mancha para a França – empreitada nada fácil, considerando o peso e o tamanho dos teares.

O objetivo dos contrabandistas era reinstalar-se em Valenciennes, uma cidade francesa perto da fronteira belga conhecida pelas suas rendas. Mas só conseguiram chegar até Caudry e, então, Caudry assumir-se-ia, também, como uma cidade de rendas.

Em 1887, o empresário francês Eugène Hallette fundou uma empresa de rendas com seis teares Leavers em Caudry. Depois da morte de Hallette, em 1909, a sua viúva assumiu as operações daquela que se transformaria numa das maiores produtoras de rendas por terras gaulesas. À data, havia centenas de fabricantes de rendas em Caudry.

Em 1942, o empresário francês Etienne Lescroart comprou a Hallette à viúva de Eugène – os Hallettes não tiveram filhos – e, depois da II Guerra Mundial, expandiu a empresa para o sector da moda, fornecendo casas de alta-costura como Christian Dior e Balmain. “Sophie”, o nome da sobrinha de Etienne, foi acrescentado á designação da empresa uns anos depois.

Quando o feminismo despontou na década de 1970 e o minimalismo dos vestidos-envelope de Diane Von Furstenberg dominaram a moda, os fabricantes de rendas de Caudry conheceram tempos difíceis e várias empresas fecharam portas.

O filho de Lescroart, Bruno, que então estava a trabalhar na Sophie Hallette, queria fechá-la e entrar no negócio da restauração. «Nunca!», terá declarado o pai. E com razão. O boom do luxo no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 reavivou a procura por rendas. Mais recentemente, em abril de 2011, o vestido nupcial de Kate Middleton, com um corpete de renda Sophie Hallette, colocou a empresa nas bocas do mundo.

Entretanto, o negócio com a Chanel aconteceu por acaso.

A Desseilles e a Codentel, duas das produtoras de rendas mais antigas em Caudry e Calais, respetivamente, espremidas pela concorrência da Ásia e incapazes de cumprir com as leis laborais francesas declararam falência este ano.

O Holesco, o grupo que detém a Sophie Hallette, tentou adquirir a Desseilles, mas perdeu-a para a empresa chinesa Yongsheng Holdings. Por isso, quando chegou a hora de fazer uma oferta pela Codentel, o grupo trouxe reforços.

A Chanel, numa tentativa apresentada como altruísta pela identificação e preservação do inestimável trabalho artesanal francês, assumiu uma participação minoritária no Holesco. E o juiz do tribunal de comércio em Boulogne-sur-Mer acabaria por reconhecer o Holesco como novo dono da Codentel. «Foi uma solução francesa para um problema francês: a necessidade de proteger o nosso know-how», admitiu à data Romain Lescroart, atual presidente da Sophie Hallette.

Depois da decisão, Bruno Pavlovsky afirmou, em comunicado, que «para a Chanel, a aquisição de participações no capital da empresa significa a oportunidade de acompanhar a Sophie Hallette à medida que se desenvolve e perpetua a indústria de rendas em França».

Hoje, o Holesco inclui a Sophie Hallette, a Codentel e uma tinturia em Caudry. E a Sophie Hallette possui um volume de negócios anual na ordem dos 30 milhões de euros, fornece marcas como Saint Laurent, Dolce & Gabbana, La Perla e Ralph Lauren e exporta para 60 países.

A fabricante de rendas tem cerca de 90 teares Leavers e 40 teares de tule e produz 100 novos desenhos a cada estação, bem como algumas reedições, como a La Parfaite, um padrão floral que tem sido best-seller desde o seu lançamento em 1962.

A Sophie Hallette é uma das seis empresas que ainda operam em Caudry e uma das duas no mundo que fazem o cobiçado tulle bobbinet; a outra situa-se na Suíça. Cada máquina produz 40 a 100 metros de rendas por dia. «O que fazemos aqui é um artigo de luxo», reconhece Romain Lescroart. «É um nicho, mas numa escala global».

Treinar um técnico para trabalhar os teares da empresa demora cerca de cinco anos e cada técnico controla apenas duas máquinas, reparando-as sempre que necessário. Os teares Leavers não são produzidos desde os anos 1960, pelo que a empresa mantém teares antigos para poder recuperar peças.

Ao longo dos anos, a Sophie Hallette não deixou Caudry em busca de um mercado de trabalho mais barato porque, como explica Maud Lescroart, irmã de Romain e responsável pelo marketing da empresa, «é um conhecimento transmitido de geração em geração, e demora muito a aprender – não nos poderíamos dar ao luxo de deslocalizá-la e começar de novo».