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O futuro das viagens – Parte 1

A experiência de viagem está em transformação, num momento em que todos os pontos de contato do sector se estão a reestruturar, procurando atender rapidamente às voláteis expectativas dos consumidores e potencialidades digitais.

Conetividade perfeita
A Internet das Coisas, ou Internet of Things (IoT) em inglês, termo utilizado para designar a conetividade entre diversos objetos do quotidiano, permitirá a indicação de recomendações de viagem específicas e adaptadas a cada indivíduo, colocando a personalização e a automação no centro das experiências de viagens. O histórico de pesquisas na Internet fornecerá os dados necessárias à criação de previsões e recomendações, que seguirão o passageiro desde o momento da pesquisa, através da fase de reserva, check-in no aeroporto e check-out no hotel.

As sementes dessa conetividade perfeita estão já a ser plantadas: a British Airways começou a testar etiquetas de bagagem digitais em 2013 e, no ano passado, a Iberia e a AirBerlin lançaram versões de cartões de embarque através de SmartWatchs. Os funcionários no interior das salas de embarque de primeira classe da Virgin Atlantic têm vindo a utilizar o dispositivo Google Glass na identificação de passageiros frequentes, procurando antecipar as suas necessidades. Quando o Terminal 4 do Aeroporto de Changi, em Singapura, abrir em 2017, será um dos mais avançados do mundo, no que diz respeito às suas potencialidades tecnológicas, com check-ins automáticos, depositários de bagagem, segurança e controlo de imigração destinado a tornar todo o processo ágil e autónomo.

A tecnologia digital permitirá, simultaneamente, maximizar o tempo de lazer no aeroporto: paredes de compras virtuais são agora comuns em Gatwick, Frankfurt e Nova Deli, estimulando a realização de compras por impulso, através da tecnologia digital. No aeroporto londrino de Heathrow, os viajantes podem efetuar encomendas no Yo!Sushi através da rede social Twitter, antes mesmo de passarem pelo controlo de segurança. No sector da hotelaria, a IoT irá criar uma cultura de verdadeira personalização: os frigoríficos inteligentes dos hóspedes podem ser conectados aos minibares das unidades hoteleiras, permitindo que estas efetuem a curadoria dos conteúdos de acordo com as necessidades dietéticas do hóspede e fotografias de família poderão ser digitalmente projetadas nas paredes dos quartos de hotel, criando um ambiente mais familiar. A conetividade perfeita será um ponto de referência para todos os serviços do sector de viagens, à medida que se torna cada vez menos uma funcionalidade de luxo e mais uma ocorrência diária.

Aeroporto holístico
Verde e eficiente são as duas palavras de ordem que, combinadas, estão a impulsionar a inovação em aeroportos. Num mundo cada vez mais integrado, de fronteiras abertas, a mobilidade fluida é uma prioridade. Toda a experiência do aeroporto está a ser repensada verticalmente, de forma a responder às necessidades do consumidor, no âmbito de viagens mais rápidas, integradas e experimentais. O próprio espaço físico está, também, a ser redefinido, oferecendo uma experiência mais holística. O aeroporto está a tornar-se parte integrante do espaço envolvente, com um sentido claramente definido de localização – como o aeroporto de Pulkovo, em São Petersburgo, que foi projetado para se assemelhar a torres de uma igreja russa.

Espaços verdes, spas, zonas de relaxamento e estúdios de ioga são introduzidos para ajudar os passageiros a descontrair quando em circulação. Alguns aeroportos lideram na disponibilização de serviços mais cerebrais e culturais, como a biblioteca do Aeroporto de Schiphol, em Amesterdão, a galeria de arte do Terminal 5 de Heathrow e um programa público aclamado pela crítica em Denver, nos EUA. Iniciativas ecológicas transparentes compensam o impacto do aumento das emissões de CO2. O aeroporto de Chicago emprega rebanhos de cabras, ovelhas e lamas na pastagem dos 48 hectares de terra que, de outra forma, seriam impossíveis de manter usando métodos convencionais. Quando o novo aeroporto da Cidade do México abrir em 2020 será o mais sustentável do mundo, com um telhado revestido de fontes de energia solar, uma unidade de reciclagem de energia e a eliminação de comboios de trânsito entre terminais.

Viagens virtuais
Em 2013, a empresa Jaunt começou a desenvolver uma experiência de realidade virtual inspirada no desejo do seu fundador de recriar uma viagem ao Parque Nacional de Zion, no estado americano do Utah. O dispositivo auditivo da Jaunt disponibiliza aos utilizadores uma experiência visualmente imersiva em qualquer destino ou evento pré-programado, reforçada pela inclusão de tecnologia de microfone sensível, que recria com precisão os sons. A este aspeto acresce a possibilidade de adicionar camadas de sensações à experiência de realidade virtual através da tecnologia 3D e háptica – como a tecnologia Revel da Disney, que replica a sensação de toque através de interfaces digitais vibratórios. Os utilizadores podem desfrutar da experiência 3D de caminhar ao longo da praia de Copacabana, sentir a textura da areia entre os dedos dos pés e ouvir o som das ondas em torno deles.

A eficácia imediata da realidade virtual na indústria de viagens está nas áreas do marketing e entretenimento visual imersivo. A empresa aérea australiana Qantas está, atualmente, a introduzir dispositivos auditivos e visuais de realidade virtual para entretenimento a bordo das suas cabines de primeira classe e lounges e, em 2014, a cadeia Marriott lançou uma experiência pop-up de realidade aumentada, que transporta os hóspedes para lobbies de hotel em Londres, São Francisco e Havai.

Economia de partilha
A economia de partilha vive uma transição significativa, que exige legislação e regulamentação. Os serviços entre pares, denominados “peer-to-peer” em inglês, estão agora disponíveis em cada ponto de contacto da experiência de viagem, da reserva do alojamento aos serviços de transporte, incluindo aqueles que estabelecem uma relação entre os viajantes e os cozinheiros domésticos e experiências gastronómicas locais. Um estudo de 2014, realizado pela Universidade de Boston, revelou que, em cidades onde o Airbnb goza de uma presença estabelecida, as reservas de hotéis caíram 5% entre 2011 e 2013.

A este ritmo, a redução será de 10% até 2016. À medida que os serviços entres pares se tornam mais sofisticados, os serviços de viagens tradicionais devem intensificar a sua proposta de venda e aproveitar as funcionalidades das novas tecnologias de forma a disponibilizarem personalização diferenciada. «A economia de partilha está aqui para ficar, e não importa o quanto nós a combatemos e choramos, para a Geração Y é um modo de vida», afirma Bashar Wali, presidente da empresa de gestão de hospitalidade, Provenance Hotels.

Hiperlocalidade
Uma celebração dos pontos de interesse de nicho, dos aspetos desconhecidos e de interesse local, que são inteiramente exclusivos de um destino, são, cada vez mais, reconhecidos no processo de tomada de decisão e de marketing de mensagens. A ascensão da hiperlocalidade integra o interesse mais amplo do consumidor na narrativa, que agora permeia tudo, desde as experiências de retalho às refeições e bebidas. As unidades hoteleiras consideram, cada vez mais, as entidades e fornecedores locais, como forma de incorporar autenticidade.

O Fogo Island Inn, em Terra Nova, é essencialmente gerido como uma cooperativa, na qual todos os lucros revertem diretamente a favor da comunidade local. Da mesma forma, o Fellah Hotel em Marraquexe, abriga e apoia um centro de artes da comunidade, apresentando o trabalho de artistas regionais. As marcas de viagens estão perfeitamente posicionadas de forma a capitalizar a diferenciação e diversidade, contando uma história autêntica. Em 2014, a cadeia de hotéis Red Lion ganhou prémios pela sua campanha “Local. Wise.”, que incidiu sobre as peculiaridades regionais das suas localizações.

O conselho de turismo oficial de Nova Iorque está, atualmente, a executar uma campanha de incentivo aos turistas, instigando-os a aventurarem-se em áreas menos conhecidas da cidade, como por exemplo o Harlem. Na segunda parte deste artigo serão abordadas as potencialidades dos media sociais na transformação da experiência de viagem, a valorização crescente das experiências de elite e de âmbito cultural, assim como a iminente aproximação da era das viagens espaciais.