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«O futuro do trabalho será criativo, digital e colaborativo»

A Secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann, em entrevista ao Portugal Têxtil, elogiou o caminho que a indústria têxtil e vestuário tem feito para ultrapassar os desafios que lhe foram colocados, mas alertou para a escassez de mão-de-obra.

A indústria têxtil e vestuário tem percorrido um longo caminho desde a liberalização dos mercados, no início deste século. Acha que foram tomadas todas as medidas necessárias para dar força ao sector?

O sector têxtil e vestuário tem dado provas de como se pode inovar na tradição e os números claramente contradizem a ideia fatalista que circulava há uns anos sobre a nossa indústria de base tradicional. Em 2017, as exportações têxeis atingiram um valor superior a 5,2 mil milhões de euros, o que representa um máximo histórico. As exportações de têxteis e vestuário são fundamentais para o crescimento económico e para a criação de emprego. Estes resultados tão positivos devem-se principalmente às nossas empresas e aos nossos empresários e gestores, que têm sabido adaptar-se aos desafios e oportunidades de novos modelos de negócio, processos produtivos inovadores e clientes cada vez mais exigentes, e tirar partido das condições criadas de diferentes medidas de políticas públicas.

O Governo tem apostado em medidas de apoio à inovação na industrialização, com a Indústria 4.0. Como é que um sector tão tradicional como o têxtil se enquadra nesta estratégia?

A indústria do futuro está a acontecer agora. Deixou de ser um conceito teórico e ganhou vida no dia-a-dia das empresas portuguesas. No sector têxtil e vestuário, temos hoje excelentes exemplos de inovação, na aplicação da nanotecnologia ou na área da economia circular. São já vários os casos de sucesso “made in Portugal” reconhecidos internacionalmente. A este nível, o cluster, os centros tecnológicos e os centros de investigação têm dado fortes contributos para criar uma cultura industrial baseada em inovação e ajudar na transição para a indústria do futuro. A tradição industrial de excelência – que caracteriza, entre outros, a indústria têxtil e vestuário – é um ativo estratégico para Portugal e para esta indústria de futuro. É imperativo que a indústria de futuro capitalize essa tradição.

O Governo também está a apostar em programas de requalificação profissional. Que resultados têm para apresentar neste sector?

A Indústria 4.0 não é somente um fenómeno tecnológico. É fundamentalmente um fenómeno humano e social. O futuro do trabalho será criativo, digital e colaborativo, exigindo uma aposta muito maior na formação e na requalificação dos recursos humanos. Sabemos que algumas empresas têm dificuldade em recrutar funcionários com qualificações para as exigências da tecnologia e é por isso que a formação tem de acompanhar a inovação. O sector têxtil tem desempenhado um papel muito ativo nesta transformação, através do centro de formação profissional Modatex, que constitui uma referência internacional na formação para este sector. O Governo tem apoiado diversos cursos para este sector. O Executivo lançou o Incode2030, para requalificar com competências digitais dezenas de milhares de pessoas. Existem avisos abertos para formação em empresas e empresas que se estão a organizar criando Academias. Os resultados vão surgindo. Os gestores e os empresários não se podem demitir da aposta na formação. Cabe-nos a todos, stakeholders públicos e privados, contribuir para que a transição das nossas empresas para a indústria do futuro se faça com sucesso e a formação e requalificação são elementos decisivos.

As empresas queixam-se de falta de mão-de-obra, que os jovens não querem trabalhar nas fábricas, ao mesmo tempo que mantêm salários muito baixos na indústria têxtil e vestuário. Há alguma maneira de resolver esta questão, aparentemente insanável?

Estamos a trabalhar em diferentes frentes, por exemplo, lançando ações para tornar a indústria um sector mais atrativo para os jovens. O Governo vai lançar em breve uma campanha destinada aos jovens, para que estes encarem como dignificante a opção de trabalhar e fazer carreira numa fábrica. É importante que os diferentes agentes se associem neste movimento e que lancem iniciativas que mostrem aos jovens o que é a indústria do futuro, as novas profissões e as possibilidades de carreira. Contamos com a indústria têxtil e vestuário para ser uma parceira estratégica neste desígnio nacional de atrair jovens para a indústria, desenvolvendo iniciativas complementares às lançadas pelo Governo.

Quais são os principais motivos de preocupação que as empresas lhe transmitem?

As empresas manifestam muita preocupação relativamente à escassez de mão-de-obra, que se deve não só ao fenómeno demográfico como também à baixa atratividade da indústria para os jovens. Há também grande apreensão no que diz respeito à capacitação da força de trabalho. Existe alguma incerteza face às novas tecnologias e às transformações legais e geopolíticas afetando os sectores, e para estes desafios a capacitação e inovação continuam a ser o caminho.