Início Destaques

«O grande ponto forte é termos toda a fileira presente»

Com data antecipada, a Texworld voltou a receber expositores de diversas partes do mundo, garantindo a internacionalidade que tem sido uma imagem de marca da feira de tecidos e acessórios, como realça Frédéric Bougeard, presidente da Messe Frankfurt France, que aponta para uma indústria cada vez mais sustentável no futuro.

Frédéric Bougeard

Seguindo as indicações e preferências manifestadas pelo mercado, a Texworld Evolution Paris antecipou as suas datas, com a segunda edição do ano, que decorreu no início do mês de julho, a obter uma resposta «favorável» por parte da indústria, nas palavras de Frédéric Bougeard, nomeado em abril de 2020 presidente e CEO da Messe Frankfurt France, que organiza o certame. O regresso da feira ao seu local habitual, depois do interregno causado pela pandemia, contou novamente com a presença de visitantes internacionais dos quatro cantos do mundo e com uma oferta variada, proveniente de países tão diversos como Portugal, China, Etiópia e Uzbequistão, focada nos tecidos que estiveram na sua génese, mas contemplando igualmente acessórios, num portefólio completo que constitui, acredita o presidente, a força do certame.

Para o futuro, o digital, introduzido para mitigar o impacto do covid-19, vai manter-se num papel complementar à edição física da Texworld Evolution Paris, que deverá, como explica Frédéric Bougeard em entrevista ao Jornal Têxtil, concedida no segundo dia do certame, acompanhar a transição da indústria da moda para um caminho mais centrado na sustentabilidade, como provam já os fóruns de tendências presentes no recinto, que têm vindo a subir de gama.

As datas, essas, deverão manter-se em fevereiro e em julho, estando as edições de 2023 agendadas para 6 a 8 de fevereiro e 3 a 5 de julho, sendo que a primeira se deverá realizar, como se tornou habitual, no Parque de Exposições Paris – Le Bourget, enquanto a segunda vai estrear-se numa nova localização, bem mais próxima do centro de Paris: a Porte de Versailles.

Pela primeira vez, a segunda edição do ano da Texworld Evolution Paris foi antecipada para julho. Que balanço pode já fazer desta mudança?

As observações feitas antes da pandemia viram-se agora confirmadas: esta data é mais adequada para os compradores. A indústria acabou, também ela, por responder muito favoravelmente, tendo sido capaz de apresentar as suas coleções neste início de julho. Posso inclusivamente afirmar que nunca recebemos tantas amostras para o Fórum de Tendências como nesta edição. O salão esteve extremamente dinâmico logo no primeiro dia, o que prova que os compradores validaram completamente esta data desde o primeiro instante.

Estamos no segundo dia da feira. Quais são as suas primeiras impressões?

No primeiro dia registámos mais 30% de compradores, maioritariamente estrangeiros, o que prova o dinamismo do salão e, consequentemente, a validação da antecipação da data para julho, o que permite, por sua vez, antecipar as coleções. A evolução do mercado da moda, com muitas marcas a lançar coleções regularmente ao longo do ano, necessitava, por isso, de um maior equilíbrio de datas, conferido por fevereiro e julho, que possibilitam aos compradores encontrar, de uma forma mais regular, os seus atuais e futuros parceiros.

Foi nomeado presidente e CEO da Messe Frankfurt France em abril de 2020. Como tem sido dirigir uma organização de feiras físicas em tempos de pandemia?

As nossas possibilidades viram-se limitadas pela covid-19, nomeadamente a realização das feiras como elas eram no pré- pandemia. Lançámos, no entanto, várias iniciativas nestes dois últimos anos, como o Le Showroom, no centro de Paris. Este formato de exposição permitiu, de certo modo, que representássemos as empresas que não podiam estar presentes fisicamente, ocupando-nos de apresentar as suas coleções e acolher os compradores, em condições que, há que dizer, foram muito difíceis, para disponibilizar esta plataforma física aberta. A minha ambição é manter estas plataformas de negócio abertas – mais do que feiras, a Texworld e a Apparel Sourcing são, acima de tudo, plataformas de negócio, plataformas de sourcing e plataformas de parceria para os produtores, por um lado, e para os compradores, por outro lado. O nosso objetivo nos picos da pandemia foi disponibilizar uma plataforma física onde os compradores pudessem ver e tocar as amostras de tecidos, assim como possibilitar as trocas presencialmente com os produtores que o puderam fazer.

Nesse contexto, que papel coube ao digital e que futuro lhe está reservado?

Um papel de complementaridade. Estamos numa indústria onde os compradores precisam de tocar nos tecidos. É muito difícil, para eles, tomar uma decisão com base na apresentação digital. Por conseguinte, o digital permite-nos completar a oferta de produtos dos expositores antes, durante e até depois da feira física. Além disso, possibilita ao comprador retomar o contacto com um dado número de expositores. Mas o certame físico é extremamente importante na nossa indústria. As pessoas gostam de sentir o toque dos tecidos e, em matéria de digital, até à data, não é possível obter o mesmo resultado em termos do cair, do brilho, da cor de um tecido.

Que pontos fortes reconhece à Texworld Evolution Paris tal como a conhecemos hoje?

O grande ponto forte é termos toda a fileira presente. Demo-nos conta que cada vez mais compradores de tecidos procuram também acessórios e, desta maneira, proporcionamos-lhes uma visão global da oferta.

A Texworld tem procurado, na última década, desenvolver a sua componente criativa, desde o seu Fórum de Tendências à feira em geral. De que forma a sua longa experiência em salões de decoração, como a Maison&Objet, que possui uma forte componente criativa global, pode consolidar essa tendência?

A nossa principal missão é acompanhar o mercado. Se este salão tem subido de gama é porque os seus expositores, que vêm do mundo inteiro, têm subido de gama. Nós, como reflexo, devemos acompanhá-los nessa subida de gama. Quando criamos um fórum de tendências cada vez mais qualitativo é porque a produção e a oferta propostas por essas empresas internacionais são, elas próprias, cada vez mais qualitativas. O impulso que gostaria de dar a este salão é ajudá-lo a ir o mais longe possível nesse caminho. A moda tenta ser cada vez mais sustentável e, por isso, será cada vez menos fast fashion. Nós ambicionamos simplesmente poder acompanhar a indústria nessa transformação, ajudando-a a promover da melhor maneira a sua oferta, a valorizá-la, para que corresponda à procura dos compradores.

Face aos desafios estruturais e conjunturais que se colocam hoje à indústria da moda, quais são as suas ambições para esta feira?

Mais do que organizadores de feiras, nós somos fornecedores de soluções, como ficou bem patente durante a pandemia. Por consequência, temos como missão estabelecer o contacto entre uma oferta e uma procura e para isso existe uma panóplia de ferramentas, desde o salão clássico ao marketplace digital. Independentemente das circunstâncias, devemos ser capazes de manter essa conexão, gerando negócio, entre quem vende e quem compra. É necessário ter uma capacidade de adaptação permanente, uma vez que o mercado está em constante evolução.

A Messe Frankfurt France prevê o lançamento de alguma iniciativa intermédia, por exemplo do género do Le Showroom, entre as edições de julho e de fevereiro da Texworld Evolution Paris?

Não. O Le Showroom foi uma solução temporária para substituir os expositores que não podiam estar presentes devido às restrições impostas pela covid. Hoje temos aqui todos os países habitualmente presentes no pré-pandemia, mesmo se as 140 empresas chinesas estão longe de representar a capacidade da indústria do país, na medida em que as restrições as impedem ainda de viajar. A experiência adquirida com o Le Showroom, contudo, permitiu-nos nesta edição criar o espaço Source in China para acolher digitalmente as empresas chinesas que não podiam estar presentes fisicamente. Já os restantes países não estavam sujeitos a restrições de viagem pelo que puderam estar presencialmente neste salão com os seus stands habituais. No entanto, como plataforma aberta, acolhemos sempre novos países: em fevereiro último foi o caso do Uzbequistão e agora houve um grande contingente etíope. A Texworld procura dar visibilidade e criar negócio tanto para os atores existentes, como para os novos atores da indústria da moda.