Início Arquivo

O imperativo da cooperação inter-empresarial

O ambiente económico em que as empresas da indústria têxtil e do vestuário se inserem mudou acentuadamente nas últimas duas décadas. Esta mudança aumentou, de uma forma sem precedentes, os níveis de concorrência entre as empresas. Além disso, alterou substancialmente as estratégias competitivas necessárias ao sucesso empresarial, tornando quase imperativas as estratégias de cooperação entre empresas.

O processo de globalização é actualmente um dado adquirido, obrigando a que as empresas se confrontem crescentemente com poderes e regras supranacionais que elevam o processo concorrencial para um plano mundial. Perante esta evolução, as empresas têxteis portuguesas defrontam-se cada vez mais com a concorrência de países do Leste europeu e da Ásia que combinam uma mão-de-obra relativamente bem formada com baixos custos salariais. No caso dos países de Leste, esta situação torna-se ainda mais problemática pelo facto das empresas têxteis portuguesas produzirem sobretudo para mercados que lhes são muito próximos 3/4 mercados que se localizam nos países mais desenvolvidos da Europa Ocidental, como a Alemanha, França e Inglaterra.

Por outro lado, a indústria têxtil e do vestuário é considerada uma fonte importante de poluição industrial, principalmente pelos efeitos que resultam dos processos de tinturaria e acabamentos. Por esta razão, a legislação restringe e penaliza de forma crescente estas actividades, exigindo às empresas têxteis a implementação de sistemas de tratamento de resíduos extremamente onerosos (principalmente se forem suportados individualmente). Além disso, as tecnologias têxteis são cada vez mais complexas e caras, obrigando as empresas do sector a realizar investimentos cada vez mais elevados para se manterem na vanguarda tecnológica.

Estas alterações, em paralelo com a modificação na natureza das necessidades e preferências dos clientes, exigem um novo grau de competitividade e de flexibilidade organizacional das empresas têxteis, isto tanto ao nível dos seus processos produtivos como dos produtos e das estruturas de gestão. Neste contexto de grande dinamismo e competitividade, as opções concorrenciais escolhidas pelas empresas portuguesas do têxtil e vestuário são cruciais para a sobrevivência e o sucesso do sector.

Para dar resposta aos novos desafios, as empresas que compõem a indústria têxtil e do vestuário em Portugal possuem três grandes opções: i) procurar um posicionamento privilegiado com fornecedores ou distribuidores, melhorando a qualidade de produção e as condições de entrega e distribuição; ii) concorrer autonomamente em nichos de mercado; iii) estabelecer uma actuação fortalecida através de acções concertadas em redes com outras empresas. Em qualquer das opções mencionada, a cooperação inter-empresas é crucial, principalmente pelo facto da indústria em causa ser composta essencialmente por empresas pequena e média dimensão.

A cooperação empresarial é uma estratégia das empresas para atingir os seus objectivos através de esforços conjuntos com outras empresas, ao invés de esforços rivais com elas. Os conceitos de “cooperação” e “concorrência” são, por isso, geralmente considerados incompatíveis. O primeiro põe em destaque o concurso de vontades enquanto que o segundo realça a rivalidade entre as partes pela posse de recursos e de outros factores escassos. Contudo, a cooperação empresarial é essencialmente uma “nova” estratégia concorrencial que permite a obtenção de vantagens para as empresas aderentes que possuem escassez de recursos e competências específicas e que as podem adquirir através de ligações com outras que possuem activos e habilitações complementares. A cooperação empresarial também é uma forma alternativa de acesso a novos mercados, consecução de sinergias mútuas e aprendizagem organizacional.

A cooperação empresarial representa, assim, uma estratégia imperativa para a indústria actual do têxtil e do vestuário em Portugal, possuindo um elevado potencial para melhorar a competitividade e reduzir os riscos das suas empresas que estão inseridas num mercado cada vez mais global e concorrencial. Representa, também, uma estratégia especialmente adequada às PME´s têxteis, quer pelas suas limitações naturais de desenvolvimento orgânico, quer pelo facto de ser um conceito possível de ser desenvolvido sem que as empresas aderentes percam a autonomia, originalidade, empresarialidade individual e independência jurídica/económica que tanto prezam. Acresce, ainda, que é uma estratégia que conta com o apoio e empenho do Estado português, que tem vindo a oferecer um número crescente de programas públicos de promoção da cooperação inter-empresarial.