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O império da excentricidade

Entre plumas, longas caudas e até um candeeiro, a extravagância dominou nas indumentárias da 71ª edição da gala Met. Esta segunda-feira à noite, o evento assinalou a abertura da grande exposição de moda do Costume Institute, em Nova Iorque, sob o tema “camp”.

Lady Gaga

A passadeira propositadamente cor de rosa foi palco de mais uma edição da gala Met, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. O evento anual, que conta sempre com um tema definido e que é seguido pelos convidados, foi, talvez, este ano, o mais excêntrico de sempre. Cor de rosa, dourado, caudas, plumas, perucas loiras e inspirações do mundo drag, bem como de lendas do camp como Cher ou David Bowie, foram as tendências que se apresentaram na gala Met de 2019.

Entre vários visuais arrojados, Lady Gaga surpreendeu tudo e todos, personificando a excentricidade do tema “camp”, à medida que ia mudando de visual, camada a camada. A diva pop transformou-se numa espécie de matrioska, revelando quatro visuais diferentes, acompanhada pelo criador Brandon Maxwell, que vestiu a artista. Inicialmente, Lady Gaga apareceu com um vestido cor de rosa com uma gigante cauda, acompanhada por um conjunto de homens de fato, com guarda-chuvas pretos. Pouco a pouco foi tirando camadas: o enorme laço na cabeça, depois o vestido, apresentando um outro preto por baixo. De seguida, revelou um vestido cor de rosa. Por fim, Lady Gaga posou apenas de cuecas e soutien pretos e umas plataformas vertiginosas.

Lady Gaga
Katy Perry

Já Katy Perry apareceu literalmente a brilhar: a cantora vestiu-se de candeeiro, numa clara referência à personagem Lumière, da Bela e o Monstro, numa criação da Moschino.

Por sua vez, a artista rap Cardi B levou a sua própria passadeira vermelha, num vestido de Thom Browne, com plumas que formavam uma longa cauda circular.

Cardi B

Num visual criado por Alexandra Mandelkorn, Janelle Monáe também surpreendeu com um vestido preto, branco e rosa que se assemelhava a uma pintura cubista e com uma espécie de olho que cobria um dos seus peitos e longas pestanas, num visual finalizado por uma torre de chapéus.

Janelle Monáe

Quanto a estreias, a modelo portuguesa Sara Sampaio marcou presença pela primeira vez no evento, com um vestido de August Getty.

Do lado masculino, o cantor Harry Styles, o designer Alessandro Michele e o ator Benedict Cumberbatch personificaram a temática. No entanto, foi o performer Billy Porter que mais deu nas vistas, ao entrar carregado por seis homens e mostrando posteriormente as suas asas douradas.

Desde 1995, Anna Wintour é anfitriã da gala e, ano após ano, cabe-lhe nomear uma lista de anfitriões. Na última noite, a responsabilidade coube a Lady Gaga, Serena Williams, Harry Styles e Alessandro Michele.

O que é exatamente o camp?

A exposição “Camp: Notes on Fashion”, que se inaugura no museu a 9 de maio e patente até 8 de setembro, tem como base o tema “Notes on Camp”, um ensaio de Susan Sontag publicado em 1964. «Camp é, por natureza, subversivo… desafia o status quo», afirma o curador do Costume Institute, Andrew Bolton. «No fundo, o objetivo do camp é colocar um sorriso nas nossas caras e um brilho aconchegante nos nossos corações», explica.

Na mostra podem ser vistos trabalhos de Elsa Schiaparelli, Rei Kawakubo, Yves Saint Laurent, Vivienne Westwood, Jean-Paul Gaultier, Erdem Moralıoğlu e Bob Mackie.

Sara Sampaio
Harry Styles

O camp tem como base a ironia, a paródia, o artificial, o teatro e o exagero. «Estamos a viver o ressurgimento do camp – não apenas na moda, mas na cultura em geral», considera Andrew Bolton. «O camp costuma surgir em momentos de instabilidade política e social. Os anos 60 foram um desses momentos, assim como os anos 80», aponta.

Billy Porter

A exposição pretende explorar a omnipresença e a evolução do camp ao longo do tempo, passando por figuras como Luís XIV, Andy Warhol, Benny Ninja, Judy Garland e Oscar Wilde, entre outros.

Anna Wintour

«O camp tem diferentes significados, dependendo do momento», garante Pierpaolo Piccioli, diretor criativo da Valentino. «Acredito que o camp é importante nos dias de hoje porque está relacionado com a liberdade de seremos nós próprios. É um direito que todos devíamos ter», defende.

A mais recente exibição surge no seguimento do tema de 2018, sob o tema “Corpos celestiais: a moda e a imaginação católica”, que explorava a influência do catolicismo na moda e se tornou a exposição mais visitada da história do museu.

Ainda que os dois temas partilhem a opulência, o tema deste ano é mais inclusivo, enigmático e, ironicamente, dá mais espaço ao fracasso – embora as falhas sejam misteriosas e inconfundíveis.

Segundo Andrew Bolton, a forma como o camp se expressa é secundária. «Há um grande divertimento na génese do camp. Depois, há o lado político… é inerentemente político; faz parte da cultura queer, da era vitoriana até aos dias de hoje. Há tragédia no camp… e mesmo alguma generosidade. Acho que se modifica ao longo do tempo e quando precisamos, está lá para nós. O camp é inerentemente otimista. O otimismo é bom. É algo de que precisamos agora», conclui Pierpaolo Piccioli.