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O imposto cor de rosa

Das taxas aduaneiras a justificações mais ou menos racionais, a discriminação de género nos preços dos artigos de moda – com valores diferentes para artigos semelhantes para homens e para mulheres – parece ser uma realidade inegável que pesa especialmente na carteira das mulheres.

Ao comparar os preços de artigos semelhantes nas lojas de comércio eletrónico da Saint Laurent, Valentino, Gucci, Dolce & Gabbana, Balmain e Alexander Wang, o Business of Fashion encontrou 17 situações em que as versões masculinas e femininas de um estilo tinham preços diferentes. Na maioria destes casos, a versão para mulher era mais cara do que a versão para homem, numa diferença de preço que pode chegar até 1.000 dólares (cerca de 885 euros).

Entre as marcas em análise, a Saint Laurent apresenta as maiores diferenças de preços entre estilos semelhantes para homem e mulher – oito no total, incluindo uma camisola às riscas que custa 950 dólares para homem e 1.190 dólares para mulher e uma t-shirt preta em seda que custa 490 dólares para homem e 590 dólares para senhora, apesar de, como sublinha o Business of Fashion, ambos os artigos terem o mesmo design, cores e composições tanto para homem como para senhora.

Outros exemplos incluem uma camisola da Valentino com borboletas bordadas, que custa 2.450 dólares na versão de homem e 3.290 dólares na versão de senhora – uma diferença de 840 dólares – e uma camisa em seda estampada da Gucci, com o preço de 1.100 dólares para homem, em comparação com 1.390 dólares para senhora (embora a versão de senhora tenha um laço no pescoço). Um top em linho para homem da Balmain custa 295 dólares, enquanto a versão para mulher custa 365 dólares.

Os websites da Saint Laurent e da Gucci têm também artigos semelhantes com os mesmos preços para homem e senhora: é o caso de um blusão de motoqueiro da Saint Laurent (4.990 dólares para homem e senhora) e de um casaco florido da Gucci (2.900 dólares). As versões de artigos para homem e senhora como as gabardines da Burberry, as camisolas da JW Anderson e o calçado da Rick Owens têm igualmente os mesmos preços para homem ou mulher.

Nos últimos tempos, o “imposto cor de rosa” – a ideia de que a versão feminina de um produto custa mais do que a sua versão masculina – tem gerado polémica junto dos consumidores. Um estudo publicado em dezembro do ano passado pelo Departamento de Assuntos do Consumidor da cidade de Nova Iorque comparou as ambas as versões de quase 800 produtos à venda na cidade – incluindo jeans, champôs e brinquedos de criança – e concluiu que, em média, os artigos de senhora custavam mais 7%.

As razões para o “imposto cor de rosa” na moda não são claras. A Saint Laurent explicou ao Business of Fashion que a política da empresa é alinhar os preços das coleções de homem e senhora, mas que ainda assim acontecem diferenças porque a maior parte dos artigos de senhora exigem mais trabalho do que os de homem.

A Alexander Wang foi a única marca cujos artigos para homem são, no geral, ligeiramente mais caros do que os de senhora, uma diferença que a empresa atribui à necessidade de uma maior quantidade de tecido nos artigos de homem em certos casos.

Efetivamente, há algumas razões lógicas pelas quais homens e mulheres podem pagar preços diferentes pelos artigos, apesar dos mesmos parecerem semelhantes. Mas será que justificam o “imposto cor de rosa”?

Materiais e mão de obra

Algumas peças de vestuário para senhora, sobretudo ao nível do luxo, exigem trabalho manual, tecidos ou decorações mais elaboradas do que as peças de homem, levando a maiores custos em materiais e produção. Patricia Sensrud, diretora da Hudson River Parters, uma empresa de consultoria e investimento sediada em Nova Iorque e ex-presidente para o sportswear de senhora nos EUA da Tommy Hilfiger, revela ao Business of Fashion que «os custos destas características especiais têm muitas vezes de ser amortizados em toda a linha», para suavizar o preço no retalho das peças de vestuário mais complexas.

A marca pode ainda produzir mais tamanhos, cores e variações dos artigos na gama de senhora do que na de homem. «Isso cria dois níveis de risco», explica Stensrud. Primeiro, uma maior variedade significa dividir a produção em séries mais pequenas, o que é menos económico. Em segundo lugar, mais produtos pode significar preços mais elevados nesses produtos, para «compensar maiores riscos de promoção, porque há mais unidades em stock», explica. «É possível que alguém que esteja a planear a rentabilidade de uma linha faça esses ajustamentos, para cobrir o risco financeiro», acrescenta Patricia Sensrud.

Segundo Michael Cone, um advogado da área comercial sediado em Nova Iorque que há 17 anos lida com questões de diferenças de preço por géneros, o desafio é perceber onde é acrescentado o “imposto cor de rosa” na cadeia de aprovisionamento – e se a marca ou as suas fábricas são responsáveis. «Infelizmente, não temos a resposta completa», afirma. «Não temos as folhas de contabilidade internas das fábricas, dos importadores, de ninguém», explica.

Procura do consumidor

Na moda de luxo, o preço de um produto pode ser baseado em fatores além do custo de realmente fazer a peça – incluindo o posicionamento da marca ou o estatuto de um produto em particular. Por exemplo, o icónico casaco Le Smoking da Saint Laurent foi uma peça de vestuário revolucionária para senhora quando foi desenhada nos anos 60 e continua ainda hoje a ser sinónimo da casa de moda. A sua versão masculina não tem o mesmo significado cultural. Estas diferenças podem ter impacto no preço do modelo, que é de 2.550 dólares para homem e de 3.550 dólares para mulher – uma diferença de 1.000 dólares.

«Muito disto é psicológico – esse preço é na verdade uma forma de criar desejo ou elevar o estatuto de uma marca ou produto», explica Kit Yarrow, psicóloga de consumo e professora na Golden Gate University. «Pode haver ocasionalmente inflação de preços, se o preço for a forma de estabelecer o valor de um produto, sobretudo nas marcas de luxo», acrescenta.

Alguns resumem o “imposto cor de rosa” ao “preço da procura” – o facto de as mulheres comprarem mais e estarem mais dispostas a pagar por moda do que os homens. Por isso, as marcas cobram-lhes mais. Com efeito, o mercado mundial de vestuário de senhora está avaliado atualmente em 638,8 mil milhões de dólares – um valor significativamente superior do que os 417,3 mil milhões de dólares do mercado de vestuário de homem, segundo o Euromonitor.

«A questão é o preço discriminatório», considera Michael Cone. «Constantemente, os preços dos bens e serviços para mulheres são mais elevados do que os bens e serviços para homem, apesar do serviço ou do bem ser materialmente o mesmo», refere.

«As mulheres pensam que há uma associação absoluta entre preço e a qualidade do produto que estão a comprar, enquanto os homens fazem menos isso», acrescenta Yarrow. As consumidoras, afirma, gastam mais do que os homens, cujo comportamento de compra é mais impulsionado pelo valor. «De certeza que a moda de senhora é muito mais competitiva do que a de homem e é preciso um maior esforço para promover os produtos nessa arena», advoga Yarrow. «Mas uma diferença de 100 dólares numa t-shirt? Nada faz sentido para mim nisso exceto oportunismo», sublinha.

Taxas com base no género

O chamado “imposto cor de rosa” pode também ser o resultado de um imposto real. Nos EUA e na União Europeia, as taxas sobre certas categorias de produtos dependem do género do consumidor a quem se dirigem, significando que diferentes taxas podem ser aplicadas a artigos diferentes para homem e senhora. Em 2014, 86% das importações de vestuário dos EUA eram classificadas por género pela Comissão de Comércio Internacional dos EUA.

Um estudo de 2015 do Mosbacher Institute for Trade, Economic and Public Policy na Bush School, concluiu que nos EUA, em média, a taxa sobre o vestuário de senhora importado era de 15,1%, enquanto a taxa do vestuário de homem era de 11,9%. Segundo a pesquisa, a taxa sobre camisas em seda de senhora era seis vezes mais elevada do que a taxas para camisas em seda de homem, enquanto no swimwear, os produtos para homem têm taxas mais altas do que os de senhora – uma diferença que nem sempre se reflete no retalho já que, de acordo com o Departamento de Assuntos do Consumidor da cidade de Nova Iorque, as camisas de algodão de senhora custam mais do que as de homem, apesar das camisas de homem terem taxas de importação mais elevadas.

«Há algumas razões pelas quais os preços são diferentes para homens e mulheres. A primeira é simplesmente discriminação nos preços… Não é uma preocupação política. Mas a outra é o diferencial de impostos», afirma Lori Taylor, diretora do Mosbacher Institute e coautora do estudo. «Isso pode e deve ser resolvido», defende.

Segundo Michael Cone, as diferenças de taxas por género remontam a 1830, mas afirma que não existe documentação que justifique as mesmas. «Na altura, ninguém pensou nisso como uma potencial violação», afirma, sublinhando que a classificação por género só começou a ser entendida como uma discriminação nos EUA nos anos 70 do século passado. Como as taxas são um fator no custo dos bens antes destes irem para as lojas, «a maior parte das pessoas nem sequer tem ideia de que existe», acrescenta.

Vários casos em tribunal nos EUA foram sentenciados como não havendo provas de que taxas com base no género são deliberadamente discriminatórias. Em maio de 2014, o Supremo Tribunal dos EUA recusou os apelos de marcas, incluindo a Forever 21, que tentavam contestar uma sentença anterior do Tribunal de Comércio Internacional, afirmando que as taxas sobre o vestuário e calçado são discriminatórias porque são baseadas no género, em vez de outros fatores como o material ou o peso de um produto. «Não há intenção de discriminar, mas há claramente um impacto discriminatório», considera Taylor.

O fim do “imposto cor de rosa”?

Contudo, nos últimos anos tem havido uma mudança nos hábitos de compra dos homens, com o estereótipo de que os homens detestam ir às compras a ficar no passado. Com o vestuário de homem a tornar-se mais moda e sofisticado tecnicamente e com o mercado de vestuário de homem a crescer a uma taxa marginalmente superior ao de senhora – as vendas de vestuário de homem cresceram 1,9% em comparação com 1,6% no vestuário de senhora, segundo o Euromonitor – alguns acreditam que a diferença de preços entre géneros vai-se nivelar. «Penso que está realmente a mudar, com os homens a envolverem-se mais na moda e as mulheres a estarem cada vez mais conscientes dessa questão», afirma Kit Yarrow.