Início Notícias Moda

O lado D da moda

Com uma carreira de 20 anos, Dino Alves nunca teve medo de assumir o seu lado inconformista e irreverente e assume, sem complexos, o cognome de “enfant terrible” da moda nacional, mostrando estar sempre um passo à frente do seu tempo, como mostram os projetos do “hospital da roupa” e a nova linha de carácter ecológico.

O último desfile do designer, na edição de março da ModaLisboa, provocou a discussão sobre o negócio da moda em Portugal mas desde sempre Dino Alves foi um provocador da sociedade, embora nem sempre de forma propositada, confessou ao Jornal Têxtil, num artigo publicado na edição de abril (ver O negócio da moda). «Não sou nada político, sou completamente apolítico. Tenho é esta forma de fazer política quase por instinto, tem a ver com o meu lado humano. Defender causas. Se forem ver o meu historial, os meus temas têm sempre a ver com a parte humana, com as pessoas. Nunca me inspirei numa música, num filme, o que é completamente válido. O meu ADN vai um bocadinho por aí – tudo o que tenho feito acaba por ter uma mensagem mais social», afirmou.

O Hospital da Roupa, no início dos anos 2000, foi um dos projetos quase premonitórios, numa altura em que a reciclagem estava ainda pouco na ordem do dia. Agora, Dino Alves está a lançar uma nova marca, também ela com preocupações ecológicas e de sustentabilidade.

«É uma nova marca que aproveita restos, coisas que tenho acumuladas», explicou. «Todas as semanas vão-se fazendo peças e todas as semanas saem peças novas», acrescentou. A marca contará, além do próprio Dino Alves, com a criatividade de jovens designers. «Todos os anos vou selecionar duas ou três pessoas acabadas de sair de uma escola de moda, que durante um ano têm o negócio delas juntamente comigo. Elas não investem em nada, mas têm de fazer as peças comigo. É um projeto delas, onde também vão ganhar porque as vendas são depois divididas por todos», revelou.

A vontade de mudar o mundo continua a alimentar a vida profissional de Dino Alves, desde que, há duas décadas atrás, deu nas vistas nas Manobras de Maio e foi chamado por Ana Salazar para a direção artística de um dos seus desfiles.

«Já podia ter desistido como muitos dos meus colegas, que ficaram pelo caminho com muita pena de todos nós. Houve muitos nomes bons, de pessoas que faziam coisas ótimas, que desistiram porque perderam a paciência. Não é porque já não têm ideias, é porque vão perdendo a paciência. É preciso ter alguma coragem para continuar», admitiu ao Jornal Têxtil. «No início temos aquela preocupação de querer agradar. Mas chega uma altura em que achamos que já demos as provas todas que tínhamos a dar, quem nos conhece, conhece e sabe aquilo que somos, quem não conhece que fique com a ideia… Já estou naquela fase em que já não quero engolir mais sapos», reconheceu.

Atualmente, o designer trabalha também em projetos paralelos, como a conceção de figurinos para teatro ou para eventos, mas sem descurar a marca própria, cujas coleções continua a apresentar na ModaLisboa. «[No início] assumia que as peças de roupa não eram o mais importante, era toda uma imagem. Depois fui evoluindo e agora tenho consciência de que as coleções são mais coleções no sentido de terem pés e cabeça. Hoje em dia acho que na coleção já há peças mais comerciais, mas há sempre um lado um bocadinho mais conceptual», referiu. «Se eu tiver 10 pessoas que vêm aqui regularmente comprar, quando estou a desenhar as peças tenho de pensar um bocadinho em desenhá-las para elas, não fugindo ao conceito», detalhou.

Contudo, apenas cerca de 25% dos coordenados vistos na passerelle são produzidos, uma realidade que Dino Alves quis explicar durante o desfile da última coleção, batizada “Manual de Instruções” – uma espécie de manifesto sobre o funcionamento da indústria da moda em Portugal. «Às vezes ainda nem respondi à ModaLisboa a dizer se vou fazer o desfile e já tenho centenas de emails a pedirem convites», indicou o designer. «Sinto que as pessoas se alimentam daquilo que a gente faz, mas depois na hora da verdade não nos levam a sério», acrescentou. «É todo um ciclo vicioso: se os clientes não compram, não temos capacidade de escoar, não temos capacidade de pedir quantidades às fábricas, as fábricas não têm vantagem em fazer-nos as peças», apontou.

Ainda assim, o designer conseguiu estabelecer algumas parcerias na produção das suas peças, nomeadamente as calças, e não perde a vontade de se manter na moda. «Aquilo que eu quero é conseguir viver a fazer aquilo que acho que sei fazer, que sou feliz a fazer e ter condições para não ter de andar sempre aflito e a correr de um lado para o outro, porque tenho de ser eu fazer tudo» e concentrar-se em «ter ideias. Nunca gostei de estar sempre a fazer a mesma coisa», concluiu.