Início Notícias Vestuário

O lado obscuro das políticas de transparência

Os mais recentes dados do Alliance for Corporate Transparency destacam a escassez de transparência generalizada ao nível da responsabilidade ambiental e social das empresas. Os dados, contudo, mostram que a indústria do vestuário tem vindo a melhorar a informação que disponibiliza, nomeadamente nos direitos humanos.

O mais recente estudo do projeto de investigação Alliance for Corporate Transparency, que conta com o apoio do escritório de advocacia Frank Bold, analisou a informação que uma amostra de mil empresas divulgou sobre os seus riscos e impactos ambientais e sociais, ao abrigo das exigências da Diretiva de Relatório Não Financeiro da União Europeia (UE). Os resultados indicam que a «fraca qualidade e comparabilidade» destas informações está a dificultar os esforços para ampliar reforços financeiros sustentáveis, já que os investidores não têm acesso a dados fidedignos para suportar as suas decisões.

«Estas dúvidas acarretam grandes riscos financeiros, decorrentes de desafios sustentáveis, especialmente no que toca às alterações climáticas, que não são contabilizados pelo investidor e pelas estratégias corporativas, e deixa por abordar importantes impactos sociais e ambientais», salienta um comunicado que acompanha o estudo.

Lançada em 2018, a Diretiva de Relato Não Financeiro da UE exige a uma longa lista de empresas, bancos e seguradoras no espaço intracomunitário que divulguem toda a informação necessária para a compreensão das suas políticas, riscos e impactos nos assuntos de sustentabilidade. Contudo, a legislação não contempla os detalhes específicos necessários para que as empresas garantam uma comunicação útil e relevante.

Principais conclusões

De acordo com as conclusões retiradas, a divulgação corporativa concentra-se na apresentação de políticas e compromissos gerais (80% a 90% dirigidos a assuntos chave, como o clima, os direitos humanos e a corrupção), mas omite objetivos concretos, medidas para o cumprimento destas metas e informação específica sobre os riscos e impactos.

De facto, apesar de 56,6% reconhecerem estar expostas a perigos de incumprimento de direitos humanos, apenas 25,5% enumera especificamente os riscos que enfrentam e uma percentagem ainda menor evidencia aqueles que representam um impacto real (14,6%). Além disso, só 36% explicam os resultados da gestão destes riscos.

O mesmo acontece com o tema da corrupção, em que a vasta maioria assume políticas para combater a problemática (88,1%) e só 33,7% descrevem a forma como são implementadas.

Por outro lado, apenas 13,9% das empresas alinham as suas metas climáticas com os objetivos do Acordo de Paris, um compromisso assinado entre 195 países para conter o aquecimento global do planeta, através da redução de gases com efeito de estufa – este valor é mais elevado nos sectores da energia e de extração de recursos (23,5%).

Na indústria têxtil e do vestuário (ITV) – que, para efeitos de análise, também inclui o calçado –, 13,6% apresentam claramente os seus principais fornecedores em países de elevado risco no que toca aos direitos humanos, o que representa uma melhoria significativa face a períodos anteriores.

ITV em destaque

No contexto global da ITV, foram analisadas 110 empresas, onde se incluem a Adidas, Asos, Benetton, French Connection e Zalando, distribuídas pelo Reino Unido e Irlanda, Benelux, Europa de Leste e do Sul, França, Alemanha, Áustria e região nórdica. Desta amostra, conclui-se que mais de 75% não fornecem informação transparente sobre as suas cadeias de aprovisionamento, com menos de 1% a listar publicamente os seus fornecedores, mesmo nos sectores de alto risco. A notável exceção vem do sector do vestuário, em que 36% das inquiridas providenciam, pelo menos, uma descrição geral do local de sourcing e 14% divulgam uma lista de fornecedores específicos.

A escassez de transparência é transversal aos assuntos ambientais, onde 62,7% das empresas nos sectores de elevado impacto, como os têxteis e o vestuário, não revelam as suas emissões de carbono inseridas no escopo 3 (emissões indiretas que ocorrem na cadeia de valor da empresa, a montante e a jusante). O mesmo acontece com a divulgação dos resultados de políticas, em que apenas 20% da amostra apresenta os seus progressos (ou retrocessos), apesar de 71,8% afirmar estar a implementar um plano estratégico.

Comparativamente aos dados gerais, as empresas dos sectores que enfrentam riscos sérios de incumprimento de direitos humanos nas suas cadeias de aprovisionamento tendem a fornecer detalhes mais específicos – 38,2% da ITV descreve riscos específicos e cerca de 33% fornece dados sobre auditorias a fornecedores.

Ao longo de todos os sectores, apenas 24,5% divulgam as medidas adotadas para monitorizar as condições da cadeia de aprovisionamento – os melhores resultados advêm da ITV, onde a taxa de 11,8% sugere que esta prática é percecionada como um elemento cada vez mais essencial às devidas diligências de direitos humanos.

Novas diretrizes de diligência

Face às conclusões do estudo, Filip Gregor, chefe de empresas responsáveis ​​da Frank Bold, argumenta que «a legislação existente na UE não está a atingir os seus objetivos e parece que a única forma de resolver o problema é especificar empresas que não estão a apresentar devidamente relatórios de desempenho». Neste sentido, o executivo defende que «precisamos de ter o cuidado em impingir critérios demasiado detalhados ou sobrerregular empresas, mas há uma margem clara e uma necessidade emergente para clarificações bem delineadas para cada sector em específico no que toca a requisitos obrigatórios de comunicação».

Entretanto, as organizações e iniciativas Amnistia Internacional, Action Aid, ECCJ, Global Witness, a Clean Clothes Campaign, ECCHR, CIDSE, Anti-Slavery International e Friends of the Earth juntaram-se para apoiar a continuação do estudo. «A UE tem de aprovar regras obrigatórias de diligência devida para cumprir o seu dever de proteção contra abusos corporativos, como a apropriação de terras, violações de direitos humanos, assassinato de ativistas de direitos humanos, trabalho forçado e infantil, violência de género e degradação e desflorestação ambientais», reforça a coligação, em comunicado.

As organizações estão a solicitar à Comissão Europeia que «aja rapidamente» sobre as descobertas do estudo e «inicie imediatamente o processo para uma proposta legislativa» sobre diligências corporativas nos assuntos de direitos humanos e proteção ambiental. Por sua vez, a UE deverá apresentar uma estratégia financeira sustentável ainda este ano, que se baseia no seu anterior Plano de Ação de Finanças Sustentáveis, para reorientar fluxos de capital e mitigar riscos financeiros que a economia europeia enfrenta devido às alterações climáticas.