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O luxo depois do terrorismo

Na semana passada, o CEO da Hermès Axel Dumas analisou, em Paris, os resultados da empresa relativos a 2015. As vendas foram boas, mas a casa de moda enfrentou uma dura realidade que assolou outras marcas e fabricantes europeus de bens de luxo: os atentados terroristas.

O terrorismo, e em particular os ataques em Paris, que aconteceram em novembro de 2015, tiveram um impacto negativo nas vendas do ano passado e os recentes ataques em Bruxelas deverão ser sentidos nos números da Hermès para o corrente ano.

Os turistas, particularmente os oriundos da China, são vitais para muitas marcas de luxo, incluindo Gucci, Burberry, Prada e Louis Vuitton. Os ataques terroristas estão a arredar estes grupos de viagens dos destinos europeus, algo que se reflete nas vendas destas marcas.

A Richemont, fabricante suíça de relógios topo de gama, revelou em janeiro que os ataques de Paris tinham causado uma quebra de 3% nas vendas dos últimos três meses de 2015. Mas a sequência de ataques anteriores sugere que, embora os efeitos negativos sejam significativos, tendem a ser limitados no curto ou médio prazo.

A Global Blue, empresa que lida com pagamentos em lojas livres de impostos, divulgou em fevereiro que as despesas dos turistas em França, um mercado particularmente importante, caíram 8% em dezembro de 2015 em relação ao ano anterior, e 21% em janeiro de 2016. «Os ataques terroristas em Paris ainda estão a afetar os números do turismo e a performance aqui [compras isentas de impostos]», observou. Muitos turistas ficam também longe dos países vizinhos do território gaulês. A Alemanha registou também a uma queda de 17% em janeiro.

Mesmo assim, a Global Blue descreve o efeito global dos ataques de Paris como «imediato (mas limitado)» num relatório de 2015. Uma das razões apontadas é o facto de os turistas chineses já estarem a comprar menos na Europa e mais no Japão e na Rússia.

Os atentados de Bruxelas vão ter, provavelmente, efeitos semelhantes. «Os ataques terroristas deverão abrandar a procura por viagens e, possivelmente, levar a um declínio de 10% a 20% nas reservas devido ao medo de novas ofensivas», afirmou Nadejda Popova, da Euromonitor International, à Quartz. «Isto não deverá ter um impacto a longo prazo, uma vez que o sector europeu de viagens provou ser muito resistente a tais impactos externos e ter capacidade de recuperar rapidamente», acrescentou.

Luca Solca, analista de luxo na Exane BNP Paribas, prevê que os ataques de Paris se reflitam em vendas mais baixas no primeiro trimestre de 2016, retratando os números da Global Blue. Os ataques de Bruxelas deverão estender esta pressão, sobretudo se os turistas começarem a sentir que esses atos não são acontecimentos isolados.

Porém, assumindo que não há mais incidentes, o turismo de negócios na Europa deverá recuperar rapidamente. Um relatório da Deloitte no ano passado concluiu que as cidades recuperam agora muito mais rapidamente de ataques terroristas do que há 15 anos.