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O mergulho das marcas

No rescaldo da cimeira do clima e do consequente compromisso dos responsáveis de 195 países para a redução das emissões de gases com efeitos estufa, a colaboração da Adidas com a organização Parley for the Oceans no desenvolvimento de sapatilhas com recurso à impressão 3D pinta mais verde o caminho para as marcas de moda.

«Ninguém acorda de manhã e diz “vou destruir os oceanos”. Ninguém o faz, mas coletivamente acabamos por colocá-los em risco», sustentou Cyrill Gutsch, fundador da Parley for the Oceans – uma organização não-governamental sediada nos EUA que procura alertar para a poluição dos oceanos e deixa diretrizes para reverter os efeitos da ação humana nesses ecossistemas – ao The Business of Fashion.

As negociações da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP 21), em Paris, acabaram há dias – depois de duas semanas de negociações e de ter sido adiado o seu encerramento – e o Acordo de Paris foi fechado com um compromisso, juridicamente vinculativo, ambicioso: limitar a subida da temperatura a 1,5 graus, em relação à era pré-industrial.

A coincidir com este calendário, a Parley for the Oceans assinou uma parceria com a Adidas para o desenvolvimento de um conceito inovador de calçado desportivo, denominado Ocean Plastic. Com uma sola intermedia impressa em 3D, as sapatilhas são concebidas a partir de desperdícios retirados do fundo do oceano, como plásticos e redes, que afetam a vida marinha. «A sapatilha de sola intermédia impressa em 3D Ocean Plastic representa como podemos estabelecer novos padrões na indústria se começarmos a questionar a razão de ser daquilo que criamos», explicou Eric Liedtke, membro do conselho executivo da Adidas.

Ainda que as sapatilhas sejam um protótipo, a união da Parley for the Oceans com a Adidas espera constituir um exemplo para a indústria repensar o design e processo de fabrico, ajudando a travar a poluição dos oceanos. «A indústria não pode esperar mais por direções», alertou Liedtke.

Todos os anos são “despejados” cerca de 8 milhões de toneladas de plástico nos oceanos, de acordo com um estudo publicado na revista científica Science em fevereiro último, um número que tende a aumentar se nenhuma medida for tomada. E porque os plásticos à base de petróleo são concebidos para durar, os resíduos subsistem durante décadas. «O plástico é uma falha do design. Uma vez produzido, não morre», afirmou Gutsch. «Como podemos redesenhar o plástico de forma a reduzir o seu impacto no meio ambiente? Como podemos transformar o problema numa oportunidade?», questionou o fundador da Parley for the Oceans.

No contexto da indústria da moda, o projeto Raw for the Oceans assume-se como uma resposta possível para estas questões (ver A moda do futuro). Fruto de uma colaboração entre a marca holandesa reconhecida pela sua pegada sustentável G-Star, a Bionic Yarn – uma startup fundada por Tyson Toussant e Pharrell Williams – e a Parley for the Oceans, o Raw for the Oceans procura transformar resíduos de plástico oceânico em tecidos.

Nos tecidos de denim é utilizado um fio com um núcleo de plástico reciclado revestido de algodão. A aparência do denim tradicional é mantida, mas com maior resistência e durabilidade. Para outras peças de vestuário, como t-shirts, é utilizado um fio que resulta de uma mistura de algodão e plástico reciclado (ver G Star desafia os limites).

O facto de peças (para homem e mulher) serem produzidas tendo como ponto de partida a sustentabilidade torna-as ainda mais apelativas para os consumidores, considera Gutsch. «São desejadas porque foram desenhadas para ajudar os oceanos. Há um sentimento de exclusividade, mas não custam mais… E é aí que se tornam relevantes», advogou.

No prisma do fundador da Parley for the Oceans, a indústria da moda está numa posição privilegiada para chamar a atenção para este problema. «A moda situa-se entre o consumo e a inovação; é capaz de comunicar mensagens que outros não conseguem. É um forte veículo de mudança», apontou.

Desde a sua fundação, a Raw for the Oceans recuperou cerca de 2 milhões de recipientes de plástico de zonas costeiras à volta do globo, mas precisa de alcançar a massa crítica para «realmente fazer a diferença». «Quando ouvi que os oceanos estavam no limite, não tinha ideia. Ainda assim, contribui para isso como consumidor», referiu Gutsch.

O exemplo do rápido crescimento do comércio eletrónico volta a colocar no cerne da questão a indústria da moda, uma vez que este sector é uma das maiores fontes de poluição industrial, devido à utilização do plástico.

De acordo com a Environmental Protection Agency, os recipientes e as embalagens contribuíram com 30% do total de resíduos sólidos gerados em território norte-americano em 2012. E esse número tende a aumentar de forma proporcional ao incremento do comércio eletrónico nos hábitos de compra.

Em 2014, a proteção plastificada de encomendas assumia-se como uma indústria de 22 mil milhões de dólares (aproximadamente 20 mil milhões de euros), com a espuma de plástico a representar, sozinha, 6 mil milhões. Os produtos enviados pelos portais de comércio eletrónico recorrem, na sua maioria, ao envolvimento em plástico e quando o consumidor devolve o produto, o impacto ecológico daquela encomenda duplica.

«Os produtos transformaram-se em mensageiros da era em que vivemos. Só vamos conseguir mudar algo se estabelecermos um novo padrão e orientarmos os fornecedores e fabricantes na direção correta», defendeu Gutsch, ressalvando que projetos como as novas sapatilhas Adidas são exemplo disso. «Fazer a diferença está nas mãos da comunidade criativa. Não é culpa do consumidor», sublinhou.

Adicionalmente ao projeto com a marca desportiva, a Parley for the Oceans lançou ainda um novo esquema de sustentabilidade, designado A.I.R. (abreviatura para avoid, intercept, redesign – evitar, intercetar, redesenhar), que fornece orientações que as casas de moda e os consumidores podem seguir, começando com escolhas do quotidiano, como evitar o uso de plástico, intervir para ajudar a controlar a acumulação de resíduos e redesenhar e reinventar para explorar soluções alternativas.

«A única forma de progredir, no futuro, será produzir segundo a previsão da procura», afirmou Gutsch, citando a impressão 3D como alternativa. Mas há outras soluções sustentáveis disponíveis, como consumir menos ou desenvolver produtos feitos para durar ou que imitem a natureza, sendo capazes de se desintegrar rapidamente.