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«O meu objetivo é crescer, ter cada vez mais escala»

Adepto da verticalização, que no caso inclui mesmo a produção de fibra, e de empresas com dimensão, que tenham capacidade para responder aos grandes clientes, o presidente da Polopiqué, Luís Guimarães, assume que o caminho da empresa que lidera se fará, provavelmente, pela Ásia.

Luís Guimarães

Em entrevista à margem da conferência digital “A indústria da moda em 2021/2022: o que esperar!”, Luís Guimarães revelou que, depois dos sinais positivos do primeiro trimestre do ano, em linha com igual período do ano passado, há novos projetos a serem concretizados, nomeadamente uma parceria na área da reciclagem de algodão.

Como vê o futuro da indústria têxtil e vestuário e, sobretudo, o da Polopiqué?

Como previ há uns anos, temos que ser grandes. Se não formos grandes perdemos dimensão, perdemos mercado, perdemos tudo, porque as grandes marcas querem cada vez mais encurtar o espaço de fornecimento, portanto temos de ter uma dimensão à escala deles. Em Portugal há definitivamente muitas pequenas e microempresas que trabalham para as grandes empresas, se assim lhes podemos chamar, mas que estão a fechar a cada dia porque se debatem com problemas fiscais enormes e são empresas que não têm formação suficiente para se poderem aguentar no mercado. E isso é um problema que tem vindo a acontecer. A nossa deslocalização para Marrocos dá-nos a escala que necessitamos. Não era o que eu mais gostaria, mas vai continuar a ser.

Tem aumentado a produção em Marrocos?

Tem, infelizmente. Digo infelizmente porque é mesmo infelizmente. Começámos com 30% em Portugal e 70% em Marrocos, andámos até 50%/50% e agora estamos ao contrário, estamos com 25% em Portugal e 75% em Marrocos. E penso que vai continuar a aumentar essa desproporcionalidade, porque o futuro próximo vai levar muitas empresas ao encerramento. Algumas já encerraram. Os números que o Governo apresenta de desempregados não é real – já está muita gente no desemprego, já se sente isso.

Como foi ano de 2020 para a Polopiqué?

Como temos várias áreas de negócio, umas tiveram melhores resultados e outras piores. Tivemos um decréscimo, no total, de cerca de 15% [para um valor superior a 90 milhões de euros]. Para mim foi bom, atendendo que tivemos dois meses – abril e maio – em que praticamente não faturámos.

Recuperar dois meses num ano era difícil, mas tivemos uma boa recuperação e uma das empresas, que até vinha com alguns problemas de trás, mais na área dos tecidos, teve um aumento significativo e este ano continua com esse aumento, o que para nós é ótimo. Portanto, tivemos problemas, mas não tantos graças à nossa diversificação, e ao mesmo tempo aconteceu que somos cada vez mais procurados. As pessoas saem de onde estão a trabalhar mas querem trabalhar com alguém que controle toda a cadeia de produto, e agora mais ainda por esta questão da sustentabilidade e da economia circular.

Nesse âmbito, revelou durante a conferência que a parceria que tem no Uganda para o algodão orgânico teve problemas na colheita do ano passado e isso tem causado dificuldades. Como está a superar esse obstáculo?

De facto, estamos com algumas dificuldades, vamos ver se nos aguentamos até ao resultado da próxima colheita. Tivemos que ir buscar algum algodão orgânico ao Burkina Faso e à Turquia, mas não há muitos mais países a produzir. O problema foi criado pela Índia, que na teoria produzia algodão orgânico, mas na realidade havia uma falcatrua de papéis que foi denunciada. Eu sabia dos números e sabia que era impossível, como todas as marcas dizem agora que até 2025 querem ter algodão orgânico. É impossível, porque a plantação de algodão orgânico requer uma formação muito grande aos agricultores e a própria cultura do algodão não é fácil, é das mais difíceis, a gente nunca sabe o que é que vai sair, só quando a casquinha abre. Aquilo pode estar tudo muito bonito, uma planta muito bonita, mas quando a casquinha abre pode estar cheio de bichinhos lá dentro e com o orgânico mais ainda.

Anunciou também uma parceria para a reciclagem de algodão. Em que consiste esse projeto?

É uma empresa com fundos americanos que fez uma sociedade com uma empresa espanhola que já tinha algum know-how na parte da reciclagem do algodão, mas num tipo de fiação, a fiação open-end, e queriam um parceiro para fiação em anel, que é o nosso caso, e com alguma dimensão. Fomos escolhidos porque na Europa não há uma empresa de fiação tão grande como a nossa. Mas isso vai obrigar-nos a investir mais ainda, porque vamos ficar com a exclusividade de fornecer o fio com a componente do algodão reciclado.

Qual é a ordem do investimento?

Isto foi concretizado na sexta-feira passada [9 de abril], portanto é tudo muito recente, mas vai passar pelo aumento da nossa fiação. Ao mesmo tempo, temos um problema, porque esta falta de matéria-prima vai-se agudizar e, portanto, nós, que normalmente não éramos autossuficientes em produção de fio – recorríamos sempre ao mercado, que está completamente em baixo e as perspetivas para os próximos meses e para o próximo ano são que continue dentro deste nível –, vamos ter que reforçar a nossa produção interna e, ao mesmo tempo, também reforçar essa produção para o algodão reciclado. Ainda vamos ter que pôr muitos números na mesa e fazer muitas contas.

A fiação de linho continua em stand by?

Está em stand by por todas estas condicionantes com a China e com tudo isto, agora mais ainda. É uma situação que vai ficar em stand by, não sei por quanto tempo, porque na têxtil é um bocado assim, de um momento para o outro temos que agir, não é reagir. E como temos que agir, ela está em stand by, está pronta, digamos, mas há outras preocupações e, neste momento, uma preocupação grande é a falta de matérias-primas. Se calhar vamos dar prioridade a essa parte.

Como começou 2021 e o que perspetiva para o resto do ano?

Para já, com os clientes que tenho, começou bem. O primeiro trimestre correu bem, melhor ou idêntico ao primeiro trimestre do ano passado – no primeiro trimestre do ano passado, até fevereiro, tivemos um crescimento muito grande, que penso que era generalizado. Em março caiu, mas em janeiro e fevereiro íamos com 30% a mais em comparação com a faturação do ano anterior, que já tinha sido alta. Este ano já estamos a acompanhar os números do início de 2020.

Há expectativa de crescimento ou de recuperação da queda?

Honestamente, penso que sim mas é difícil de prever. Sou otimista por natureza, mas não gosto de fazer muitas projeções porque, repare, de um dia para o outro fomos surpreendidos por uma pandemia. Eu costumo dizer: “vamos ver o que faço este mês”. Este mês está bom, no mês seguinte tenho boas perspetivas? Tenho, ótimo. O meu objetivo é crescer, ter cada vez mais escala mas vamos ver, este ano ainda depende de muitos fatores.

Em relação ao futuro, com as diversas alterações que se têm vindo a sentir, para onde vai caminhar esta indústria e a Polopiqué?

A Polopiqué penso saber para onde vai caminhar. Vamos ser um parceiro de grandes empresas a nível mundial, mas vou ter que deslocar o meu know-how para outros países, com mais produção, para poder chegar a esse momento. Não vou deslocar a empresa.

A empresa que existe continua e continuará a ser a empresa de onde sairão as pessoas formadas para podermos deslocar mais produção para países asiáticos, não tão dependentes da China.

O caminho é, então, para a Ásia?

Sim, pelo volume, pela escala, continuando a minha linha no seguimento da empresa, sim, passará por aí e até mesmo com esta nova parceria, vai ter que passar mesmo por aí.