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O mistério da Billabong

A Billabong teve um ano de 2012 tumultuoso, tendo recebido quatro ofertas e feito três advertências de lucro, uma mudança na direção e uma estratégia de transformação nos últimos 13 meses. A agitação começou em dezembro de 2011, com a empresa a lançar o primeiro dos avisos de lucro, destacando um abrandamento das vendas, sobretudo na Europa e Austrália. Em fevereiro, recebeu uma oferta da empresa de private equity TPG Capital que avaliou a empresa em 765 milhões de dólares australianos (587,15 milhões de euros). A oferta inicial de 3 dólares por ação melhorou para 3,3 dólares australianos, que foi rejeitada pela Billabong. Na altura, o principal acionista e diretor não-executivo Gordon Merchant, e a diretora não-executiva Colette Paull afirmaram não apoiar que a Billabong «dê algum passo para assistir ou facilitar uma proposta da TPG Capital, incluindo as devidas diligências sobre a Billabong, mesmo que o preço que a TPG Capital oferecesse fosse de 4 dólares por ação». Mesmo esse valor, afirmaram, «ainda representaria um desconto em relação ao verdadeiro valor das ações da Billabong». Ainda assim, a marca reabriu os seus livros novamente à empresa de private equity quando a mesma apresentou uma oferta de 1,45 dólares australianos por ação, que avaliou a empresa em 694 milhões de dólares australianos, no final de julho. A TPG abandonou essa oferta em outubro. Entretanto, foi feita outra oferta sem confirmação de nome mas que se suspeita ter sido da Bain Capital, de 1,45 dólares australianos por ação, que rapidamente foi rejeitada. Agora, o anterior responsável do negócio nas Américas da Billabong, Paul Naude, fez equipa com a empresa americana de private equity Sycamore Partners, oferecendo 1,10 dólares australianos por ação. E em meados de janeiro, a oferta foi equiparada por um consórcio com a VF Corp e a Altamont Capital Partners. A oferta da VF Corp/Altamont prevê a divisão da marca, com a gigante do vestuário a ficar com a marca Billabong e a Altamont a ficar com as outras marcas e bens. Para além das ofertas pelo negócio, a Billabong vendeu uma parte da sua marca Nixon, numa tentativa de angariar 225 milhões de dólares australianos através da emissão de ações, e nomeou a ex-diretora-geral da Target Australia, Launa Inman, como CEO. Em contrapartida, Inman criou um plano de transformação em agosto, quando a empresa viu o seu lucro anual descer 71%, para 16,1 milhões de dólares australianos. Para tanto interesse na empresa, nenhuma das ofertas progrediu para além das diligências necessárias. E até agora, não tem havido muita discussão sobre porque é que isso sucede. Segundo o analista do UBS, Ben Gilbert, a «falta de comentário sobre os motivos pelos quais as negociações terminaram não só alimentou preocupações relacionadas com a gravidade das questões já conhecidas dos investidores, mas também levantou receios sobre assuntos ainda não avaliados pelo mercado». Gilbert sugere que há três razões que podem levar os potenciais compradores a afastarem-se: o estado da marca Billabong, excesso de inventário ou outra questão que foi descoberta durante as diligências, mas que continua desconhecida para o mercado. O analista aponta cerca de 15 razões desconhecidas que podem ter emergido durante as diligências que podem afastar os compradores da mesa das negociações. As preocupações mais prováveis, afirma, é que os investidores não acreditam nos objetivos financeiros da empresa para o ano fiscal de 2016 e não acreditam na capacidade de revitalizar a marca Billabong. A estas questões seguem-se os problemas de preço e inventário – sobretudo que os volumes possam ser maiores do que os percecionados pelo mercado. Também sugere que pode haver uma perspetiva de «fracas previsões em termos de cenário macroeconómico nas principais regiões da Billabong» ou que os investidores podem não estar confortáveis com o modelo de negócio ou estratégia após as diligências, ou possa mesmo haver um prazo limitado para se prepararem. Adicionalmente, Gilbert especula que pode haver preocupações sobre se o grupo será capaz de se manter no seu objetivo de gasto de capital de 80 milhões de dólares australianos, preocupações com a equipa de gestão, a estratégia de saída dos investidores, o acordo da Nixon, a capacidade de sair de mais alugueres de loja, a estrutura vertical da empresa e o impacto da sua pegada no retalho nos acordos de vendas por grosso, patrocínios e acordos. Ainda assim, muitos observadores da indústria, e provavelmente os próprios gestores da Billabong, acreditam que uma reviravolta pode ser melhor gerida longe do escrutínio dos mercados. Contudo, o analista do Citi, Craig Woolford, não acredita que qualquer oferta seja aceite a 1,10 dólares por ação. «O conselho de administração da Billabong ainda tem de tornar a sua posição clara. É esquisito. O conselho achou que 1,45 dólares por ação desvalorizava a empresa há apenas alguns meses atrás», afirma, acrescentando que a renovação do conselho de administração e a nomeação de um novo presidente do conselho é «um ângulo positivo». Sobre as ofertas até à data, a da VF Corp/Altamont é a que tem mais probabilidades de avançar, acredita Gilbert, devido às sinergias operacionais que podem ser encontradas entre a Billabong e a VF Corp, que tem uma forte presença nos sectores de outdoor e sportswear de ação. O analista sublinha que esse foco no outdoor e desportos de ação, em combinação com a sua excelência operacional e experiência no mercado, tornam-na na mais forte concorrente para comprar a marca de surfwear até agora. Para Inman, que está a tentar dar a volta ao negócio, a interrupção constante com conversas de compra tem de ser perturbadora. Em novembro, em entrevista para a Smart Company, a CEO afirmou estar «satisfeita que a decisão tenha sido tomada de uma forma ou de outra – não é fácil viver com a incerteza. Prejudica e realmente lutei para manter a minha equipa e eu própria o mais focada possível. Foi um teste mas agora temos de nos centrar e focar-nos no negócio». No entanto, com as diligências da VF Corp e da Sycamore Partners a deverem continuar até março, há pelo menos mais umas semanas de incerteza pela frente.