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O novo leste – Parte 1

Desde o colapso da União Soviética, a Europa de Leste tem evoluído rapidamente, construindo uma poderosa nova identidade, influenciada simultaneamente pelo seu passado comunista e pelo súbito afluxo de cultura ocidental.

Em 1991, depois de sete décadas de regime comunista, Mikhail Gorbachev, o último líder da União Soviética, declarou: «Estamos agora a viver num mundo novo».Para a Europa de Leste, os anos de afastamento do oeste, por trás da Cortina de Ferro, deixaram um legado cultural duradouro. Tendo-se desenvolvido isoladamente, os países da Europa de Leste formam uma identidade cultural única, separada dos seus vizinhos ocidentais. Apesar do afluxo repentino de cultura ocidental, 25 anos depois do colapso da União Soviética, o legado comunista ainda paira e é esta fusão única do socialismo de leste e do capitalismo de oeste que confere ao novo leste um caráter distintivo.

O Leste encontra o Oeste
A expansão contínua da União Europeia (UE) junto dos países da Europa de Leste é um importante fator, que contribui para a crescente influência do novo leste.Unificando gradualmente a Europa Ocidental e Oriental, desde o colapso da União Soviética, a UE forjou laços políticos e económicos que, por sua vez, se converteram em fronteiras abertas ao intercâmbio cultural. Desde a integração principal em 1994, a influência da Europa de Leste foi inundando os países ocidentais e, da mesma forma, o olhar da Europa Ocidental começou a focar-se no leste, à medida que o interesse pelo que permanece ainda, em grande parte, inexplorado desperta pela promessa de descoberta cultural.

Revolução Digital
Apesar da libertação do domínio soviético, para muitos daqueles que vivem no antigo Bloco de Leste foi a chegada da internet – caótica, mas democrática – que realmente abriu o leste ao resto do mundo. Para uma região que procura, ainda, encontrar o seu caminho entre as pesadas estruturas desenvolvidas no âmbito da burocracia estatal, a internet representa a liberdade e tornou-se um espaço para protagonistas do novo leste se fazerem ouvir e contornar a censura.

Embora as restrições à imprensa continuem a moldar o panorama dos media, inumeráveis redes online e projetos criativos emergem, desde o Quirguistão à Bielorrússia, passando pela Bósnia.Na Ucrânia, onde grande parte dos media permanece fortemente controlada pelo Estado, a internet é surpreendentemente anárquica, com uma ampla variedade de sites criados por motivos políticos, como o Stop Fake, que pretende expor a desinformação dos media, e o Corrupt UA, que expõe a má conduta social e política. Na Rússia, apesar das novas leis restritivas destinadas a enfraquecer a oposição política online, projetos como o website radical looo.ch (na Rússia, acessível apenas através de servidores proxy) ou o agregador de notícias independente em língua russa Meduza (com base na Letónia), continuam a usar a internet como uma forma de comunicar. Defendendo a imprensa livre e os valores liberais, sites como o Liberali na Geórgia e o Kloop no Quirguistão fornecem plataformas abertas à discussão política, enquanto o grupo de media satírica da Sérvia, Njuz, garante independência política inteligente, aceitando financiamento norueguês.

Vozes das profundezas
O crescimento digital da Europa Oriental não está apenas reservado aos conteúdos de índole política, mas proporcionou, também, uma plataforma para a nova geração dissipar as perceções negativas do mundo pós-soviético. Plataformas jovens, orientadas para o meio cultural, como o Dog City e 34 Mag, baseados na Bielorrússia, e a revista Balkanist, em língua Inglesa, estão a reescrever os estereótipos da Europa de Leste, imergindo na cultura vibrante do novo leste.

Na Bósnia, através de sites focados na arte, como o Yugopapir e Filmofil, os media online são usados para celebrar a cultura do país, revivendo um rico património esquecido sob o peso da política e da guerra, enquanto sites como o My Video – resposta da Geórgia ao YouTube – transformam a forma como o conteúdo televisivo é criado e consumido através da partilha de vídeos gerados pelo utilizador.Em paralelo, novas redes de media na Europa Ocidental procuram desvendar a cultura do leste europeu contemporâneo. Com sede em Londres e criado em 2013, o Calvert Journal recorre a uma rede de colaboradores de forma a fornecer um guia criativo do novo leste. Da mesma forma, o New East Network do periódico britânico The Guardian, criado em 2014, recorre a especialistas regionais, procurando clarificar o novo leste, num momento crucial da história cultural e política do mundo pós-soviético.

Cena fanzine
Em maior proximidade, o renascimento da autopublicação ou “Samizdat” proporciona uma saída não filtrada e crua da criatividade e ideias. Popular durante a era soviética, como uma forma de contornar a censura, a cultura fanzine está de regresso, permitindo que artistas e pensadores do novo leste mantenham a liberdade criativa.Na sequência do fanzine, que criou para acompanhar a sua coleção de 2009, Aglec, o designer Gosha Rubchinskiy desenvolveu uma série de publicações que expõem as subculturas juvenis na Rússia pós-soviética, que têm, por sua vez, inspirado jovens criativos a estrearem-se na autopublicação.

Entre os mais convincentes, figura o jornal fotográfico Russia Without Us, agregando contribuições de toda a Rússia, a fim de criar um diário da geração nascida na viragem da década de 1990. A segunda parte do artigo aborda a relevância do papel desempenhado pelas novas gerações na construção e divulgação da essência do novo leste, que através das mais diversas expressões artísticas retratam o presente do Bloco de Leste.