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O novo rumo da ITV argentina

O crescimento da indústria têxtil e vestuário da Argentina deverá estagnar este ano, em resultado da queda do consumo, exportações e lucros. Mas há ainda quem continue a acreditar no sector, multiplicando esforços e somando iniciativas para o seu reflorescimento.

«Existem boas expectativas de crescimento para os próximos anos», disse Claudio Drescher, recém-eleito presidente da Câmara Industrial Argentina do Vestuário (CIAI), que vem substituir José de Mendigurenque, assumindo um mandato de dois anos. «Todos os candidatos têm planos fortes para apoiar e fomentar o crescimento da indústria argentina e as nossas propostas têm sido bem recebidas».

O sector, avaliado em 8 mil milhões de dólares, solicita ao futuro governo, que será eleito a 25 de outubro, a disponibilização de um fundo de 600 milhões de dólares a aplicar na modernização da produção, que está 30% aquém do valor desejado, tendo em vista a produção de vestuário de qualidade para exportação, disse Drescher.

O futuro presidente da Argentina, que segundo sondagens recentes deverá ser o candidato Daniel Scioli, deverá prosseguir a aplicação de políticas de auxílio às promissoras marcas de vestuário argentinas que, no entanto, enfrentam graves restrições financeiras.

Aposta no desenvolvimento

«Estamos em condições de desenvolver marcas que podem competir com sucesso regional e internacionalmente», disse Drescher, proprietário da linha de exportação feminina Jazmin Chebar. «Necessitamos de um banco de desenvolvimento que auxilie as marcas que pretendem entrar no México, Chile ou Colômbia, emprestando fundos para a inauguração de lojas».

Ao contrário do Brasil ou México, a Argentina não dispõe de um banco de desenvolvimento para a garantia de empréstimos privados, acrescentou Drescher.

«Os nossos trabalhadores cobram 1.200 dólares por mês, cinco vezes mais face aos custos praticados na Ásia», explicou. «Devemos apresentar uma qualidade superior de forma a compensar essa diferença. Necessitamos de melhores equipamentos, máquinas e tecnologia».

O novo presidente deverá, também, facilitar a burocracia de importação e liberalizar o comércio, aumentando a eficiência na aquisição de matérias-primas e a possibilidade de exploração de novos mercados de exportação.

No entanto, considera que determinadas afirmações sobre os efeitos nocivos da agenda protecionista do governo sobre as importações são «totalmente exageradas».

Reclamações permanentes

«Os argentinos sofrem do síndrome de reclamação», disse Drescher. «Quando falamos com um homem de negócios, a primeira coisa que ele faz é reclamar. Faz parte da cultura».

Contrariando algumas opiniões que alegam que o «protecionismo perverso» e «burocracia exagerada» têm limitado as possibilidades de expansão das empresas de vestuário argentinas, Drescher afirma ter sido capaz de expandir a Jazmin Chebar na arena internacional. «O sistema funciona, ainda que não tão rapidamente como deveria».

Por agora, no entanto, as perspetivas da indústria permanecem pouco otimistas, com a previsão de crescimento a manter-se estável ou superando apenas ligeiramente as expectativas traçadas, dependente do desempenho natalício, face a um ganho de 3,5% no decorrer do ano passado, durante o qual a indústria somou 8 mil milhões de dólares.

As exportações deverão cair de forma acentuada, face aos 800 milhões de dólares auferidos em 2014, em consequência dos problemas económicos sentidos no Brasil, o principal parceiro comercial do país. As margens operacionais caíram, também, 2%, disse Drescher.

Julieta Lastou, economista da Fundacion Protejer, um lobby têxtil argentino, afirma que o sector requer novas regras que «regulamentem, ao invés de restringirem» a importação de insumos e medidas sociais que protejam os trabalhadores.

A cadeia têxtil e de vestuário emprega cerca de 2 milhões de funcionários, dos quais 500.000 operam diretamente na indústria, de acordo com dados divulgados pelas unidades sindicais.

Investimento no sector

«Pretendemos bloquear a entrada de vestuário confecionado em países nos quais os trabalhadores auferem 200 dólares mensais, em comparação com os 1.600 dólares mensais auferidos aqui», disse Lastou, acrescentando que os regulamentos fitossanitários devem, também, ser introduzidos. Lastou concorda que as reclamações face ao protecionismo em curso são exageradas, acrescentando que estas se tornaram um mito.

«Todos os sectores enfrentam dificuldades na importação ocasional de matérias-primas, mas isso não significa que todo o mercado seja fechado», disse. «[A Argentina] surge na 41º posição do ranking mundial em termos de barreiras ao comércio, com cerca de 10 regulamentos, mas os EUA têm muitos mais e ninguém os considera um mercado protecionista».

Lastou diz que o regime de exportação de têxteis, ao qual se impõe uma tarifa de 5%, deve ser racionalizado e devem ser apresentadas medidas de incentivo ao emprego formal.

«Necessitamos de mais parques, ao invés de pequenas unidades que são ineficientes e empregam funcionários de fabricação informais », acrescentou Lastou.

Estas unidades alimentam a indústria de vestuário paralela da Argentina, que responde por 20% das vendas de vestuário, na qual muitos trabalhadores operam sob condições de exploração.