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O novo sul – Parte 2

O “Sul profundo” parece recuperar o brilho de outrora, ou melhor dito, um novo brilho, guardando o melhor das suas tradições e costumes passados mas com os olhos voltados para o futuro (ver O novo sul – Parte 1) Fashion Forward Apesar de o denim ter o papel principal nos produtos design desenvolvidos na região, está em formação uma nova estirpe de designers contemporâneos. A presença do ponto cardeal sul é o elemento comum a todos eles, aproximando as idiossincráticas manifestações artísticas que emergem neste território de fusão. As irmãs Darlene e Lizzy Okpo fundaram a William Okpo em Nova Iorque há oito anos e, em 2014, mudaram-se para Nova Orleães. As irmãs Okpo, em colaboração com as designers locais Armina Mussa e Solange Knowles, criaram a Exodus Goods, uma boutique de roupa e acessórios femininos recheada de produções locais e independentes. A marca Hazel and Florange, também da autoria de um duo de designers sediadas em Nova Orleães, utiliza materiais reaproveitados na sua coleção de acessórios, ainda que, tenham sido os seus reconhecidos estampados a granjear-lhes louvores da imprensa. Na moda homem, o destaque vai para a coleção da Read Wall que produz séries limitadas, disponibilizando opções de customização. O designer de Atlanta, Afriyie Poku, foi aprendiz de um mestre alfaiate antes de lançar a sua própria coleção, inspirada na sua herança genética ganesa e sulista. A Origin Watch Co., localizada em Memphis (Tennessee), funde clássicos da produção sulista com componentes suíços, criando relógios únicos que reúnem um grupo de seguidores fiéis no sudeste do país. Artistas em ascensão Com tanto talento artístico gerado a sul, é impossível escolher um favorito. Porém, alguns artistas estão a gerar um burburinho especial na sua passagem pelo universo underground. Faham Pecou é um artista visual que usa a dança, a escultura e a pintura para interpretar «representações contemporâneas da masculinidade negra». Michael Porten destaca-se entre o movimento Pop Art contemporâneo, inspirando-se em figuras tão díspares como Voltaire e Vonnegut. Expressando-se maioritariamente através das palavras, as representações artísticas de Nikita Gale «questionam a forma como as ideologias da história e do capitalismo são consumidas pelos indivíduos». Lina Tharsing inspira-se na sua herança pessoal com origens no Kentucky para criar murais de pequena e grande escala, assim como colagens, num produto de fusão entre o imaginário sulista e a iconografia contemporânea. Boom de negócio O meio artístico não é o único em transformação, já que o universo corporativo atravessa também um momento de reconceptualização. Num movimento rumo a sul, que teve início em 2008, empresas estrangeiras, como a BMW, Toyota e VW, escolheram essa região para aí fixarem unidades industriais. Estados como o Kentucky, Tennessee, Alabama, Mississippi, Carolina do Sul, Geórgia e Texas são denominados pelos investidores estrangeiros de “Little Eight, mas, apesar do nome jocoso, que alude aos oito constituintes do “Sul profundo”, tornaram-se essenciais ao investimento e alteraram o panorama económico da indústria automóvel nacional. Recentemente, a Mercedes-Benz transferiu a sua sede de Nova Jérsia para o estado da Geórgia, cedendo aos 23 milhões de incentivos que incluem benefícios nos impostos estatais e fundos de desenvolvimento. Nashville gastou 50 milhões de dólares na transferência da sede californiana da Bridgstone Tire, naquele que é o investimento mais importante feito pelo estado do Tennessee. Todavia, a indústria automóvel não é a única a reconhecer o encanto do Sul. A Carolina do Sul lidera entre os estados com mais postos de trabalho associados a empresas estrangeiras e recebeu, nos últimos quatro anos, 6,7 mil milhões de dólares em investimentos provenientes de empresas alemãs, francesas, chinesas e japonesas destacadas na região. As empresas estrangeiras intervêm em áreas tão diversas como o fornecimento de material médico a distribuidores de bens alimentares. O “Little Eight” tem atraído também empresas da área da cosmética, como a L’Oreal e a Schwan Cosmetics, e indústria do mobiliário, provando que o boom de investimento e negócio no Sul não denota sinais de abrandamento. Vida moderna O design de interiores e lifestyle foi também alvo desta reconceptualização criativa da região. Baseado no Arkansas, os estúdios de arquitetura deMx Architecture apostam no «modernismo vernacular [que] reflete o uso racional de materiais e responde ao contexto». Para Tim Noble, o fundador, isto significa fazer um reaproveitamento máximo dos materiais, enquadrando o design na paisagem natural do Sul. A designer de interiores Melissa Miles Rufty deixa-se também inspirar pelas influências clássicas do Sul, acrescentando-lhes peças de índole moderna, como folhas de magnólia concebidas em cerâmica, que combinam o passado e o presente. A coleção de papéis de parede, almofadas e tecidos da designer Amanda Talley, integra as vibrantes representações das tribos nativo-americanas do sul dos Estados Unidos. O vasto ecossistema sulista inspira Heather Knight que, através da sua empresa de cerâmica, produz elementos decorativos variados, desde azulejos a peças de louça. A coleção de azulejos Textural Wall inspira-se na vida marinha local, tomando as ostras, algas e corais como o mote desta serie. O Sul está vivo O Sul transformou-se numa singular incubadora de criatividade. Longe vão os períodos conturbados da sua história que estão, porém, arreigados à atmosfera propiciadora da região, que atrai e inspira as indústrias criativas, instigando-as a fixarem-se. O “Sul profundo” reconceptualizou-se. Os ventos de suão sopram agora de forma diferente e trazem consigo a força da mudança, da contemporaneidade e da integração entre o património rico da terra e as influências do exterior.