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O novo uniforme americano

Leggings, t-shirts e jeans – o clássico uniforme americano está diferente. Os essenciais que caracterizavam um guarda-roupa de estética americana evoluíram ao longo dos anos, mas os motivos que conduziram a essas mudanças não desvirtuaram muitas das razões de outrora.

De acordo com a historiadora de moda Deirdre Clemente, que tem vindo a debruçar-se sobre o estilo americano – desde os looks colegiais ao vestuário de trabalho –, os americanos começaram a encontrar a sua estética no final da II Guerra Mundial. A “separação” da Europa permitiu que os americanos se afastassem de um sistema de moda prescrito pelos europeus.

«Uma das coisas que define o estilo americano em oposição ao europeu, que tem um sistema de classes muito mais rígido, é que os americanos tendem mais para o vestuário da classe média, e isso tornou-se progressivamente verdade ao longo do século XX e no século XXI», explica Deirdre Clemente ao portal de moda Fashionista. «Com início na década de 1930, vestir-se como alguém endinheirado tornou-se pouco “cool”».

A definição da historiadora de moda de um guarda-roupa americano resume-se a praticabilidade e versatilidade. O vestuário de trabalho, que geralmente está ligado à estética americana, abarca precisamente essas duas categorias. «O estilo americano está enraizado no vestuário de trabalho – desde os jeans às camisas de flanela», afirma Brian Trunzo, editor sénior de moda masculina no portal WGSN. Para Trunzo, marcas de herança como a Carhartt, Pendleton, Dickie e Levi’s são algumas das favoritas dos americanos e definem a estética do guarda-roupa. Os jeans, revela Deirdre Clemente, eram usados por prisioneiros na década de 1930, pela sua durabilidade, assim como por cowboys e fazendeiros.

Qual é o estilo americano?

De acordo com a Marketwatch, a indústria de vestuário nos EUA caiu mais de 80% desde a década de 1980. As fábricas têxteis também encolheram cerca de 50% desde 2000.

Agora, com a posição anti-imigração da administração Trump, o regresso da produção de vestuário aos EUA – atualmente alimentada por imigrantes qualificados (ver Imigrantes fazem da América grande) – é bastante desafiante.

Na moda feminina, a estética americana sempre seguiu um estilo de vida mais ativo – casual e funcional, aponta Hazel Clark, professora de estudos de moda e design na Parsons.

O grupo NPD sugeriu a propósito a expressão “spashion” – hibridismo que funde moda e activewear e que consumiu quase todo o guarda-roupa americano –, para caracterizar o estilo americano atual.

Brian Trunzo reconhece também esse cruzamento de influências. «Acho que a estética americana ainda está enraizada no vestuário de trabalho – e sempre estará enraizada no vestuário de trabalho – mas, está a ser cada vez mais influenciada por muitas outras coisas», esclarece.

Neste terreno fértil acabaria ainda por nascer o sucessor da estética normcore (ver Unissexo atinge retalho): o gorpcore, resultado do peso crescente de marcas de outdoor como a Patagonia, The North Face e Columbia no guarda-roupa dominados por propostas de alfaiataria. «Acho que esse será o vínculo entre a estética americana tradicional e a nova era do vestuário de performance», considera Trunzo.

Então, qual é o novo estilo americana? O streetwear? O spashion? O gorpcore?

«Há muitas variações interessantes porque este país não é monocultural», afirma Hazel Clark. «É o que tem sido fascinante sobre este país nos últimos 100 anos. Tem sido verdadeiramente multicultural, multiétnico e multirracial e isso também está presente nas diferentes abordagens à estética americana», conclui.