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O orgulho espanhol é o novo preto

Os jovens designers espanhóis estão a reclamar a sua identidade. As tradições, a religião e até a cor preta – que, nos últimos séculos, era associada à monarquia espanhola – são as inspirações dos designers cujas criações estão em exposição na capital espanhola até 3 de março.

A mostra “Modus”, atualmente patente na Sala Canal de Isabel II, em Madrid, explora a influência da história e das tradições espanholas na moda mundial, incluindo nos designers emergentes. «Vivemos um momento muito importante [em Espanha], com designers como Palomo Spain, Leandro Cano e ManeMane a reclamar a posição de Espanha na moda», explica o curador da exposição, Raul Marina, à AFP. «Os jovens designers estão novamente a dar nas vistas e estão a fazê-lo totalmente inspirados em Espanha», afirma.

O regresso do preto

A cor preta, por exemplo, é associada à elegância francesa, tendo como referência o vestido de 1920 da Coco Chanel. No entanto, o seu uso na moda remonta à Espanha do século XVI. Antes disso, era uma cor difícil de usar. Depois de muitas lavagens ou de muito uso, a tonalidade perdia-se e tornava-se ou cinzenta ou acastanhada. Contudo, quando Espanha conquistou o continente americano, mais especificamente o México, ainda no século XVI, os espanhóis descobriram uma árvore chamada Palo de Campeche, que tinha um segredo: a partir da sua madeira, poderia ser produzida uma tinta preta, intensa e duradoura. Na altura, a Espanha era uma grande potência política e económica. O rei Filipe II adotou a cor preta como sua e a tendência rapidamente se espalhou. A monarquia espanhola era «uma referência para os seus homólogos europeus, bem como a capa negra, que se tornou uma marca da máxima elegância», escreve, no catálogo da exposição, Amalia Descalzo, especialista em História da Moda na ISEM Fashion Business School.

Cristobal Balenciaga

Designers espanhóis e internacionais, como Cristobal Balenciaga, abraçaram o preto nas suas criações e os jovens criadores de moda também o fazem hoje, com a sua abordagem própria. Tal é verificado na exposição na Sala Canal de Isabel II, onde está o corpete e a saia preta de ManeMane, que se completam com um chapéu típico da região da Extremadura, local de nascimento do criador da marca, Miguel Becer.

No mesmo século em que promoveu o preto, Espanha também criou o “verdugado”, uma estrutura que se utiliza por baixo da saia, segurando-a de forma elegante, que acabou igualmente por se tornar tendência por toda a Europa. Mais tarde, a nação espanhola lançou outra tendência, a “guardainfante”, uma armação de aros de metal, colocada ao redor da cintura. «Dizem que escondia as gravidezes das mulheres», conta Raul Marina. A peculiar “guardainfante” foi imortalizada na obra prima de Diego Velazquez, “Las Meninas”. A influência é visível no vestido de veludo amarelo do estilista Juanjo Oliva, que também faz parte da exposição.

Touradas e flamenco

Além do preto, duas das exportações espanholas mais famosas são o flamenco e as touradas, que inspiram designers de muitos países. Exemplo disso é um casaco da Givenchy, inspirado nos casacos dos toureiros, com bordados vermelhos e pérola.

Outro exemplo é um vestido negro da Lavin, às bolinhas, que bebeu influências no tradicional flamenco do sul de Andaluzia. «É dito frequentemente que os designers internacionais absorveram mais e têm mais orgulho da cultura espanhola do que nós», observa o curador da exposição, mas ressalvando que tal está a mudar.

Palomo Spain

Prova disso são os trabalhos de Palomo Spain, por exemplo – cujo vestido florido foi usado por Beyoncé, em 2017, na sua primeira sessão fotográfica com os seus recém-nascidos – e que tem em exposição um vestido curto branco de seda. Outro exemplo é um vestido branco de Leandro Cano com motivos floridos, inspirado no Rei Filipe III. Já as criações de ManeMane congregam influências do trabalho artesanal da Extremadura.

O despertar

A consultora de moda Marta Blanco refere que há um «despertar» numa indústria que, recorda, foi marcada pela ideia de que «qualquer coisa preta era uma referência ao regime de Franco».

Leandro Cano

Não obstante, 43 anos depois da morte do ditador de extrema direita, Francisco Franco, a ideia parece estar a esvanecer-se. «Alguém como Leandro Cano pode inspirar-se nas touradas espanholas, nas imagens religiosas… sem evocar o fascismo», exemplifica Marta Blanco. A consultora de moda acredita que há também um «despertar» nos consumidores, que se sentem «orgulhosos» do seu próprio país. O célebre chefe de cozinha espanhol Ferran Adria revolucionou globalmente a gastronomia; Espanha venceu o Campeonato do Mundo de Futebol de 2010, o Campeonato Europeu de Futebol de 2008 e de 2012; Rafael Nadal é uma grande estrela do ténis; a marca espanhola Zara está presente em todo lado… «Isso dá-nos poder», confessa Marta Blanco. «Ferran Adria libertou-nos das nossas inseguranças e o mesmo está a acontecer, atualmente, com a moda», garante.