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O papel da tecnologia na transição digital

Quer seja para alcançar uma maior sustentabilidade, simplesmente melhorar a eficiência dos processos ou servir novos modelos de negócio, as tecnologias digitais, nomeadamente as portuguesas, estão a impulsionar a ITV para o futuro.

António Rocha

«As tecnologias digitais são fundamentais para estas transformações, nomeadamente ao nível do impacto ambiental e da sustentabilidade», garantiu na iTechStyle Summit José Carlos Caldeira.

Usando a sua experiência na plataforma europeia Manufuture, o administrador do INESC TEC salientou, contudo, que as tecnologias são atualmente tão importantes como as estratégias de produção e os novos modelos de negócio, nomeadamente «a questão da integração dos consumidores nos novos processos produtivos e de design, o papel crescente e cada vez mais importante dos operadores, a questão da flexibilidade da resposta rápida, questões de economia circular e os novos modelos de negócio, que resultam da utilização de tecnologias digitais», enumerou.

«O que as empresas são agora confrontadas é com, simultaneamente, um admirável mundo novo e uma grande dor de cabeça, que é necessidade de olhar para um conjunto diversificado de tecnologias digitais, algumas novas, outras que já existem, e perceber como podem convergir para melhorar aquilo que fazemos ou transformar completamente aquilo que fazemos», explicou o o administrador do INESC TEC. «Robótica, sensores, inteligência artificial, há uma panóplia de coisas. São tecnologias que já existem há muitos anos e as empresas de engenharia já as utilizam há muitos anos.

José Carlos Caldeira

O que é que é novo? O que é novo é o nível de performance destas tecnologias, a evolução que elas tiveram», em termos de custos mais acessíveis, mas também a «possibilidade de combinar várias destas tecnologias para fazer sistemas novos», destacou.

Uma área onde, considera, Portugal está bem servido. «Já temos uma fileira muito interessante, com empresas muito competitivas, que desenvolvem e comercializam tecnologias digitais e tecnologias de produção para os nossos sectores industriais, nomeadamente para o sector do têxtil e da confeção», realçou José Carlos Caldeira.

PlatformE quer reinventar moda

Os intervenientes que se seguiram deram-lhe razão. A PlatformE tem-se destacado por oferecer serviços e tecnologias para a digitalização da moda, quer com a criação em 3D de produtos que não têm existência na realidade, quer com a integração dos mesmos em pontos de venda ou com a intervenção ao nível da cadeia produtiva. «Reinventamos o modelo de produção da moda, basicamente adaptando o que outras indústrias fizeram. Quando se compra um carro, o carro não existe, não há stock. Vamos a um concessionário, podemos ver um modelo, podemos fazer um test-drive mas depois entramos num site para customizar. Depois o carro demora alguns meses a chegar. Na moda são alguns dias ou semanas», comparou Gonçalo Cruz, CEO e cofundador da PlatformE.

Gonçalo Cruz

A tecnologia oferecida pela empresa permite também combater o excesso de produção. «Não conhecemos uma única marca no mundo que tenha esgotado as suas coleções. Podem esgotar produtos específicos, mas são eventos pontuais. Nenhuma marca no mundo vende consistentemente 100% dos seus produtos, o que significa que há sempre desperdício. Produtos que são destruídos, incinerados, que vão para aterro. Esse modelo de negócio choca-me, enquanto ser humano. Temos de mudar. E sustentabilidade sem digitalização é impossível. Não podemos ser mais sustentáveis se continuarmos a fazer as mesmas coisas», apontou.

Luxclusif aposta na sustentabilidade

Na mesma vertente sustentável, a Luxclusif posicionou-se na área da revenda, para já apenas com malas de luxo, embora, até por impulso da Farfetch, que adquiriu a empresa no final do ano passado, preveja alargar o seu âmbito.

«Basicamente queremos ligar revenda, economia circular e sustentabilidade através da tecnologia. Estamos muito focados em malas de luxo, neste momento, mas queremos crescer para outras categorias. Queremos ser uma plataforma global que liga marcas, retalhistas, fornecedores e compradores através de tecnologia», elucidou Bruno Santos, diretor de tecnologia da empresa.

Bruno Santos

As soluções da Luxclusif respondem às preocupações das marcas de luxo, que «querem controlar o stock que existe, não querem perder identidade de marca, querem assegurar-se que os produtos têm o preço certo, portanto, querem controlar a parte da revenda dos seus produtos, o que é um desafio», confessou Bruno Santos. Ao mesmo tempo, também a autenticidade é comprovada pela Luxclusif antes de colocar os artigos à venda. «Temos uma equipa operacional que trata da autenticação e reparação, se for necessário, e temos uma equipa de sourcing que assegura que a nossa oferta de produtos é aquilo que o mercado quer», indicou o diretor de tecnologia da empresa, que conta atualmente com cerca de 160 funcionários, mais de 120 clientes, armazéns próprios e processa cerca de 250 malas por dia, a um preço médio de 600 dólares, sendo que 60% das vendas são para os EUA.

Smartex evita desperdício

Já a Smartex está focada na inteligência artificial e em como esta tecnologia, cujos primórdios remontam ao final da II Guerra Mundial, como salientou António Rocha, cofundador e CTO da empresa, pode ser aplicada à indústria têxtil.

Rahel Krause

«Propomos uma solução com base em inteligência artificial, um sistema que podemos instalar em teares circulares que deteta os defeitos imediatamente na produção, evitando que aconteçam parando imediatamente a máquina», resumiu, adiantando que os sistemas da Smartex, que têm por base machine learning, «uma técnica que usa dados para aprender», estão já implementados em diferentes países, como Portugal e o Paquistão.

Fora de Portugal, uma investigação do Institut für Textiltechnik (ITA) da Universidade RWTH Aachen University, que contou com a participação da empresa alemã Hollmann, desenhou «uma cadeia digital para a produção segura de EPIs personalizados», revelou a investigadora do ITA, Rahel Krause. A personalização, feita através do bordado, é controlada, com a alimentação do material, ao nível da tensão da linha, por exemplo, a ser automatizada por um processo de monitorização em tempo real.