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O peso da moda na atmosfera

No que à emissão de gases de efeito de estufa diz respeito, a indústria da moda é tão poluente como a Rússia. Os dados foram avançados e analisados num painel sobre alterações climáticas organizado pela EcoSessions, durante a Climate Week, que decorreu de 18 a 24 em Nova Iorque.

«O sector do vestuário é aquele em que mais incerteza há sobre qual é exatamente o seu impacto», afirmou Nate Aden, membro do World Resources Institute, ao portal Fashionista. «O número mais próximo que temos até agora são cerca de 5% das emissões de gases de efeito estufa globais. Para termos uma perspetiva, isso equivale ao impacto do sector da aviação. Ou, em termos de país, é igual à Rússia. Por isso, é bastante significativo», explicou.

De 2000 a 2014, a produção global de vestuário duplicou, à medida que as operações das empresas de vestuário se tornaram mais eficientes, os ciclos de produção mais rápidos e as amantes de moda foram adquirindo cada vez mais artigos por menos dinheiro.

De apenas algumas coleções por ano, retalhistas como a Zara oferecem atualmente mais de 20. Desta forma, mais de 150 mil milhões de novos artigos de vestuário são produzidos anualmente e os consumidores olham hoje para a roupa como algo descartável – é a denominada moda rápida, que termina o seu ciclo em aterros sanitários (ver O espelho do planeta).

Em Nova Iorque, Nate Aden juntou-se à designer Mara Hoffman, à fundadora da marca Zady, Maxine Bédat, à diretora de negócios sustentáveis da H&M, Vanessa Rothschild, e à fundadora da EcoSessions, Kate Black, partilhando a sua visão sobre o impacto da indústria da moda no meio ambiente e sobre o que pode ser feito para redirecionar esse impacto para um fim positivo.

Todos os envolvidos no painel concordaram que, embora existam inúmeros fatores contribuintes, o aprovisionamento das matérias-primas está no topo da lista. Para Mara Hoffman, que começou a focar a sua marca de 17 anos nas práticas amigas do meio ambiente há cerca de dois anos, mudar para poliamida reciclada na linha de swimwear foi o primeiro passo.

«Quando tivemos sucesso nisso e percebemos que poderíamos facilmente fazer essa mudança sem perder a resposta emocional da nossa cliente, tivemos a confiança necessária para alargá-la ao nosso pronto-a-vestir», confessou.

Vanessa Rothschild, por sua vez, revelou que a H&M se comprometeu a utilizar apenas materiais sustentáveis ou reciclados no seu vestuário até 2030, enquanto Maxine Bédat destacou que a Zady, como empresa mais jovem das três, teve o privilégio de iniciar a sua cadeia de aprovisionamento já com a ética ao centro.

Problemas e soluções

Ainda assim, Nate Aden advertiu que selecionar os “têxteis mais éticos” pode ser uma tarefa inglória, uma vez que é difícil avaliar o impacto negativo de algo como a produção têxtil sintética versus a quantidade de água necessária para cultivar algodão.

Não obstante, Maxine Bédat apontou que a emissão de gases de efeito estufa, embora significativa, não é a única preocupação quando se trata do meio ambiente.

As micropartículas plásticas que ficam nas águas depois da lavagem dos têxteis constituem uma parte significativa da “sopa de plástico” que está a poluir mares e rios – representando entre 15% a 31% dos 9,5 milhões de toneladas de plástico depositados nos oceanos todos os anos, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (ver Vestuário nas ondas da poluição).

A este propósito, Vanessa Rothschild observou que, no início deste ano, a H&M apresentou a coleção de vestuário Conscious Exclusive que incorpora o “bionic”, um tecido de poliéster sustentável fabricado a partir de resíduos plásticos recolhidos da zona costeira (ver Nike e H&M unem-se na economia circular), e Nate Aden sugeriu que uma parceria efetiva com outras partes interessadas, como os fabricantes de máquinas de lavar roupa, poderia fomentar novas soluções para manter essas micropartículas plásticas longe dos oceanos. Os fabricantes de máquinas de lavar roupa poderiam contribuir instalando filtros capazes de reter micro e até nanopartículas de plástico, por exemplo.

Aden, membro do World Resources Institute, realçou ainda que a educação do consumidor é um fator crucial para o sucesso de muitas destas iniciativas.

Algo tão simples como a utilização de água fria em vez de quente na máquina de lavar tem um impacto considerável nas emissões envolvidas na vida útil de uma peça de vestuário, porque a energia utilizada para aquecer a água é forte em emissões.