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O peso da sustentabilidade

Esta mensagem por parte da indústria têxtil e vestuário chinesa foi apresentada numa conferência “Integral Conversation”, realizada na província de Guangxi, na China, em novembro último, e foi defendida pelo Esquel Group, especialista em vestuário. A sustentabilidade significa aumentar os custos, mas isso não implica que as empresas chinesas devam deslocar-se para destinos mais baratos, defendeu John Cheh, CEO da Esquel. Até ao momento, a Esquel diminuiu a sua Carência Química de Oxigénio (CQO) para 50 ppm em média nas descargas de água, inferior ao padrão de 80 ppm exigido na China, tendo investido 12 milhões de dólares na instalação de tecnologia para atingir este objetivo. Quanto ao consumo de energia e água no fabrico de camisas, a Esquel é igualmente ambiciosa e comprometida. Em 2013, o grupo reduziu o consumo de energia e água por camisa produzida para 38% e 52%, respetivamente, dos níveis de 2006. O grupo pretende ainda reduzir o consumo para ambos indicadores uns adicionais 15% ao longo dos próximos três anos. Cheh revelou que as receitas de negócios da Esquel cresceram mais de 100% em 2014, embora os lucros tenham sido ajustados pelo aumento dos preços do algodão na China, agora 30% acima dos preços médios internacionais. A escassez de algodão de qualidade é um problema reconhecido em toda a indústria. Wang Tiankai, presidente do China National Textile and Apparel Council, realçou no fórum que «a China tem uma séria falta de algodão de alta qualidade». Com efeito, o volume total de fibras de algodão produzidas internamente foi 26% menos em 2013 do que em 2010. E com a procura chinesa por vestuário a representar uma quota crescente das receitas dos fabricantes locais, faz sentido ter uma oferta fiável de algodão, explicou Tiankai. Por seu lado, o CEO da Esquel salientou que as receitas da empresa passaram de uma total dependência dos clientes estrangeiros há 10 anos atrás para uma realidade em que 15% das receitas são de clientes chineses. John Cheh prevê que a procura doméstica da China por têxteis e vestuário de boa qualidade evidencie um crescimento positivo de longo prazo. Estes novos consumidores vão exigir um ambiente melhor e isso é reconhecido pelos produtores de têxteis e vestuário, que precisam de reduzir o consumo de 11 tipos de produtos químicos tóxicos, advogou Frazer Mead, diretor de inovação e qualidade para o Extremo Oriente na retalhista Marks & Spencer. A produção de enzimas será uma solução chave na substituição de produtos químicos poluentes, mas o investimento necessário vai ser significativo. Michael Brennan, vice-presidente da Novozymes (China) Investment Co Ltd, um dos principais fornecedores de enzimas, admitiu que a produção de enzimas no mercado chinês está a crescer. «Estamos a enfrentar a concorrência de empresas chinesas, que estão a fabricar enzimas de boa qualidade com um preço muito baixo», acrescentou. Nancy Zhou, gerente sénior de vendas da Novozymes para a indústria têxtil, explicou que um dos principais desafios é o capital que os clientes têm de investir para atualizar as suas instalações e melhorar as competências dos técnicos. Isso, segundo Zhou, irá restringir por enquanto o crescimento da procura. Outra melhoria potencial em termos de desempenho ambiental e eficiência operacional é a redução do desperdício de matérias têxteis. Há anualmente 1 milhão de toneladas de desperdícios têxteis que vão para aterros na China, afirmou Frazer Mead. Para a Esquel, apenas 44.000 toneladas são depositadas em aterro, mas isso ainda é muito, admitiu Tian Ye, o diretor executivo de fiação especializada. A empresa começou a recolher e a reciclar 2.000 a 3.000 toneladas dos seus resíduos, transformando-os em produtos como cobertores para a companhia aérea de Hong Kong Cathay Pacific e camisas casuais para a M&S. Recentemente, a Esquel chegou a um acordo com a Apple, que irá utilizar anualmente 100 toneladas de resíduos de tecidos reciclados para fabricar os seus uniformes. Cada uniforme será composto por 10% de algodão reciclado. Obviamente que a poluição não depende apenas das emissões durante a fabricação, a distribuição também está envolvida. A SF Express, com mais de 100 armazéns em toda a China, pretende ser uma solução, chegando rapidamente a clientes empresariais e individuais. O gigante Alibaba usa a SF Express, embora também tente controlar internamente a distribuição, por motivos de proteção dos dados dos seus clientes. Yan Yan, vice-diretor geral para a responsabilidade social no China National Textile and Apparel Council (CNTAC) referiu que a colaboração entre os fabricantes e os especialistas em logística poderá ter um elevado valor, reduzindo potencialmente as emissões de carbono. No entanto, a prática está ainda longe de ser comum na indústria têxtil e vestuário. Hau Lee, presidente do conselho de sustentabilidade da Esquel, concluiu que «a sustentabilidade significa mais do que as empresas não fazerem coisas más. Significa fazer um contributo para a comunidade, para a sociedade e para o bem-estar dos seres humanos».