Início Notícias Têxtil

O peso do algodão

O algodão é uma das fibras mais populares para vestuário e acessórios graças à sua universalidade, intemporalidade e disponibilidade, mas a fibra não está imune à volatilidade dos mercados económicos.

A produção mundial de algodão caiu 17% para os 21,65 milhões de toneladas em 2015-2016, volume mais baixo desde 2003-2004, segundo a informação divulgada pelo Cotton Advisory Council (ICAC). O declínio é explicado com os baixos preços internacionais desta matéria-prima na fase da plantação e com a quebra no aprovisionamento mundial devido às chuvas, secas e pragas.

No entanto, a organização intergovernamental norte-americana prevê que a produção mundial de algodão volte a crescer em 2016-2017, com uma projeção de subida de 5,8% para os 22,9 milhões de toneladas. O ICAC afirma também que a sua atual projeção de preço médio para a temporada de 2016-2017 é de 0,72 centavos por libra (aproximadamente 0,85 cêntimos). Contudo, o consumo global deverá manter-se nos 23,6 milhões de toneladas em 2016-2017, uma vez que os preços baixos das fibras concorrentes tornam o algodão menos atrativo.

Alguns produtores que dependem do algodão chegaram a sugerir o armazenamento do algodão em caso de mais um ano de mercados precários, mas Lorena Ruiz, economista do ICAC, desaconselha essa prática. «O algodão é uma fibra natural e a sua disponibilidade para uma estação específica dependerá da oferta para aquele ano», explica Ruiz ao Just-style. «Armazenar um produto geralmente resulta em custos adicionais. As fiações devem ser eficientes e comprar o necessário de acordo com os stocks», acrescenta.

O algodão é uma fibra versátil, com boa capacidade de absorção da humidade, geralmente macia e confortável. A fibra pode ser usada em qualquer clima ou estação e causa alergias. Comparado com as fibras sintéticas, o algodão apresenta maior respirabilidade e é um produto natural, aponta a economista. Ruiz revela ainda que a procura de algodão para vestuário continua «forte e sustentável».

Mudanças na procura

Nicola Mentore, consultor da Werner International, uma consultora de têxteis e moda também sediada nos EUA, partilha da mesma opinião, referindo que o algodão é uma aposta segura para as marcas de vestuário e sempre será – embora o tipo de algodão procurado possa mudar nos próximos anos.

Considerando a utilização intensiva de água e o recurso a pesticidas e produtos químicos na produção do algodão, as preocupações ambientais continuam a pesar na escolha dos consumidores. «No entanto, recentemente, assistimos ao aumento na procura de algodão orgânico, que não recorre a produtos químicos. Este sector da indústria do algodão deverá crescer em popularidade e procura, especialmente em regiões onde o movimento ambientalista é forte, como os países do norte da Europa», admite Mentore.

Para as empresas que procuram produzir vestuário de algodão, o país mais barato para comprar continua a ser a China, apesar do recente aumento de custos, indica o consultor da Werner International. No entanto, se uma marca está à procura de algodão de qualidade superior, o Egito tem mantido os padrões elevados.

Curiosamente, numa altura em que os analistas frequentemente exaltam as virtudes da integração vertical, Nicola Mentore recomenda às empresas de vestuário que evitem envolver-se nos processos industriais do algodão. «A fiação e as restantes etapas da produção de algodão para vestuário são fases muito industriais e precisam de muito dinheiro e investimento. Mesmo tendo dinheiro, não aconselharia investir em fiação, tecelagem ou em outro processo industrial», afirma. «As marcas de vestuário devem deixar a produção para os especialistas e comprar fios ou tecidos acabados de quem sabe fazê-lo», sublinha.

Produtores e exportadores

Atualmente, os principais países produtores de fibra de algodão são a Índia, China, EUA, Paquistão e Brasil, de acordo com as estatísticas do ICAC, e a maioria deles deverá registar um aumento de produção nos próximos dois anos.

A Índia deverá produzir cerca de 6,21 milhões de toneladas de algodão em 2016-2017, contra os 5,74 milhões de 2015-2016. Os EUA esperam ver a produção subir dos 2,8 milhões para os 3,34 milhões de toneladas em 2016-2017 e o Brasil antecipa um crescimento da produção de 1,38 milhões de toneladas em 2015-2016 para 1,5 milhões de toneladas em 2016-2017.

O Paquistão dará também um salto, com previsões de 1,8 milhões de toneladas em 2016-2017, em comparação com os 1,51 milhões de toneladas de 2015-2016.

Apenas a China deverá conhecer uma quebra, de aproximadamente 5,16 milhões de toneladas em 2015-2016 para cerca de 4,68 milhões de toneladas em 2016-2017.

Segundo o ICAC, os maiores exportadores de algodão são os EUA, Índia, Brasil, Uzbequistão e Austrália, enquanto os maiores consumidores são a China, Índia, Paquistão, Turquia e Vietname.