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O preço de África

A esperança de que a indústria transformadora venha a resolver parte dos problemas dos países em desenvolvimento no continente africano persiste. No entanto, África é demasiado cara para as marcas e retalhistas internacionais como destino de produção.

A aposta na produção africana pode não trazer grandes benefícios para as marcas, de acordo com um novo relatório do Center for Global Development, consultado pela Quartz Africa.

Os investigadores do Center for Global Development usaram dados do Banco Mundial para analisar 5.500 empresas em 29 países. Compararam depois os custos de mão de obra, a produtividade e a eficiência da produção na África subsaariana com países fora de África. Em particular, com o Bangladesh. Para a região africana, as notícias não foram as melhores.

Tendo como objetivo de descobrir se os países africanos podem «entrar na produção global de forma significativa», os investigadores acabaram por constatar que as fábricas em África eram quase sempre mais caras.

No que diz respeito aos custos globais, as pequenas empresas africanas eram 39% mais caras do que empresas de semelhante escala noutros destinos. Já as empresas de média e grande escala eram cerca de 50% mais caras.

Na África do Sul, por exemplo, os custos com a mão-de-obra foram descritos como «muito altos», apesar de o desemprego rondar os 30%. Uma combinação de fatores estruturais, leis de trabalho restritivas e salários mínimos altos significam que a economia mais avançada do continente «não deverá emergir como um forte concorrente na indústria de mão de obra intensiva».

Países estáveis como o Senegal, o Quénia e a Tanzânia, parecem fortes candidatos a um papel na produção mundial, mas continuam a ser demasiado caros.

O custo por trabalhador queniano ronda os 2.118 dólares (aproximadamente 1.825 euros), em comparação com os 835 dólares no Bangladesh. O custo de capital por trabalhador queniano ronda os 10.000 dólares, face aos 1.100 dólares por trabalhador no Bangladesh. O Quénia tem, também, um PIB per capita mais elevado (1.116 dólares) em relação ao Bangladesh (853 dólares).

Ainda assim, há perspetivas otimistas, sobretudo para a Etiópia.

Os investigadores acreditam que a Etiópia, que tem vindo a dominar a produção em África, mostra potencialidades para se assumir como a “nova China”, à medida que os custos com a mão de obra vão aumentando na “fábrica do mundo” e questões sociais como a exploração infantil assombram alguns países asiáticos.

Marcas de moda como a H&M, Guess e J. Crew estão já a reconhecer o potencial da Etiópia, um dos poucos países africanos cujos custos por trabalhador (909 dólares) estão próximos do Bangladesh.

Os investigadores mostraram-se reticentes em especular por que motivo os custos de produção africanos são tão altos, mas não é difícil perceber quais serão os principais desafios. A falta de infraestruturas, como as redes de transporte e a eletricidade estável em muitos países africanos, além dos baixos níveis de educação, significam que os custos operacionais e a formação do trabalhador africano são mais dispendiosos.

Por isso, os autores sugerem «uma política industrial cuidadosamente projetada» para, «possivelmente, alavancar o potencial de produção e a industrialização» em África.