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O promissor mercado do Japão

O vulgarmente chamado país do sol nascente tem um mercado de vestuário dinâmico e competitivo para marcas e retalhistas de moda, a acreditar nas estatísticas mais recentes, que colocam o consumo de vestuário no Japão apenas atrás do realizado nos EUA e na China.

[©Unsplash/Korie Cull]

A análise de Sheng Lu, professor associado de estudos de moda e vestuário da Universidade do Delaware, revela que as vendas de vestuário no Japão somaram 100 mil milhões de dólares em 2021, ocupando o terceiro lugar num ranking encimado pelos EUA, com 476 mil milhões de dólares, e pela China, com 411 mil milhões de dólares.

Num artigo publicado no Just Style, Sheng Lu refere que «como em muitas outras economias desenvolvidas, a maior parte do vestuário consumido no Japão é importado, o que torna o país numa oportunidade considerável de fornecimento e acesso ao mercado para empresas de moda e agentes de sourcing de todo o mundo».

O professor usou as mais recentes estatísticas de mercado e de comércio da GlobalData, do UNComtrade e de outras fontes para analisar o mercado de vestuário japonês e os seus mais recentes padrões de aprovisionamento.

Para começar, Sheng Lu sublinha que «o mercado de vestuário japonês tem várias características distintas». Apesar de enorme, tem vindo a crescer relativamente devagar. De acordo com a GlobalData, entre 2015 e 2021, as vendas anuais de vestuário no retalho do Japão rondaram os 100 mil milhões de dólares, sem expansão ou declínio significativo. Embora a pandemia tenha atingido duramente o sector, em 2021 o mercado praticamente recuperou o volume de vendas pré-covid. A moda de senhora contribuiu com 56,6% das vendas, seguida pela moda para homem (35,6%) e pela moda de criança (7,8%).

As previsões apontam para um crescimento anual das vendas de vestuário de 5,3% entre 2022 a 2025, uma taxa mais baixa do que alguns mercados emergentes como a China (6,7%), mas quase o dobro do ritmo da maioria das economias ocidentais da UE, incluindo o Reino Unido, Itália, Alemanha e França.

Em segundo lugar, salienta Sheng Lu, o mercado de vestuário japonês é competitivo e as marcas de moda japonesas locais têm grandes quotas. Mais de 100 empresas de moda regionais e globais concorrem no mercado de vestuário japonês, incluindo marcas internacionais conhecidas como Adidas, H&M, Zara e Gap.

[©Unsplash/Jezael Melgoza]
No entanto, como característica única, o mercado de vestuário do Japão é ocupado principalmente por marcas japonesas, lideradas pela Uniqlo, cuja quota de mercado aumentou constantemente de 8,5% em 2012 para 14,3% em 2021. Em comparação, a H&M e a Zara registaram as maiores vendas no retalho na Europa Ocidental em 2021, mas representaram apenas 3,2% e 2,9% de quota de mercado, respetivamente. «No geral, embora o Japão esteja altamente exposto à cultura ocidental, os consumidores japoneses comuns ainda preferem produtos e marcas de vestuário tradicionais e locais», afirma o professor.

Em terceiro lugar, enumera Sheng Lu, as compras online e o comércio eletrónico de vestuário tiveram um rápido crescimento no Japão, mas os consumidores japoneses ainda preferem as lojas físicas convencionais, que, em conjunto (grandes armazéns, cadeias de lojas e lojas especializadas) representavam quase 80% das vendas no retalho no país antes da pandemia. Com a mudança do estilo de vida dos consumidores provocada pelo covid-19, e graças à presença digital aprimorada dos retalhistas, o comércio eletrónico representou cerca de 31% das vendas de vestuário no Japão em 2021, um salto significativo face aos 21,8% de 2019.

Ásia lidera importações

Os padrões de aprovisionamento de vestuário do Japão também demonstram três características distintas, intimamente ligadas às tendências do retalho.

O valor total das importações de vestuário do Japão tem-se mantido estável, com os dados do UNComtrade a mostrarem que entre 2015 e 2019, o valor das importações de vestuário do Japão teve uma taxa de crescimento anual composta de 1%, inferior aos 2,3% da média mundial e de vários países da UE, como a França (3,5%), Itália (3,5%), Espanha (4%) e Alemanha (3,6%). As importações no ano passado ficaram cerca de 11% abaixo do nível de 2019, sugerindo que o mercado de importação ainda não recuperou totalmente da pandemia.

Em termos de produto, o Japão importa vestuário em malha e vestuário em tecido praticamente na mesma quantidade, mas importa mais vestuário de senhora (cerca de 60%) do que de homem (cerca de 40%).

[©Unsplash/Ryoji Iwata]
Quanto à origem das importações de vestuário, a Ásia domina, com uma quota de 90%, o que, segundo Sheng Lu, «reflete o profundo envolvimento do Japão na cadeia de aprovisionamento têxtil e de vestuário da Ásia». Aliás, acrescenta o professor, «as importações de vestuário do Japão provenientes da Ásia geralmente contêm matérias-primas têxteis “made in Japan”», com os números a darem conta que, em 2021, cerca de 65% das exportações de fios do Japão, 75% das exportações de tecidos e 90% das exportações de tecidos de malha foram para a região da Ásia, principalmente para a China e para os membros da ASEAN.

Por países, a China continua a ser o principal fornecedor de vestuário do Japão. No entanto, as marcas e retalhistas japoneses têm vindo a diversificar a sua base de aprovisionamento, com as importações de vestuário do do Vietnam, Bangladesh e Indonésia a crescerem particularmente rápido, embora a capacidade de produção e quota de mercado destes países estejam ainda muito atrás da China.

Para Sheng Lu, que destaca ainda as mudanças na política comercial do país e o estabelecimento de acordos de comércio livre com outros mercados, nomeadamente na Ásia, «o mercado de vestuário do Japão e os padrões de aprovisionamento de vestuário continuarão a evoluir nos próximos anos. Fatores como a trajetória de crescimento da economia nacional japonesa, os comportamentos de compras dos consumidores japoneses no mundo pós-covid e a implementação de novos acordos de comércio livre estão entre os fatores mais críticos que vão moldar o cenário no futuro. Os fornecedores de vestuário na Ásia, em particular, podem encontrar no Japão um mercado promissor».