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O próximo império

Casa do novo Silicon Valley, com um crescente mercado de turismo e de luxo acessível, a Índia moderna está a atrair novos players internacionais, que querem garantir a sua fatia num mercado que deverá ultrapassar a economia do Japão e da Alemanha juntas até 2019.

Envolta em mistério e grandeza, a Índia tem sido uma fonte de inspiração para os forasteiros. E agora a crescente classe média do país (que deverá englobar 547 milhões de pessoas em 2025), a adoção do comércio móvel e o estatuto como próximo líder mundial na utilização de redes sociais, está a tornar o país num centro a não perder de vista para o crescimento económico, destaca o WGSN.

Segundo as mais recentes previsões do Banco Mundial, a Índia será a economia em mais rápido crescimento em 2016, com um aumento de 7,6%, devendo ultrapassar a China, que deverá crescer 6,9%. Se este crescimento se mantiver, a economia da Índia deverá ultrapassar a do Japão e a da Alemanha juntas até 2019.

Vários fatores podem ser atribuídos a este incremento, incluindo a reforma do banco central, políticas governamentais que promovem novos negócios, investimento de capital, um aumento da indústria de tecnologias de informação e ascensão do comércio eletrónico.

Embora os motores deste crescimento económico sejam indiscutíveis, a questão da pobreza é matéria de discórdia. A Índia é um país enorme com 29 estados com vários graus de riqueza pessoal. Por exemplo, o quarto maior estado da Índia, Uttar Pradesh, tem a mesma população que o Brasil, mas o PIB é equivalente ao do Quénia. Alguns economistas acreditam que o crescimento da classe média vai equilibrar os níveis de pobreza, enquanto outros creem que a diferença de rendimentos vai apenas aumentar.

O que não gera discussão é a “jovem demografia sem rival” da Índia e como esta força de trabalho está a alimentar este crescimento económico. Segundo um estudo das Nações Unidas de 2014, há 356 milhões de pessoas entre os 10 e os 24 anos na Índia e 65% da população tem menos de 35 anos. Tendo em conta o elevado número de novos eleitores nas próximas eleições, os próximos anos deverão registar enormes mudanças políticas e socioeconómicas.

O novo Silicon Valley

Normalmente, onde quer que a Apple invista, outros irão seguir-se, por isso quando Tim Cook anunciou na assembleia de acionistas que «há uma grande quantidade de jovens a subirem nos rankings e o consumo vai aumentar [na Índia]», o mundo dos negócios tomou nota. Cook revelou ainda que embora as vendas dos iPhones se tenham mantido praticamente estagnadas, a Índia registou um crescimento de 76%. Com o acesso à Internet móvel na Índia a dever atingir 371 milhões de utilizadores (mais do que a população toda dos EUA) em junho de 2016, o pico nas vendas de iPhones não é surpreendente.

A conectividade móvel não é a única grande mudança. Bangalore, chamada de Silicon Valley da Índia, tem o potencial para ser a líder mundial para a indústria de aplicações (apps) à medida. Mudaram-se mais programadores para Bangalore (44%) do que para San Francisco Bay Area (31%) em 2014 e há um fluxo constante de licenciados em engenharia e tecnologias da informação a entrar na força de trabalho. Juntamente com a produção de vestuário, a indústria de tecnologias é responsável por absorver cerca de 1 milhão de indianos que entram na vida ativa todos os meses. As carreiras na área da tecnologia são consideradas um ativo tão importante em termos económicos que o governo indiano está a introduzir incentivos para empresas tecnológicas estrangeiras e nacionais.

Com os investidores indianos e estrangeiros a colocarem centenas de milhões de dólares em capital para start-ups indianas (que variam de entregas em casa a serviços de lavandaria), é provável que a tecnologia tenha um papel a longo prazo na aceleração do PIB da Índia.

Segundo um estudo recente da McKinsey, a classe média da Índia compreende entre 250 e 300 milhões de pessoas e está a crescer. O National Council for Applied Economic Reserach (NCAER) estima que até 2025, esta população vai duplicar para 547 milhões ou 113,8 milhões de agregados familiares e será cerca de 41% da população total.

Há vários fatores atribuídos à prosperidade da classe média: a criação constante de emprego da indústria de tecnologias da informação, conetividade móvel e educação, que os analistas económicos afirmam ser o principal fator. Segundo a Associated Chambers of Commerce & Industry of India, os indianos gastam cerca de 6 a 7 mil milhões de dólares anualmente para enviar os filhos para estudarem em universidades no estrangeiro. O estudo destaca ainda que «não é apenas a elite que gasta generosamente em boa formação e credenciais, mas também as famílias da classe média gastam as poupanças de uma vida para educar os seus filhos lá fora».

Ao contrário do “brain drain” (em que as pessoas não regressavam ao país de origem após a faculdade) nos anos 80, o crescente mercado laboral está a levar muitos indianos a regressarem após fazerem a formação. Com esta força de trabalho alargada surge uma nova onda de pessoas com rendimento disponível e que estão a gastar: o PIB per capita da Índia aumentou de 844 dólares em 1985 para cerca de 5.417 dólares.

Luxo acessível

«É importante servir a grande classe média na Índia, que vai ser a próxima grande consumidora de luxo», sustenta Sabyasachi Mukherjee, um designer de moda indiano que recentemente lançou coleções de pronto-a-vestir acessíveis para homem e criança.

Mukherjee, juntamente com outros designers indianos, incluindo Raghavendra Rathore e Manish Arora, está a lançar coleções mais atentas aos custos para atrair os millenials e a crescente classe média da Índia. A estratégia tem duas vertentes: os retalhistas querem fidelizar os clientes que podem evoluir para um consumidor de gama mais alta e se os números da população continuarem estáveis, a classe média vai ultrapassar outros grupos de consumo em taxas de consumo por pessoa.

As marcas internacionais estão a seguir a mesma via. Em abril de 2016, a H&M abriu a sua maior loja e a primeira flagship na Índia. As empresas indianas Madura Fashion & Lifestyle e Myntra estão em conversações para obterem os direitos para abrir lojas Forever 21, que está agora à procura de «uma jogada mais agressiva na Índia». A Topshop está a testar o mercado e lançou uma coleção exclusiva com a retalhista online indiana Jabong no final de 2015.

Com base no sucesso da Zara, a entrada antecipada no mercado garante fidelização junto dos consumidores. Em 2015, a espanhola tornou-se a primeira marca de vestuário na Índia a ultrapassar a marca de 100 milhões de dólares em vendas, menos de cinco anos depois de abrir o seu primeiro ponto de venda.

Baby boom

Sem surpresas, a continuação da ampliação da população indiana está a alimentar um crescimento no mercado de bebé e cuidados para criança, criando uma enorme oportunidade para empresas domésticas e internacionais.

Em 2014, a Índia contava cerca de 50 mil milhões de bebés entre os 0 e os dois anos e 304,8 milhões de crianças entre os 0 e os 12 anos. Segundo Joji George, diretor-geral da UBM India, «o país oferece imensas oportunidades para os players do segmento responderem a este mercado em crescimento», que deverá atingir 26,2 mil milhões em 2017.

Anteriormente restringido a players locais, cada vez mais marcas estrangeiras estão a entrar no país. Desde 2014, o país conta com a Brevi de Itália, a Combi do Japão, a Bubba Blue da Austrália, a Tiny Love de Israel e o Grup Baby da Turquia, que estão a ter sucesso na região.

Para além de produtos marcantes do sector, incluindo vestuário, calçado e brinquedos, a procura por apps específicas para bebés e crianças está a crescer. A MyCity4Kids é uma das favoritas – com base na geolocalização, a app procura atividades, eventos e retalhistas locais de vestuário de criança. Os pais podem adicionar eventos a um calendário e comunicar com outras famílias próximas. A app dá às famílias uma comunidade local, uma prioridade em áreas densamente povoadas. A ascensão de apps de lifestyle para crianças está a ajudar a Índia a reclamar o título de mercado mundial de apps móveis em mais rápido crescimento, tendo crescido 131% em 2015, de acordo com um estudo da Yahoo.

A cena social

O que é que se obtém quando se mistura uma classe média em crescimento, um aumento da população e acesso a smartphones? Para a Índia, estes fatores resultaram em tornar-se líder mundial no crescimento das redes sociais.

As estatísticas, sublinha o WGSN, são impressionantes: em 2016, a Índia vai ultrapassar os EUA em termos de utilizadores do Facebook, tendo crescido 37,4% para cerca de 277,8 milhões. Além disso, o Facebook anunciou que a Índia é a maior utilizadora do Facebook At Work, atualmente em testes. Segundo Julian Codorniou, diretor-executivo do projeto, a utilização da Índia é «fenomenal» e o produto «está bem adaptado para o país».

O investimento nas apps de mensagens está a aumentar e o sucesso do Whats App e do Facebook Messenger não dá sinais de abrandamento. A Truecaller, uma aplicação que permite que os utilizadores identifiquem chamadas anónimas, registou um crescimento na Índia (dos seus 200 milhões de utilizadores em todo o mundo, mais de 120 milhões residem na Índia) e desde então lançou a Truemessenger para atingir já a sua base de subscritores.

A ascensão das mensagens sociais está a começar a transformar os encontros amorosos na Índia. Segundo a aplicação de encontros Tinder, a empresa «testemunhou um aumento de 400%» em downloads na Índia no último ano, com as mulheres mais ativas na utilização da aplicação do que os homens. As apps de encontros Woo, TrulyMadly e OkayCupid também registaram crescimento.

Comércio móvel é rei

«Apesar de estarem a fazer o download de muitas apps e a utilizar smartphones, muitos [indianos] não têm métodos de pagamento imediatos como cartões de crédito», afirma Kunal Soni, diretor de desenvolvimento de negócio da Google Play na Índia. A solução da Google foi assinar um acordo de faturação na Índia, permitindo que os utilizadores de smartphones comprem apps, livros digitais e jogos, sendo o valor debitado na conta do telemóvel. Desde o início deste ano, os utilizadores de Android que são clientes da Idea Cellular na Índia podem comprar apps sem um cartão de crédito ou conta bancária. Segundo Soni, «é importante para a Google porque a população com smartphones na Índia está a crescer 20% por ano, enquanto apenas 2% dos residentes têm cartões de pagamento».

A Apple está igualmente a perseguir o consumidor de comércio móvel. A empresa vai lançar o Apple Pay para telemóveis na Índia a tempo da época de compras de Natal deste ano. Em março, a Amazon candidatou-se a uma licença para uma “carteira eletrónica” na Índia e está a aguardar aprovação.

Embora as empresas estrangeiras estejam a tentar ganhar mercado, a Paytm, uma empresa indiana, ainda mantém o título de maior plataforma de pagamentos eletrónicos da Índia. A Paytm tem 122 milhões de utilizadores diários registados que usam o website para três coisas: gestão do plano de telemóvel, pagamento de contas e compras de comércio eletrónico. A Paytm está a crescer – a empresa apoiada pelo Alibaba conta já com marcas de luxo incluindo a Gucci, a Fendi e a Burberry para a sua plataforma de comércio eletrónico de luxo Anasa, que será lançada em breve.

Viajar é o novo luxo

É oficial: a economia da experiência está a ganhar força na Índia. Para um crescente número de indianos, a necessidade de experienciar coisas é cada vez mais importante do que comprar coisas. Viajar é agora o símbolo de estatuto da elite indiana e uma retoma nas viagens, tanto domésticas como internacionais, está a ganhar força junto da classe média do país.

Segundo o World Travel Monitor, só em 2014, os viajantes de luxo em todo o mundo fizeram 46 milhões de viagens internacionais, no valor de 172 mil milhões de euros. «Nas economias em rápido desenvolvimento como a China e a Índia, as viagens de luxo estão a tomar a função tradicional dos bens de luxo físicos, tornando-se uma forma de moeda social usada para mostrar estatuto», afirma Divia Thani Daswani, editora da Condé Nast Traveller India. A classe mais alta da região continua a crescer – o país deverá ter mais milionários do que o Reino Unido, França ou Alemanha em 10 anos – e é um fator de contribuição para as viagens de luxo, o segmento em mais rápido crescimento na indústria das viagens, tendo crescido 48% nos últimos cinco anos.

Tal como a maior parte das indústrias indianas, as viagens têm um percurso online até à compra. Segundo um estudo da Aranca, «a quota das marcações online de todo o mercado indiano de viagens está também em expansão, devendo representar 46% em 2017, em comparação com 41% em 2014» e antes do ano 2020, mais de metade do mercado indiano irá marcar as próximas férias online.