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O que aprendeu o vestuário com o covid

A pandemia parece ter tido impacto na forma como a indústria de vestuário vê o aprovisionamento, a sustentabilidade e até como encara os desafios, mas tal não significa que todos estejam preparados para enfrentar uma nova crise mundial da dimensão da de covid.

Dois anos depois da Organização Mundial de Saúde ter declarado a pandemia de covid, o Just Style pediu a um painel de especialistas do sector de vestuário para dar a sua opinião sobre o que mudou e se a indústria está mais bem preparada agora do que em 2020 para lidar com uma crise mundial no futuro.

Se é certo que alguns acreditam que o sector fez mudanças positivas, outros apontam que há ainda um longo caminho a percorrer.

Aprovisionamento em mutação

Para o consultor Robert Antosak, as mudanças causadas pelo covid não foram tão grandes quanto o desejado, sobretudo ao nível do aprovisionamento. «O método preferido de aprovisionamento que prevaleceu nos últimos 40 anos permanece intacto para muitas marcas, o que infelizmente deixa essas marcas expostas a interrupções futuras por eventos imprevisíveis. Há uma falta de gestão de risco, diversificação de fontes e criatividade na gestão do risco. Em vez disso, para algumas marcas, é mais fácil recorrer ao que funcionou anteriormente e arriscar. Também é preguiçoso e, a longo prazo, perigoso para a saúde dessas marcas. Sinto que para cada marca que adotou uma abordagem proativa para gerir melhor os seus riscos através da diversificação de fontes, há outra que não o fez», considera.

Exemplo disso é a questão do aprovisionamento de algodão, sobretudo depois proibição do algodão de Xinjiang. «A Organização Internacional do Trabalho (OIT) anunciou que o algodão uzbeque agora está praticamente livre de trabalho infantil e forçado. Supondo que as descobertas da OIT resistem ao escrutínio, muitas empresas que foram forçadas a repensar o fornecimento da Ásia por causa da proibição dos EUA ao algodão de Xinjiang podem pensar novamente e confiar nos seus fornecedores para comprar mais algodão do Uzbequistão como uma solução alternativa às restrições», acredita Robert Antosak.

Também Matthijs Crietee, secretário-geral da International Apparel Federation (IAF), falou sobre o algodão do Uzbequistão. «Se o boicote for abandonado e a procura aumentar, o Uzbequistão terá a capacidade e a vontade de não voltar às suas formas antigas de fazer negócio? Como é que vão policiar os campos? Afinal, grande parte da indústria de vestuário de Bangladesh foi construída com a importação de algodão uzbeque. As empresas de Bangladesh insistirão no algodão livre de trabalho forçado ou farão vista grossa? As empresas de outros países da região insistirão nos mesmos padrões? Ou será apenas uma solução alternativa para Xinjiang?», questiona.

Para Rick Horwitch, diretor da cadeia de aprovisionamento e estratégia de sustentabilidade do Bureau Veritas Consumer Products Services, «como o consumidor exige maior transparência nos seus produtos (especialmente relacionados com questões de sustentabilidade, como produtos químicos, origem e impactos climáticos) e velocidade de entrega, as estratégias de aprovisionamento irão continuar a transformar-se em nearshoring, reshoring ou aprovisionamento regional. A maioria dos retalhistas e marcas mudou (ou está em processo de mudança) para fora da China. Conceitualmente, esta é uma ótima ideia, mas operacionalmente muitos países/regiões carecem da infraestrutura necessária para uma cadeia de aprovisionamento completa (portos, logística, fibra, fios, têxteis, acabamentos, serviços de qualidade e capacidade e capacidades de produção/força de trabalho, fiabilidade no acesso à Internet). Informações fiáveis ​​(verificáveis) sobre transparência, cadeia de custódia, risco, continuidade de negócios e planos de resiliência serão um grande desafio para retalhistas, marcas e fornecedores», salienta.

Sheng Lu, professor associado do Departamento de Estudos de Moda e Vestuário da Universidade de Delaware, refere que «alguns tópicos continuam a ganhar popularidade entre as empresas de moda, como diversificação de aprovisionamento, aprofundamento de relacionamentos com fornecedores-chave, mapeamento da cadeia de aprovisionamento e rastreabilidade e expansão do sourcing de proximidade. Esses tópicos refletem a visão das empresas para o futuro e como tornar a cadeia de suprimentos mais flexível, ágil e resiliente para a próxima possível crise».

Para Emily Salter, analista de retalho da GlobalData, «muitas marcas serão agora mais ágeis em termos de adaptação às mudanças na procura dos consumidores, mas poucas terão mudado significativamente seus padrões de aprovisionamento e outros aspetos nas suas cadeias de aprovisionamento».

2022, acredita Deepika Rana, diretora de operações da Li & Fung, «será fundamental para que os players da cadeia de aprovisionamento aproveitem o impulso obtido durante o covid e reconfigurem proativamente as suas cadeias de aprovisionamento e adotem formas mais ágeis de fazer negócios. Os vencedores serão aqueles que mudaram sua mentalidade organizacional – a maneira como gerem e percebem riscos ou crises. Aqueles que optarem por voltar às suas antigas formas de trabalho colocam-se numa posição vulnerável quando a próxima crise chegar».

Sustentabilidade obrigatória

A sustentabilidade continua a ser uma prioridade. «Para o artigo 2022 Outlook do Just Style, escrevi que os maiores desafios e oportunidades continuarão a ser velocidade, digitalização, resiliência e sustentabilidade. Tudo focado para criar uma experiência positiva para o cliente. A crise pandémica acelerou essas quatro megatendências», considera Rick Horwitch. «O desafio é definir e implementar efetivamente uma estratégia de sustentabilidade para que as ações e esforços sejam impactantes – para a empresa, para o cliente e para a sociedade. Criar confiança e transparência já não são palavras de ordem. Os consumidores e os investidores estão a exigir ações que entendam e que sejam relacionáveis», acrescenta.

A sustentabilidade, através das compras responsáveis, será, de resto, um caminho sem volta para quem quiser vencer no futuro, afirma Marsha Dickson, presidente e cofundadora do Better Buying Institute. «No entanto, se a indústria quiser “reconstruir melhor” e sobreviver e prosperar em futuros choques e pandemias, as compras responsáveis têm de ir além de um pequeno número de marcas esclarecidas e passar para o centro do palco da indústria como um todo», refere.

Lynda Petherick, diretora de retalho da Accenture UKI, lembra que «a pandemia mudou significativamente as expectativas dos clientes para compras sustentáveis, destacando a quantidade de material e desperdício de recursos que a indústria de vestuário gera. Como resultado, muitos retalhistas de vestuário estão a adotar modelos de negócios mais circulares no que diz respeito ao ciclo de vida de uma peça de vestuário, garantindo mais eficiência de recursos através da utilização de produtos reciclados e aumentando a usabilidade de uma peça de roupa, melhorando a qualidade. Muitos estão até a promover mais ofertas de aluguer e reutilização como mais um fluxo de rendimento mais sustentável».

Desafios futuros

Apesar das mudanças que possam ter sido implementadas para sobreviver ao covid, Matthijs Crietee, considera que «nunca é possível estar totalmente preparado para uma grande crise, como a guerra na Ucrânia nos está dolorosamente a mostrar. Como é que os grandes retalhistas mundiais se devem preparar para a necessidade de fechar todas as suas lojas na Rússia e na Ucrânia?». No entanto, salienta o secretário-geral da IAF, há empresas que estão «a agir onde podem para reduzir o risco. Definitivamente, o valor de um relacionamento sólido com um fornecedor forte aumentou. E talvez o mesmo seja verdade para o valor do ecossistema em que esses fabricantes operam. Isso inclui a infraestrutura física e também a institucional, que afeta a indústria de vestuário nos países de origem das marcas e retalhistas. Uma educação forte e relevante em design de moda, negócios e tecnologia, por exemplo, é um fator chave que determina a força futura da indústria de vestuário em qualquer país em particular», acredita. «Exemplos em todo o mundo mostram que a redução do risco não elimina o risco. Mas estou convencido de que seguir o caminho oposto, mantendo os compromissos a montante na cadeia de aprovisionamento apenas superficialmente, oferece um resultado pior do que a abordagem de aproveitar os investimentos», sublinha Matthijs Crietee.

«Os vencedores daqui para frente encontrarão maneiras de desenvolver e integrar comunicações, processos e análises inovadoras e colaborativas (uma abordagem de cadeia de valor) que melhorem a velocidade e a margem e tenham um impacto positivo na sociedade sem sacrificar a qualidade, para melhor envolver e interagir com os seus consumidores», sustenta Rick Horwitch. «Se aspirarmos a voltar ao normal, perderemos uma oportunidade incrível de remodelar o futuro», considera, pelo que, tendo em conta os acontecimentos dos dois últimos anos, a indústria terá de ser no futuro «disruptiva, digital, inovadora, colaborativa e flexível».

Segundo Stephen Lamar, presidente e CEO da American Apparel & Footwear Association, «a indústria está hiperfocada em garantir que os produtos sejam produzidos, transportados e consumidos de forma responsável, e que se encaixem numa economia cada vez mais circular. O sucesso neste empreendimento exigirá um pensamento pré-competitivo dentro do sector, com partes interessadas externas, parceiros da cadeia de aprovisionamento e agências governamentais».