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O que é nacional é bom

Os grandes nomes ocidentais da moda de luxo começam a sofrer com a concorrência das marcas de gama alta de países como a Coreia do Sul, Japão e China, numa altura em que os consumidores locais, e não só, procuram e têm orgulho em usar alternativas originais desenhadas e fabricadas na Ásia.

As marcas de moda da Coreia do Sul, China e Japão estão a tornar-se sérias rivais das suas homólogas ocidentais, à medida que os consumidores asiáticos se tornam cada vez mais confiantes no seu próprio estilo.

Os consumidores asiáticos são os que mais gastam em moda de gama alta, representando cerca de metade de todos os consumidores. A maior parte deles têm menos de 35 anos, usam a internet e procuram cada vez mais marcas pequenas e originais que os façam destacar-se e parecer diferentes dos seus pais, afirmam os especialistas. A elevada qualidade já não é exclusiva das marcas de luxo ocidentais, acrescentam, e as marcas asiáticas estão a atrair atenções à medida que experimentam com novos têxteis e materiais, facilitados pela sua base local de produção.

Esta crescente ameaça do Oriente irá, provavelmente, aumentar as preocupações das grandes marcas de luxo, como a Prada, a Bottega Veneta e a Tod’s, que têm já sentido uma diminuição das vendas, em parte devido a aumentos excessivos dos preços, sobre-exposição em alguns mercados como a China (ver China já não é para todos).

Marcas chinesas de moda, como a Ms Min e a Comme moi, são as marcas de design contemporâneas com maior crescimento nos grandes armazéns Lane Crawford, que tem lojas na China e Hong Kong, revelou à Reuters o presidente do conselho de administração, Andrew Keith. A Lane Crawford vende também marcas de moda masculina sul-coreanas, como a Woo Young Mi, e espera começar em breve a vender marcas coreanas de moda de senhora. «Sente-se que há orgulho em ver a China a desenvolver a sua própria comunidade criativa e ver a China a emergir como uma força criativa», acrescentou Keith.

A Lane Crwaford tem visto o número de marcas chinesas a crescer nos últimos quatro anos para mais de 30. 20% das roupas desenhadas por chineses compradas online são enviadas para fora da China, «sobretudo para chineses que vivem no estrangeiro que querem ter acesso a estas marcas», acrescentou Keith.

O presidente do conselho de administração da Lane Crawford estima que o seu consumidor médio na China continental tem 25 anos, enquanto a média de idades em Hong Kong é 35 a 40 anos.

Também em alta junto dos consumidores asiáticos estão as marcas japonesas, como a Sacai e a Tsumori Chisato, muitas delas mais antigas e mais bem estabelecidas do que as marcas chinesas ou sul-coreanas. Lady Gaga usa regularmente a japonesa Roggykei, criada em 2006 por dois estudantes da Osaka College of Design.

Estilo único

Seul, Tóquio e Xangai têm semanas de moda em rápida expansão, patrocinadas por grupos industriais locais, onde são reveladas as coleções de dezenas de marcas. Algumas foram para o Ocidente e começaram a mostrar em Paris e Milão e abriram mesmo lojas noutros países.

Guo Pei, a designer sediada em Pequim que saltou para a ribalta com o vestido amarelo com capa usado por Rihanna na Gala do Met no ano passado, estreou-se em janeiro na passerelle da Semana de Alta-Costura de Paris, enquanto a marca chinesa de calçado Stella Luna, cujos stilettos custam mais de 500 euros, tem três lojas em Paris.

Yiqing Yin, que nasceu na China, e cujas criações são vendidas na China, em Nova Iorque e Paris, ganhou vários prémios de moda europeus e tem sido aclamada pela imprensa como uma das designers mais promissoras da sua geração.

A marca sul-coreana SJYP, da dupla Steve Jung e Yoni Pai, está à venda na Europa e nos EUA, incluindo no Selfridges em Londres e na Opening Cerimony em Nova Iorque e Los Angeles, enquanto a natural da China Uma Wang, formada pela Central Saint Martins de Londres, vende na China e na Europa, incluindo na l’Eclaireur em Paris, estando ainda no calendário da Semana de Moda de Milão.

«Antes, muitos asiáticos pensavam que os bens de luxo tinham de vir do Ocidente», explica Lee Seo-hyun, presidente da divisão de moda da Samsung C&T e filha do presidente do conselho de administração da Samsung Electronics, Lee Kun-hee. «Mas estão a tornar-se mais sofisticados e atentos e agora mais pessoas estão interessadas em designers locais que têm o seu próprio ponto de vista e estilo único», acrescenta.

A Samsung C&T é uma das principais investidoras na cena de moda emergente em Seul. Todos os anos, dá 100 mil dólares a dois ou três designers para os ajudar a desenvolver a sua coleção e desde 2005 investiu 2,7 milhões de dólares em 19 equipas de design através do Samsung Fashion & Design Fund.

Erwan Rambourg, autor do livro “The Bling Dynasty” e analista de bens de luxo na HSBC, afirma que as marcas asiáticas, mesmo que sejam ainda pequenas e não sejam vastamente distribuídas, estão a tornar-se sérios concorrentes para as marcas ocidentais.

A cosmética coreana há muito que é popular junto dos consumidores chineses e Rambourg sublinha que séries de televisão coreanas populares como “My Love from the Star” e “Descendents of the Sun”, e grupos pop coranos como Big Bang e Girl’s Generation, ajudaram a aumentar a notoriedade da Coreia do Sul como trendsetter na Ásia. «Embora os consumidores asiáticos tenham abraçado a cultura americana, a cultura pop coreana está mais próxima da cultura chinesa», considera Rambourg.

«A autoestima e autoconfiança dos coreanos tem sido impulsionada pelo poder da “K culture” e é também por isso que as coreanas e outras marcas asiáticas começaram a tornar-se populares», indica Sung-Joo Kim, uma das empresárias mais conhecidas da Coreia. Ela detém e gere a marca de artigos de luxo alemã MCM.

Kim, que anteriormente desenvolveu o negócio coreano da Gucci, também sublinha que as marcas asiáticas servem melhor a estrutura pequena das mulheres asiáticas do que as marcas ocidentais.

«Podemos colocar o “made in Asia, designed in Asia” na moda, penso que sim, porque o estigma que as marcas asiáticas tinham está a desaparecer e temos todos os ingredientes certos e a base de produção», acredita Joowon Park, diretor da Simone Fashion Company, sediada em Seul, que produz para marcas ocidentais incluindo a Coach, Michael Kors e Kate Spade. As marcas asiáticas estão ainda a atrair o interesse de consumidores ocidentais.

À espera de um voo de regresso para Paris no aeroporto de Seul, Maximilien, de 39 anos, que trabalha em publicidade de moda, comprou uma carteira de 400 dólares para a esposa da marca coreana Youk Shim Won, com uma rapariga com óculos de sol estampada num dos lados. «É tão original», resume.